Guia do principiante na Psicanálise

José Oceli R. P. Junior

Estamos extremamente advertidos por Sigmund Freud (1856-1939) e Jacques Lacan (1901-1981) de que o psicanalista será um psicanalista apenas na medida em que tenha terminado a sua própria análise, isto é, suportado, até o fim, o seu caminho de análise, passando pela experiência real desta clínica. Esta é a condição, preço mínimo a pagar, para se utilizar o nome da Psicanálise. Dessa forma, deveria ser desnecessário dizer que, para dispor do nome da Psicanálise, um psicanalista precisa ser um psicanalista e ter se submetido ao lugar de membro de uma Instituição de Psicanálise.

É assim o trabalho de transmissão da Psicanálise: o sujeito deitado em um divã por longo tempo, disposto a sofrer as consequências da sua fala, disposto a se submeter à soberania e à radicalidade do Inconsciente, ou seja, com a coragem de ser escutado por um psicanalista. No fim, se assim for, este paciente pode advir como um psicanalista. São as consequências de sua própria análise e de sua presença, entre os psicanalistas da Instituição, que o autorizarão ao início dessa prática clínica, como exigem Freud e Lacan. Tanto os iniciantes quanto os mais experientes, portanto, se submetem ao tripé da formação estipulado por Freud: análise pessoal; estudo na Instituição; e supervisão sobre as experiências na prática clínica, submetidos a um analista supervisor.

Fora dessa direção, todo e qualquer consultório que apenas contenha a placa “Psicanálise/Psicanalista” se torna uma simulação, uma marginalidade quase sempre sustentada por um sujeito perverso. Se não por um sujeito perverso, seguramente por uma ação perversa, já que todos nós estamos advertidos sobre as exigências e condições estruturais da formação em Psicanálise. Tais perversos são os mesmos que fizeram empresários acreditarem que seria possível a criação de um “curso universitário de psicanálise”.

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Um psicanalista é o resultado de uma psicanálise. A Universidade não dispõe da possibilidade de produzir um psicanalista, posto que o psicanalista não é uma conquista, mas sim uma perda, uma consequência subjetiva decorrente exclusivamente da Psicanálise em Ato, onde aquele que é a consequência dessa clínica também é a causa dessa transmissão. Só existe Psicanálise na transmissão clínica, de análise em análise, nunca em série, ou seja, em uma sala de aula.

O efeito e produto do Inconsciente são restos e destroços. Estes detritos escapam da repetição das operações metonímicas da Cadeia Significante. Por sua vez, a Psicanálise é a prática clínica capaz de interferir e dar lugar aos restos metonímicos, reconhecendo neles – quando for verdadeira – a função do Significante. A partir disso, e suportado na Transferência, o Inconsciente pode encontrar com o vazio do lugar do analista, engendrando as condições da Escansão, Escansão do Significante, nunca coextensiva ao espaço físico, ao tempo cronológico, às predileções, ao bem ou ao mal.

O psicanalista não é uma aquisição de conhecimento: o psicanalista é uma perda de conhecimento e de saber. Sendo assim, isso não denuncia qualquer incapacidade da Universidade, mas apenas expõe o que não é de sua atribuição. A Universidade sempre cumpriu com a função de formar profissionais e fazer avançar o conhecimento científico. Mas a Psicanálise não é uma profissão, não no sentido estrito e comum dessa palavra – como também não é, nem se pretende, uma Ciência.

É importante dizer que o curso de Psicologia não autoriza um indivíduo ao exercício da Psicanálise, pois um psicólogo não ocupa a posição subjetiva necessária à condução de uma análise; o psiquiatra também não. Só um psicanalista conduz uma análise. A posição subjetiva de um psicanalista, ele a ocupa por efeito da sua própria análise. É obviamente necessário ter se submetido e terminado a sua própria análise.

