Como alguns já sabem, eu me apresso em dizer ou fazer coisas, em várias ocasiões. Acho que foi isso que me fez dizer um dia para Alyssandra, como que do nada, que no dispositivo Oficina da Clínica Psicanalítica com Crianças e Adolescentes eu escreveria sobre a mentira.
Dias depois, quando ela retomou o que eu havia falado para ela, eu mesma me surpreendi. Eu disse isso? Será que eu que estava mentindo? Será que disse isso, mas não queria falar da mentira? Afinal, falar da mentira… não me sentia confortável. Só que resolvi enfrentar!
Comecei pensando em Freud[1]. Ele nos diz que entre os 3 e os 5 anos algo como uma pulsão de saber ou de investigar se inscreve na criança, pulsão essa que não está entre os componentes pulsionais elementares, nem tampouco está subordinada exclusivamente à sexualidade. Contudo, ainda segundo Freud, essa pulsão de saber ou investigar tem relação muito significativa com o sexual: “(…) a pulsão de saber é atraída, de maneira insuspeitadamente precoce e inesperadamente intensa, pelos assuntos sexuais, e talvez seja até despertada por eles” (p. 182).
Bergès e Balbo[2] se perguntam: só há teoria sexual porque há pulsão, ou seja, que “o menino tenha uma ereção ou a menina se toque, é isso que os obriga a fazer hipóteses?” (p. 21). O que impulsiona as crianças? O desejo de saber advém puramente do incitamento de suas pulsões, pulsões egoístas, nesse caso, de acordo com Freud, em razão da chegada “conhecida ou suspeitada” de um novo membro da família?
Bergès e Balbo dizem que, segundo Freud, há algo que impulsiona as crianças a fazer teorias e esse algo é o seu corpo erotizado. As teorias ou hipóteses encontram sua origem nos componentes da pulsão sexual agindo sobre o corpo. E Bergès lembra que Freud diz que, por procederem do pulsional, as teorias sexuais infantis trazem fragmentos da verdade, elas tocam uma parte da verdade.
Se a formulação das teorias sexuais é impulsionada pelo corpo erotizado e trazem algo da verdade, então não há espaço para “invencionices”, para “enredos embusteiros”! Oba… não vou precisar falar da mentira! Mas não é bem assim.
Embora tais teorias expressem “uma maior compreensão dos processos sexuais do que se pretenderia de seus criadores”, elas contêm “erros grosseiros” que têm a ver com a “constituição sexual da criança“ para quem dois elementos são desconhecidos: “o papel do sêmen fecundante e a existência do orifício sexual feminino” (Freud, p. 184).
Olha que interessante! O fragmento da verdade contido na teoria está ligado ao corpo, mas esse corpo, ele é desconhecido. Saber verídico, desconhecimento, teorias que a criança faz para tentar dar conta da maneira pela qual as crianças são concebidas, trazendo a questão sobre o que está em jogo na relação sexual. Esse confronto de um saber “verídico” com o desconhecimento que impregna esse mesmo saber não é suficiente, pelo menos não imediatamente, para que a criança não elabore ou não tente elaborar teorias, mesmo que ela acabe renunciando às suas pesquisas em função do “atraso” da sua organização sexual, de acordo com Freud.
Enquanto não desiste das teorias e elas não passam pelo recalque, como a criança vai dar prosseguimento às suas pesquisas senão criando, de certa maneira inventando, dando uma “resposta” que é só dela?
Mas como isso é possível? Os autores se perguntam: isso é um processo espontâneo, resultado do fato do corpo ter orifícios? Ou isso tem a ver com a relação da criança com o Outro, com o discurso do Outro?
Eles dizem que é preciso que esse desconhecimento seja retomado pelo outro, os adultos, ou mais especificamente os pais. Enfim, os que têm valor de autoridade para a criança. Estes supostamente “sabem”, mas têm grande responsabilidade do lado do desconhecimento. E por quê? Porque esse saber nascente da criança (como eles chamam) ainda que com “erros grosseiros”, vai “se chocar com o que disso o outro não quer nada saber” (p. 17).
