Há várias formas de estar na psiquiatria. Uma delas, a que me parece mais interessante e mais desafiante — pois permite que nos surpreendamos, a cada vez, com aquilo que um paciente fala — é a psiquiatria que se compromete com uma escuta. Uma jovem residente de psiquiatria me disse ontem, numa de nossas discussões clínicas: “as pessoas de nossa idade não gostam de ligações telefônicas”. Discutíamos os contatos por WhatsApp com os pacientes, aquela fala sem voz, aquela ausência de diálogo. Numa escrita de WhatsApp, algo pode se dar a ouvir? Alguém poderia me dizer: “mas há os áudios! Ali tem voz!” Pode até ter voz, mas não tem conversa. Quando um psiquiatra se esquiva dessa possibilidade de escutar, o que resta? Resta remediar a dor que dói em algum lugar perdido entre os descaminhos do que é nosso, inteiramente nosso, e que pode ficar apaziguado sob um véu de silêncio. Contudo, essa dor se faz de palavras. E o psiquiatra pode ouvi-las. O que é muito. Isso é muito.
Mas e se os jovens psiquiatras não querem mais ligações? Meu Deus, eles não querem mais saber de ligações! Então, resta-nos a dor de uma moça irritada com o marido, que sai do consultório do psiquiatra com uma boa dose de remédio anti-irritação que há de vir a calar sua boca incomodada. É, estamos num tempo de bocas caladas.
Hoje cedo vi num perfil de WhatsApp uma moça ensinando a viver uma relação conjugal. Quais as atitudes perfeitas para que nada saia dos eixos? A felicidade mora nos itens checados e ticados. Felicidade de um traço. Numa lapada de traço. Assim: pronto, acabou! O remédio pode ser também essa lapada, não?
“Tem a morta e tem a viva, doutor”, diz a paciente irritada, bloqueada pelo antídoto que combate o veneno do desconforto. E aí, quem vamos escolher: a morta ou a viva?
Outra paciente, uma menina que tem graduação universitária, mestrado, está em vias de ir ao doutorado, e não trabalha em nada, e é uma menina, ela leva — em sua consulta no hospital psiquiátrico, depois de tantos atendimentos nos quais fora sozinha — a mãe e o namorado para o residente de psiquiatria que a acompanhava. Três dias depois lhe irrompe um estado de angústia. O psiquiatra nada ouve. Ela lhe pede socorro pelo telefone. Liga, liga. Ele não atende. Ele não ouve a ligação. Depois, ele vê a chamada, e nada se passa. Vazio.
Quem não está disposto a ouvir deveria fazer outra coisa. A moça ainda pede: “eu quero… com você”. O psiquiatra não escuta.
Estamos na era dos psiquiatras que falam no WhatsApp. Falam, vírgula. Balbuciam. Ensaiam. Vivem de ensaios. E, assim, o que se mantém é a morta. Os mortos-vivos espalhados pelas salas de recepção dos consultórios psiquiátricos, buscando nos médicos das dores o remédio pra sanar o que a eles escapa. Até quando vamos enfiar uma capa de faz-de-conta sobre a dor alheia para que se arremate o certificado de qualidade de bons e grandes profissionais?
Mas e se se mergulha nessa chance que a escuta traz, o que é que o psiquiatra poderá fazer com isso que ele ouve? Ele não é o psicanalista, nem o psicólogo. O lugar do psiquiatra é um lugar de médico. É um lugar. Ele pode dar lugar a essa voz que fala. E é muito. Isso é muito. Havendo necessidade de remédios, é a partir daí, dessa escuta, que ele pode escolher o que incidirá em sua letra, num receituário, numa orientação, em sua palavra de psiquiatra. Ele fará a sua conduta, sugerirá um tratamento, tendo por base aquilo que lhe foi possível ouvir.
“Você tem um médico da dor”, disse o médico residente à paciente irritada. O psiquiatra pode ser sim o médico da dor. Basta que ele ocupe esse lugar. E não é nada fácil, é verdade. Mas é possível. E é uma chance. É uma grande chance num universo de silêncios que fazem doer. Os jovens de hoje não querem ouvir silêncios, pausas, infelicidades conjugais não-instagramáveis. A bola da vez é o jogo de futebol sem barulho, sem quedas, sem dribles, sem som. Um jogo mudo, a agressividade temperada por uma boa dose diária de silêncio em forma de drágeas.
Mas há uma chance. Ela só pede que se pare e se ouça com atenção aquilo que nos é diferente, outro. Ouvir é um ato que pede um bom silêncio. E uma ligação. Não dá para se ir adiante numa escuta sem contar a ligação. A chance está aí!
Texto escrito em janeiro de 2026, em comemoração aos 10 anos de funcionamento do Ambulatório de Transtornos do Humor do Hospital Nina Rodrigues.