Durante o percurso que Lacan expõe em seu Seminário, partindo de um Outro ao outro, o saber é questionado e movido de certa forma que não me pareceu sem importância. É sobre o que ele faz com esse saber que eu gostaria de me deter um pouco mais. Sem a pretensão de fixar ideias, o que já seria tomar uma posição quanto ao saber, mas para tentar colocá-las em jogo no percurso que posso fazer, retomo a seguir alguns pontos do Seminário 16, até o ponto em que pude avançar na leitura.
Lacan, a certa altura, designa o saber como uma forma de relação conosco mesmos. Contudo, não é sempre o mesmo saber que está em causa, ou ao menos não é o saber sob a mesma forma. Há momentos em que Lacan fala de um saber científico. Há muitos outros momentos em que o saber está referido ao horizonte filosófico, especialmente à filosofia hegeliana que desemboca em uma ideia de saber absoluto. E há aquilo que chamamos de saber inconsciente. O que nos permite nomear coisas tão díspares com a mesma palavra, talvez seja a ideia de que elas se constituem umas contra as outras, são, por assim dizer, antitéticas.
Saber não é trabalho: o saber, diz Lacan, é valor, valor de uma renúncia ao gozo, o que não basta para que ele se confunda com o trabalho. Contrapondo-se à tendência que podemos ter de pensar o saber como resultado de um esforço de aprendizagem, o que Lacan diz é que o saber difere radicalmente de uma aprendizagem. Apesar de me parecer um pouco mais difícil acompanhar como isso poderia ser afirmado em relação ao saber escolar em que somos deformados, é consequência necessária do que podemos formular sobre a existência de um saber inconsciente. Este saber, ninguém o aprendeu. Na realidade, podemos aprender bastante sobre o assunto e continuar sem nada saber. Não é o caso mais comum?
Lacan diz que a psicanálise não é um saber do sexual e tampouco uma teoria do inconsciente: não é que ela não introduza algo de decisivo a respeito, mas que isso não faz um saber nem constitui sua teoria. A teoria psicanalítica é teoria de uma prática que nos leva a falar de um saber que não se sabe ou, como também dizemos, um saber não sabido. O que está nessa partícula indeterminada, nesse “se”, é o próprio saber ou aquele que por esse saber está sendo guiado às cegas? Penso tratar-se do eu mas, ao mesmo tempo, é pertinente dizer que esse saber não pode ser transparente a si mesmo, contrapondo-se radicalmente à noção de um saber que se sabe, equivalente a uma pura consciência de si. Quanto ao tempo verbal do não sabido, o que me ocorre é que ele comporta a noção de um saber que sempre só pode ser um saber por vir. O sabido como o que é conhecimento e o a saber como próprio do que é inconsciente, advindo do corte, pois floresce na falha. Ele dá a saber.
Retorno um pouco ao termo que se destacou antes: renúncia ao gozo. Essa renúncia, que não deixa de referir ao que em Freud está formulado no mal-estar na civilização, é o que está no cerne do que Lacan chama de mais-de-gozar, onde podemos isolar a recuperação de algo desse gozo irrealizável, algo que talvez só seja porque gozo mesmo não há, enquanto absoluto. Se saber é meio de gozo é nessa trilha que podemos concebê-lo.
Pouco adiante, Lacan diz que a maneira como cada um sofre em sua relação com o gozo, porquanto só se insere nela pela função do mais-de-gozar, é o sintoma (p. 40). O saber então, podemos dizer, entra nessa composição. O sintoma tem um saber, tem um valor. E a verdade, qual interesse ela pode ter aí?
A ciência atual se desembaraça da preocupação com a verdade e funciona por outros parâmetros. Mas a verdade ainda assim nos concerne e gostamos de acreditar que o saber porta a verdade, e isso faz parte do brilho que ele pode ter para nós. Geralmente enlaçados em uma apreensão ingênua, com Lacan vemos que saber e verdade estão separados, não estão no mesmo lugar, e isso é fundamental para mostrar o que Lacan parece apontar como trabalho para mais adiante: a topologia na qual o que é disjunto pode se unir, a verdade e o saber na garrafa de Klein.
Antes disso, ele lança mão de outra via para dizer algo sobre o saber. Dessa vez o faz sob a forma de S2, significante diante do qual o significante que viria representar o sujeito vem se esvanecer. Em S2, função do saber, perde-se o sujeito. Ao demonstrar que apesar de só articular-se a partir do Outro, S2 está fora do Outro como tal, isto é, não pode sustentar-se aí, Lacan parece indicar essa marca de origem de todo saber (p. 81). É do que é inconsciente que parte todo saber, e é essa a razão pela qual esse saber não se faz todo. Em outra lição podemos ler: “o saber, como saber perdido, está na origem do que aparece de desejo em toda articulação possível do discurso” (p. 197).
A falha inerente ao saber é por onde o desejo toma lugar. E é o que está no cerne da afirmação de que o desejo é desejo de saber, desde que, alerta-nos Lacan, coloquemos uma espécie de parênteses nesse “de saber”. Isso nos impede de recair na ideia de que o desejo inconsciente teria outro objeto que não este que o causa e que constitui sua verdade.
A verdade é o que falta ao saber, e a própria psicanálise é um saber sobre esta verdade à qual o saber falta. Se a psicanálise pode dizer “você pode saber” é sempre na perspectiva de que esse saber em questão coloca-se no rastro da verdade, mas não a diz, não a alcança, e não por contingência, mas porque determinado na estrutura. Esse saber, aquele que nos importa, assim como o desejo, sempre comporta uma impossibilidade. Ele não é articulável, não é saber de nada que possa ser apontado, a não ser para apontar sua incompletude.
Para encerrar essa descrição bastante preliminar do que Lacan faz neste seminário em relação ao saber, escolho voltar ao momento em que ele fala do que nas universidades é a marca da mercantilização do saber: “Nem se cogita, por ora, que se detenha o mercado do saber. Vocês mesmos é que agirão para que ele se estabeleça mais e mais. A unidade de valor, esse papelzinho que pretendem conceder a vocês é isso. É o sinal daquilo em que o saber se transformará cada vez mais, nesse mercado chamado Universidade. A verdade pode ter funções espasmódicas aí, mas não é isso que regerá para cada um sua existência de sujeito” (p. 42).
De alguma forma, isso colocou de volta para mim a interrogação sobre o modo como os psicanalistas podem se posicionar diante da mercantilização da psicanálise, desse saber que os concerne. Para além das formas mais claramente espúrias de transformação da psicanálise em um curso de graduação, chama a atenção nas redes sociais a imensa oferta de cursos de pós-graduação e afins sobre temas, obras e conceitos da psicanálise, estampados com a cara de psicanalistas de nome no país, e anunciados nos moldes de uma promoção de supermercado, visando o público curioso que quer enfeitar seus conhecimentos ou seus currículos com um pouco desse saber, mas sem pagar o preço verdadeiro. Qual a nossa responsabilidade quando o empresário decide tomar para si essa clientela, já que de mercado ele provavelmente entende mais que o psicanalista que decide colocar o saber, que não é seu, na prateleira?
É preciso se perguntar o que resta de psicanalítico na psicanálise que assim pretende garantir sua presença no contemporâneo. Também nesse sentido é preciso levar em conta o que Lacan nos adiantou: é sempre de dentro, entre os psicanalistas, que se providencia a degradação da psicanálise.
Texto escrito, a partir do trabalho com o Seminário De um Outro ao outro, para a Intersecção Aepm e Cartéis Lacanianos. Encontro, em julho de 2025, por ocasião do aniversário de 30 anos da AEPM.