Por uma clínica psicanalítica das paranoias

Cristiano Henrique Pereira Silva

A primeira palavra que me vem no início desta escrita é “construção”. Acredito que seja porque o trabalho no Cartel com a tese do Lacan me fez lembrar o seguinte trecho da música de Chico Buarque: “tijolo por tijolo num desenho lógico”. A tese do Lacan me pareceu um primeiro tijolo nesse desenho da construção de uma clínica com as paranoias, o traçado que funda uma prática clínica, que, sendo subversivo e ousado, lança novidades no cenário do tratamento analítico das psicoses. Penso que esse traçado é um esboço do que Lacan engendrará, vinte e três anos depois, em seu inovador Seminário 3, aquele dedicado às estruturas freudianas da psicose. Tanto em sua tese como em seu terceiro seminário, podemos observar o quanto a doutrina estabelecida por Lacan tem as suas premissas na doutrina freudiana, permitindo-se avançar a partir dela.

Em suas Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia, Freud dissera que os analistas não deveriam aceitar pacientes paranoicos, visto que a psicanálise não possibilitaria um sucesso terapêutico nesses casos. Nesse mesmo texto, ele nos diz que a paranoia deveria ser mantida, como sugerira Kraepelin, como uma entidade clínica independente de outros tipos de psicose. Constata-se, hoje, que estamos diante da proliferação de uma nosografia psiquiátrica excessivamente descritiva, consensual, clinicamente pouco aplicável, que exclui as singularidades e as complexidades escancaradas pelas questões das psicoses. Os manuais de diagnóstico psiquiátricos mais atuais (CID-11 e DSM-V) mantém a eliminação das paranoias em seu escopo classificatório, mantendo-as somente enquanto termos de uma adjetivação, um especificador veiculado a alguns quadros psicóticos, como um subtipo de esquizofrenia (a esquizofrenia paranoide), o transtorno de personalidade paranoide, e o transtorno delirante, ou seja, algo totalmente antagônico à indicação freudiana. Abriu-se, portanto, espaço para a pulverização de uma série de transtornos mentais intercambiáveis, sobretudo no terreno das psicoses, desembocando numa clínica repleta de comorbidades psiquiátricas (a regra é a associação de diagnósticos) e numa polifarmácia, ambas comprometidas com a farmácia e o com o silêncio. 

Na primeira parte de sua tese, Lacan recorre aos imprescindíveis ensinos de psiquiatras clássicos, como Clérambault, com a sua noção de automatismo mental, e Kraepelin, com sua descrição que delimitou a noção de paranoia, retirando-a de um lugar de significação bastante indefinida, para outro, onde ela é enunciada como “um duradouro sistema delirante, impossível de ser abalado, e que se instaura com a conservação completa da clareza e da ordem no pensamento, na vontade e na ação”.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção nas discussões acerca da tese de Lacan foi quando, ao estudarmos a segunda parte do livro, observamos o quanto ele destrincha, minuciosamente, as elaborações do delírio de uma paranoica, a paciente Aimée, observada por Lacan durante aproximadamente um ano e meio, quase que diariamente. Respaldado no ensino de Freud sobre as memórias de Schreber, Lacan aborda a formação delirante, tomando-a não como um produto patológico, mas como uma tentativa de reelaboração, de reconstrução. Com esse caso clínico, ele formula um novo tipo de paranoia, a paranoia de autopunição, trazendo o texto do drama delirante de Aimée, apontando as formas gramaticais utilizadas, a combinação de temas persecutórios (ideias de ciúme) e de grandeza (um idealismo reformista, em sonhos de uma vida melhor, na realização de uma grande missão social). Em se tratando da perseguição, Lacan traz que Aimee escolheu como perseguidora uma atriz de teatro bem-sucedida, aclamada pelo seu público, famosa e rica. Aimeé também sonhava em ser uma escritora reconhecida por sua arte, influenciar as pessoas. Lacan ressalta essa ambivalência e os mandamentos da missão delirante que ordenam que Aimée aja, publicando os seus romances, livrando-se, assim, de seus inimigos, que recuariam a partir de então. Lacan apresenta esses mandamentos como um dos recursos da organização delirante. Lembrei-me de uma paciente que, diante de uma vizinha perseguidora que, insistentemente, colocava “copos de vidro demoníacos” em seu muro durante os silêncios escuros das madrugadas, elabora uma saída, pelas vias de seu delírio: sua salvação seria levar esses copos para serem descartados nas lixeiras do Hospital Psiquiátrico. Com isso, ela se tornaria mais forte que a vizinha, concluindo que: “vou ser mais filha de Deus do que ela acha que é, mais bem-dotada de palavras do que ela, nos cultos de nossa igreja”.