Por posição subjetiva entende-se a série de perdas e deslocamentos que o psicanalista precisa ter atravessado, ele mesmo deitado no divã. Essa é a condição mínima para a sustentação do tratamento clínico que visa O Inconsciente, no tratamento psíquico denominado de Psicanálise por Sigmund Freud. Então, nesse ponto, talvez já seja possível compreender que a simples leitura dos livros de Freud ou dos Escritos e Seminários de Jacques Lacan não produzem um psicanalista.

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Sou psicólogo de formação, tendo sido graduado na Universidade Federal do Maranhão. E é claro que um psicólogo, um psiquiatra, ou outro sujeito podem fazer análise ou terem terminado as suas análises. Não é relevante qualitativamente se o indivíduo é psicólogo ou engenheiro. Só uma análise, levada até o fim, autoriza um psicanalista, como insiste em nos exigir Jacques Lacan. Como Freud coloca: o grande requisito central é a análise pessoal, e o consequente deslocamento subjetivo deste sujeito – sempre testemunhado por outros membros na Instituição de Psicanálise.

Só se é psicanalista nas condições acima e em constante formação. A formação em Psicanálise é para toda a vida e não se encerra em um “curso”. É por isso que não há “formatura”, simplesmente porque a obrigação mínima é que o estudo seja constante durante toda a vida, na Instituição. Isso é óbvio. O psicanalista sabe que a formação lhe custará toda a sua vida, e nada menos do que isso. Então, de análise em análise, os sujeitos submetidos à Lei verificam e atestam que a Psicanálise só se sustenta exclusivamente em uma transmissão que exige perdas narcísicas ao analisante. Ninguém escolheria perder. A Psicanálise só pode ser noticiada na Universidade – e nada mais do que isso.

Não se aprende, não se compra a análise, pois a análise é transmitida na experiência clínica, apenas. Aquele sujeito que um dia talvez esteja autorizado a praticá-la deve ter necessariamente sofrido todo o percurso como paciente do tratamento psicanalítico, ele mesmo deitado no divã. Essa via é única. Essa também é uma base da Ética da Psicanálise, pois, para a Psicanálise, não existe uma separação entre teoria e prática: essa teoria já é a prática; a prática já é a teoria em Ato. A tentativa de venda no varejo da teoria da Psicanálise é uma perda de tempo – também é a perda dos escrúpulos. Essa teoria só se sustenta em Ato, como efeito da clínica, como produto de sua transmissão.

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Freud e Lacan expressamente desautorizam qualquer outra direção que não seja a da transmissão da Psicanálise, no divã. As centenas e milhares de instituições psicanalíticas no Brasil e no mundo, que fazem um trabalho sério de estudo clínico diário, década após década, obviamente cobram um preço subjetivo alto a cada um que se submete a esta transmissão. O preço é alto; nem todo mundo quer pagar esse preço. Mas é apenas assim que se reconhece um psicanalista: quando ele se submete ao percurso da própria análise e quando se submete à Instituição de Psicanálise. Assim, ele se torna responsável pela Psicanálise e passa a fazer parte da verdadeira História do Movimento Psicanalítico.

Uma vez advindo no lugar do psicanalista, na sustentação do Discurso do Analista, o seu trabalho é submetido à escuta de toda a Instituição, de modo a ser constantemente colocado em xeque e supervisionado. Em vista disso, aquele que não terminou sua análise, e que decide não pagar esse preço, não possui a legitimidade para utilizar o nome da Psicanálise. Freud afirma textualmente que tal sujeito ocorre em infração quando utiliza o nome da Psicanálise e não se submete ao funcionamento, às obrigações e aos princípios dessa clínica, desta Ética.

Não dar essas provas à Instituição não é uma opção a um psicanalista – essa também é uma segurança aos pacientes que realmente estão em análise. Portanto, a proposta de criação de “cursos universitários de psicanálise” é uma iniciativa marginal, já que o Inconsciente não se materializa, já que o Inconsciente pertence a uma temporalidade não cronológica. É que o Inconsciente possui funcionamento gerido por suas próprias Leis. E um curso universitário não pode nada com O Inconsciente. Aliás, “O Inconsciente” é o título de um texto de Sigmund Freud (1915).

