Objeto a Na Causa

José Oceli Junior

Sustentado no impossível, no umbigo dos sonhos, Freud escreve os fundamentos das leis que governam o Inconsciente e assim começa a fundamentar sua prática clínica. Mas como nós podemos falar da prática que opera sobre o impossível? Freud quer algo além da divisão, da Spaltung, o que não seja pura redução de um impossível traduzido em entrave.

O Inconsciente se abre para se fechar, como nos lembra Alayde. Não se trata de dois tempos (o fechamento já é a abertura). O que temos a ver com essa clínica? É ruptura da linearidade, desestruturação da sequência. E o que não é linear funciona de que forma? Existe funcionamento inconsciente? É admissível que algo possa estar sem necessariamente ser? Pois o Inconsciente não nasce, então não é. Dessa forma, nossa definição de funcionamento não é comum à da maquinaria científica. Freud não procura, Freud acha. 

O impossível posto por Freud é diferente e não pede para ser apreciado pelos limites da Razão, este impossível não intenciona escapar do redutível que se inscreve na ciência através da noção comum de impossibilidade. Freud não pretende a superação. Então é de se sustentar que haja outro impossível para Freud. Nossa causa, como Lacan coloca, não é uma causa que está antes: nossa causa é depois. Lacan articula outra temporalidade no Escrito O Tempo Lógico e a Asserção da Certeza Antecipada. Com essa articulação, o 1°, o 1 não está antes. É trabalhar com a causa olhando para frente. Freud escreve sobre o nachträglich.

E o Mito se insere, como nos diz Alayde, para se situar no lugar do real. Com isso, o real não está recoberto, ele não está lá. O real é irredutível ao tempo e ao espaço.  

Freud escreve: “Wo Es War Soll Ich Werden”, “Onde o Isso Era/Estava, Eu Deve Advir” (Nova série de lições introdutórias à Psicanálise, 1933). Mas falta local e hora que diga do evento desse Eu. O Eu ainda não está, mas deve advir. Freud não é alcançável.

Ato analítico. Em qual dimensão de espaço esta operação pode se sustentar? O que é o Inconsciente para cada um? Que susto ainda tomamos quando Freud escreve “O eu não é mais senhor em sua própria casa”? Esse Eu que deve advir… Freud, assim como a língua alemã, não tem gerúndio. Não há continuidade. O Inconsciente não está acontecendo. “Wo Es War Soll Ich Werden” mostra o irredutível, expõe uma lógica atemporal da qual Freud escreve em 1915.

Com essa frase, o Eu e o Isso estão suspensos, sem conclusão. “Onde o Isso era…”. O Isso não nasce, o Eu não se estabelece, pois ele “deve advir”. O Mito recobre a falta da origem. Não há origem. Com a psicanálise, lá onde a origem nunca esteve é possível a sustentação de uma falta radical, que Lacan nomeia como objeto a, na causa. Inscrição do vazio? O objeto a, sacrifício de uma operação – posto para ser extraído. Lacan avisa que isso não é um fazer. O inconsciente não cabe no mundo da existência. O Ato cabe em que mundo?

A divisão segue mantendo o mito lá… Não queremos nem saber. Não há origem, nem objeto. Ele como causa é um advento, artifício da psicanálise lacaniana. Nesse ponto, sempre Das Ding (A Coisa) colocada por Freud aparece… Mas e aí? Fazer o objeto passar no lugar da causa custa tudo. É por isso que a maior Revolução do mundo é a freudiana, porque ela desmunda

Na transmissão da psicanálise podemos fazer a série dos psicanalistas com Lacan, mantendo Freud, este 1, no seu lugar paradoxal de origem. Freud é contável? Pensemos nas gerações de analistas: é sempre necessário mais um, mais um, para confirmar os outros, infinitamente. Esse infinito é importante.

A interpretação precisa não ter endereço fixo, porque ela é um engendramento, não um achado. Dora, Hans, a Jovem homossexual, o Homem dos Ratos, o Homem dos Lobos, etc., todos estão suspensos como balões, por Freud e Lacan. Esses balões ainda estão em análise. É um dever mantê-los assim na Psicanálise. A Psicanálise faz a guarda do paradoxo do S1, do 1. Sempre às custas do 1 e de mais outro. A interpretação analítica só acontece uma vez, nunca de uma vez por todas.

Não se aprende a interpretação analítica, ela não está nos livros, nem na melhor resposta de um software. Em que condições é possível o Ato analítico? Deve haver outro  possível para que isso se articule, para que se articule do Isso ao Ato. 

Até onde alcanço, parece que uma operação (Ato Analítico) faria o lugar do analista se acoplar à falta do Significante. A transferência é o que invade a cadeia Significante. O lugar do analista é na Transferência. Faz pensar no que Lacan fala do Significante qualquer. Estaria aí o princípio do acoplamento? A transmissão de um não-saber pode ganhar lugar na Escansão, através dessa invasão da Transferência?

Podemos pensar em dois infinitos. O primeiro desses infinitos está na transmissão da análise, que se propaga rumo ao infinito, na série dos analistas com Lacan. O segundo desses infinitos sendo um tipo de resposta falha (cascata de a). O não-saber se articulará em um tal ponto no infinito, quando esses dois infinitos se sobrepuserem? Fim da revelação. 

Em A direção do tratamento e os princípios do seu poder (1958) Lacan afirma: “o analista pagará com sua pessoa, seja qual for o preço que lhe custe, esse preço é o de sua falta”. Não se paga porque se quis. Querer pagar ou não pagar também só denuncia que a transferência poder seguir sem Ato, crônica? A Psicanálise não é para todos, porque ela só é para cada um. 

A prática opera com o impossível? Mas e o Ato, ele suspende o impossível?

Agradeço por um lugar nessa Instituição, pela dimensão viva do Ato que tem por Significante AEPM, custeado por Alayde Martins. 1995 também agora.


 

Texto escrito para a Intersecção Aepm e Cartéis Lacanianos, a partir do trabalho com o Seminário De um Outro ao outro. Encontro, em julho de 2025, por ocasião do aniversário de 30 anos da AEPM.