Balbo destaca a afirmação de Freud de que o avanço da criança em direção a um saber mais exato encontra-se continuamente obstaculizado pelo discurso do outro, e mais especificamente, pelo que está em questão para a mãe em relação à sua própria verdade sobre a relação sexual. “Essa criança, como é que ela faz para tê-la? Não está claro que ela saiba…” (p. 19).
Os autores colocam que “a mãe tem necessidade de fazer a hipótese de que seu filho, sua filha lhe dirá um dia por que e como ela o (a) concebeu. Ela vai esperar”.
Eles, inclusive, fazem a seguinte pergunta, pergunta que dá título ao capítulo 1: A teoria sexual infantil: será que a criança a inventa ou ela participa da hipótese que a mãe faz sobre o saber de sua criança?
Os autores advogam que a criança faz teoria, sua teoria, porque a mãe supõe que ela é capaz de fazê-la. Só que para isso, ela tem que ser capaz de se supor, a ela também, desconhecendo algo, para poder deixar que seu filho possa ele dizer uma “ponta disso”.
Essa é uma dinâmica contraditória porque a criança se dirige ao adulto, supondo que ele sabe. A criança pergunta e o adulto responde, mas como responder ao que não tem resposta? Ou ao que o adulto inventou para si mesmo?
A mãe pode querer responder tudo a todas as perguntas que a criança faz, mas os autores dizem que isso é a catástrofe, com a criança só podendo seguir em frente se a mãe é interrogativa, se admite alguma falta.
Assim, o discurso do outro tanto dificulta que a criança leve adiante seu trabalho teórico como também possibilita esse trabalho.
Mas nenhuma teoria corresponde à realidade, não há um ponto que seria a reprodução exata do que se passa. Não se pode conhecer diretamente, passamos pelo significante e é em função de estarmos na linguagem que algo sempre vem faltar, não há representação perfeita. Assim, nenhuma teoria é direta nem convincente, ela sempre falha exatamente por se falar disso, mas a própria teoria coloca a questão que, segundo Balbo, é chamada de questão incessante por Freud: “O que você quer? O que é? Conte-me” (p. 42).
A criança nunca recebe a mesma resposta, mas trata-se sempre da mesma questão. Só que tudo isso não é fácil assim.
Como falei antes, na relação com a criança está funcionando na mãe algo da sua verdade no campo do sexual, ou seja, a teoria que ela fez desde criança, ou melhor, a sua invenção, ou, podemos dizer, sua mentira.
Assim, a criança, por um lado, “sabe algo que não deve saber” (p. 48) e de certa maneira nega esse saber. Por outro lado, sabe algo que ela sabe não ser verdade nos discursos que seus pais lhe sustentam. Assim, o imperativo de fazer teorias vem desse discurso mentiroso sustentado pelos pais.
A sexualidade impulsiona a criança a fazer teorias que os autores chamam de justas. Por outro lado, o campo do discurso propõe “o quanto é bom ser mentiroso em relação ao campo da sexualidade, como se lhe tivesse sido proposto um imperativo de mentir”.
Os autores dizem que não é meramente uma mentira, já que se trata de algo para acreditar, já que à questão formulada pela criança os pais respondem taxativamente: “as crianças são compradas nos supermercados” ou “as cegonhas trazem as crianças”, tanto faz a frase, é dita como: é assim mesmo.
“Essa mentira será algo com o qual, durante toda a vida, o sujeito irá atrapalhar-se. Esse imperativo retorna sem cessar nos sintomas e discursos registrados nos divãs” (p. 49). Será por isso que tive tanta dificuldade de falar da mentira? Porque afinal, nossa verdade, que não é outra que não a do sexual, não passa da mentira que construímos e levamos pela vida afora.
[1] Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905).
[2] A atualidade das teorias sexuais infantis (2001).
* Texto apresentado na Jornada da Oficina da clínica psicanalítica com crianças e adolescentes, 2024