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A Psicanálise é a clínica que trata das Formações do Inconsciente. E o ensino das Leis do Inconsciente só adquire legitimidade e real função se veiculado através da experiência que se recebe, em transmissão, na análise pessoal. Não existe a possibilidade de se receber “aulas” de Psicanálise. Dessa forma, a teoria se tornaria apenas a aquisição banal de uma leitura, absolutamente desconectada da transmissão, uma leitura destituída do peso de um Saber sobre o Inconsciente em Ato – esta sim a experiência literal de uma análise.

O Ensino da Psicanálise só é possível quando atravessado pela experiência pessoal da análise. Quem faz análise, mesmo sem nunca ter lido Freud ou Lacan, segue em direção ao lugar vazio do analista, sem garantias, sem violação, e na responsabilidade por si, sempre característica dos sujeitos que se submetem a esta transmissão. Já aqueles que tomam a direção oposta não chegam a sair do caminho da Psicanálise, haja vista que, dessa forma, não chegam a adentrá-lo.

A Psicanálise não é a estrita leitura do que está nos livros: ela está na análise e no Ensino disponível na Instituição. Por outro lado, o que nunca cessa, e que está sempre em tudo o que for lugar é a falha no saber, que nenhuma leitura resolverá. O saber sempre escapa, o saber falha, já que essa é a marca do funcionamento do Inconsciente. O saber falta, mas O Inconsciente sobra, soberano. No trajeto de uma análise é possível saber algo a mais do que escapa. Mais uma vez, somente aqueles que fizeram análise podem falar desse algo a mais… O indivíduo que está em um “curso” de Psicanálise está fazendo um nada. Seu destino deveria ser o da análise e, em seguida, o da Instituição.

Freud dedica a experiência de toda uma vida para mostrar que O Inconsciente tem suas próprias Leis. A Psicanálise mostra e descreve o funcionamento dessa clínica pautada apenas nas próprias Leis do Inconsciente. Portanto, o preço a ser pago por um psicanalista é a necessária condição para a sustentação dessa clínica que trata do Inconsciente. É por isso que o rigor da Psicanálise é cláusula pétrea. É por isso que Freud e Lacan estipulam os deveres da formação de um analista. Não há a doma do Inconsciente. Dessa maneira, a decisão de um indivíduo em não se submeter aos limites dados pelo próprio Sigmund Freud é um ato flagrante de violação, de delinquência declarada, quando este indivíduo utiliza o nome da Psicanálise sem ser um psicanalista, sem ter terminado uma análise, sem estar na Instituição de Psicanálise. Não existe Psicanálise fora dessas condições. E só nesta medida a Psicanálise se define como uma clínica.

O Ensino da Psicanálise só existe quando está cruzado com a transmissão, ou seja, com a análise pessoal. E somente a Instituição de Psicanálise é responsável e capaz de transmitir esse Ensino. E embora possa ter sido sim bem intencionada, a compra dos livros de toda a obra de Sigmund Freud, de Jacques Lacan, ainda assim essa é uma ação sem valor clínico algum, caso não haja transmissão da análise no divã. Inclusive, para a Psicanálise, não importa o nível de graduação universitária de alguém, contanto que este sujeito faça análise e faça a sua formação na Instituição.

É digno de nota que a Psicanálise sempre esteve disponível nas cidades do mundo a quem quer que peça para fazer sua análise. O perverso é aquele que pula o muro, mesmo quando a porta está aberta.

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Não há como vender a capacidade de escuta clínica de um psicanalista. Comprar um “curso de psicanálise” significa a ausência completa de qualquer aptidão clínica. A Psicanálise não é uma técnica. Freud às vezes a chamou de técnica apenas para melhor inseri-la no mundo. O psicanalista é uma posição subjetiva atingida apenas e exclusivamente através da análise pessoal. A Psicanálise é a teoria sobre a queda narcísica, a construção teórica do trabalho com o Inconsciente, geradora desta outra posição subjetiva no mundo, a do psicanalista.