E o que faz Aimée após o insucesso de suas tentativas de saída? Ela tenta assassinar uma imagem idealizada dela mesma, a atriz, a mulher ilustre e renomada: a sra. Z. O nome da atriz chegara ao seu conhecimento por meio de sua melhor amiga, que veio a se tornar sua principal perseguidora, após esta, por telefone, pedir-lhe notícias a respeito do desenlace infeliz de uma primeira gravidez. Lacan escreve: “é com o trauma moral da criança natimorta que aparece em Aimée a primeira sistematização do delírio em torno de uma pessoa, a quem são imputadas todas as perseguições que ela sofreu. Essa espécie de cristalização do delírio se produziu de forma tão súbita que o testemunho espontâneo da doente não deixa dúvida”. Sem conseguir confessar seu delírio, tudo se afunilará para essa relação dual (ela e a outra, a atriz, a célebre). Essa mulher idealizada precisará, então, ser retirada de cena. Acredito que, a partir do estudo da tese do Lacan, podemos dizer que Aimée se viu diante da ausência de qualquer recurso que pudesse barrar esse outro em espelho, colocando aí alguma cisão, alguma separação entre a imagem dela mesma e a imagem dessa mulher ideal, o que fez irromper, assim, o surto delirante e o ato agressivo, a posteriori. Creio ser possível pensar que seja essa falta de recurso ao Outro, essa dimensão foracluída, que coloca o paranoico numa militância competitiva com o seu ideal. Depois que Aimée ataca e fere esse duplo, há gradativamente uma atenuação de seu delírio. Isso certamente não se dá sem a internação, que lhe dá algum lugar diante da escassez de separação entre ela e o outro.

Freud dissera que a tentativa de cura, na paranoia, se dá pela projeção. Lacan se inspira nas elaborações freudianas, ao escrever a sua tese, abrindo a interrogação a respeito da possibilidade de uma clínica psicanalítica das psicoses. Em sua tese, Lacan é kraepeliniano, dando à paranoia um lugar singular. Chama o delírio de Aimée de um delírio de interpretação e diz que o primeiro traço característico do delírio é a sua clareza significativa. Em seguida, escreve algo que ficou ecoando em meus ouvidos: “pode-se dizer que, ao contrário dos sonhos, que devem ser interpretados, o delírio é por si mesmo uma atividade interpretativa do inconsciente. Estamos diante de um sentido inteiramente novo que se oferece ao termo delírio de interpretação. Que se interrogue, contudo, o doente sobre as origens históricas de suas convicções delirantes, e então aparecerá o segundo traço característico do delírio, a saber, sua imprecisão lógica”. Lacan chega a percorrer alguns escritos de Aimée, e faz, com eles, um trabalho único, impressionante, inspirador, observando um estilo em que se pode notar “traços de automatismo”, fuga de ideias. Escreve que “o grafismo chama atenção por sua rapidez, sua altura oscilante, sua linha descontínua, o defeito de pontuação. Todos esses traços se enfatizam nos períodos que correspondem a uma exaltação delirante”. Esse nível de trabalho com o trabalho do delírio foi um dos pontos que mais me chamou a atenção em toda a tese. Lacan não se economiza nem um pouco em destrinchar os percursos do delírio paranoico interpretativo de sua paciente. Embora em alguns pontos isso sugira um certo foco numa compreensão, Lacan abre questões no campo das psicoses. Veio-me, agora, um trecho das primeiras lições de seu Seminário 3, e que, frequentemente, volta para mim: “o progresso maior da psiquiatria consistiu, acredita-se, em restituir o sentido na cadeia dos fenômenos. Isso não é falso em si. Porém, o que é falso é conceber que o sentido de que se trata é aquele que se compreende. O que teríamos aprendido de novo, de acordo com o que se pensa de maneira ambiente nas salas de plantão é compreender os doentes. É uma pura miragem”.


 

Jornada do Cartel “Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade”, em 2025.