Não há nenhuma análise senão a causada pelo vazio do lugar do analista, pelo corte do Significante. Na hipótese do balcão fictício de comércio dos “cursos de psicanálise”, o vendedor sabe que o produto não existe e o comprador sabe que leva uma mala vazia para casa. Se o comprador ainda não sabia, sabe agora.

É que O Inconsciente só pode ser escutado, em Ato, apenas por um psicanalista. E, quando o trabalho de análise avança, o paciente escuta também. Isso é um limite, isso é assim. A tentativa de venda do que nunca será mercadoria não é só uma tapeação, quanto também é um ato de contravenção daqueles que nas cidades usam placas com o nome da Psicanálise sem estarem autorizados a isso.

Que se entenda: só existe Psicanálise na transmissão do divã de um psicanalista. Um divã, sem um psicanalista, é apenas um sofá; um consultório, sem clínica, é apenas uma sala.

Dessa maneira, fica patente que ninguém pode se autodeterminar, se autoproclamar psicanalista. É obrigatório ter se submetido a um analista e ter atravessado a análise. Mais ainda, o surgimento de um psicanalista é um advento que deve sempre ser testemunhado por outros analistas, que imediatamente o reconhecem ou o destituem como psicanalista na Instituição, na cidade e no mundo.

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Apenas o psicanalista pode tratar e suportar clinicamente as formações do Inconsciente. A importância disso tem a ver com o fato de que O Inconsciente não pede licença e sempre retorna com mais força. O Inconsciente não está escondido, e é por isso que sempre causará o assombro em plena luz do dia. O Inconsciente só é em Ato, o que significa que nenhuma mão o manipula. A Psicanálise não é o Inconsciente – nem ousa sê-lo. Só um analista sustenta o que não estava lá, sustenta o que insiste em escapar.

Os psicanalistas, isto é, aqueles que se submeteram e fizeram análise, compondo a Instituição, são as testemunhas de uma prática clínica que escuta estas Formações do Inconsciente, prática que escuta o corte Significante, no encaminhamento à falta de Significante no Grande Outro. Só o lugar vazio do analista (o que não significaria sua simples ausência ou mesmo a falta ou presença literal e irrelevante de sua pessoa) é capaz de engendrar o encaminhamento à falta de Significante no Outro e ir além disso – falta renovadora da antecipação análoga à retroação sintomática, sempre remetida a nenhuma origem, aprisionada a vagar no limite cronológico do fechamento da temporalidade do Inconsciente, do que não era, até que fosse, no passo sustentado a partir do lugar vazio do psicanalista, uma Escansão. Jacques Lacan não ensina a clínica, ele a transmite, nos convoca à análise.

“Wo Es War, soll Ich werden”, nos anuncia Freud. A pura retroação Significante não atesta nada mais do que a Repetição, o empuxo ao fim, a consecução, o trabalho da pulsão de morte. Fora da Lei, o Significante dará lugar à perfuração, à perturbação. Quando banido, o Significante não nos salva em nada do objeto a. Só a clínica psicanalítica dá lugar ao Significante.

O Inconsciente sempre cobrará o seu preço aos que em pura contravenção acreditarem manipulá-lo, pois O Inconsciente acorda exatamente quando o Sujeito devaneia ou dorme, sempre desprevenido. Isso precisa, mais uma vez, não se inscrever. Reside aí a função salutar da Cadeia Significante: permitir que o Inconsciente não se inscreva, mais uma vez, Encore.

Negligenciar recomendações tão sérias como as de Freud e de Lacan, tentar destituir o Significante de seu lugar e função Inconscientes é fomentar a própria desgraça e o desastre alheio – à despeito do Significante que sempre seguirá indestrutível, gratinando e corroendo os desvelados.

O marginal é aquilo que não alcança a borda, que nunca atinge o litoral. O Inconsciente é o intervalo contra o qual não há qualquer prevenção. A Psicanálise é uma clínica em Ato.