O horizonte é o sexual

Alyssandra Costa

“Onde quer que estejamos, onde quer que

funcionemos, pela função do saber

estamos no horizonte do sexual.” (Jacques Lacan)

 

No capítulo XIII do Seminário 16, Lacan se refere ao campo psicanalítico e diz que alguma coisa se inscreve como seu horizonte, e é o sexual. Achei uma maneira nova e diferente de falar do sexual. Quando nos referimos ao horizonte, dizemos no sentido figurado, que este significa perspectiva, nos referimos comumente ao horizonte como algo que está distante, “uma linha aparente na qual observamos que o céu parece tocar a terra ou o mar”. Achei isso tão interessante, aproximar o horizonte do sexual. E, ao mesmo tempo, o que isso nos traz de novo? Qual o alcance dessa frase?

Lacan nos chama a atenção acerca do que talvez precisamos reter no campo psicanalítico. “É em função desse horizonte, mantido como tal, que as pulsões se inserem em sua função de aparelho”. Não acho que essas questões sejam simples de desenvolver, e tento ir com prudência, conforme Lacan nos diz nesse capítulo. 

O que me interroga de novo é o sexual, e não é o que sempre nos interroga? Com Freud, passamos a saber de uma coisa: que somos seres falantes e sexuais, e que, por conta disso, adoecemos! Falar do sexual, e do quanto a Psicanálise se interessa por isso, já é algo sabido, sendo inclusive um ponto de crítica feita por aqueles, que ao contrário do que pensam, sentem-se tocados de alguma forma pela Psicanálise. “Tudo para a Psicanálise é sexual!”. Sim! Lacan diz que estamos nisso em cheio e preocupados, estamos nisso em todos os campos do saber.

Lacan nos fala acerca do saber e diz que ainda que exista um saber da Psicanálise, a Psicanálise não é um saber do sexual. “Quem foi que aprendeu, na psicanálise, a saber tratar bem sua mulher?” (p. 199). Lacan destaca a prudência com a qual introduz suas assertivas e diz: “falei de horizonte, falei de campo, não falei de ato sexual” (p. 202). E, ainda que a sexualidade constitua um horizonte, “sua essência está muito mais longe ainda” (p. 215).

Neste capítulo, Lacan nos diz: no inconsciente, enuncia-se uma verdade que tem a propriedade de nada podermos saber dela, e escreve: “saber sobre a função de verdade-menos-saber deve dar-nos a verdade sobre o saber” (p. 198). Que pode significar esse saber cuja marca, num certo nível de verdade que se articula, define-se como sendo aquilo que menos sabemos, esse saber que nos preocupa?

Isso me fez lembrar do livro do Jean Bergés e do Gabriel Balbo, A atualidade das teorias sexuais infantis, especialmente da palavra atualidade, pois diante do que não é possível saber acerca do sexual, constroem-se teorias sexuais. Teve um tempo no qual eu achava que apenas as crianças faziam teorias sexuais! Ledo engano! Fazemos teoria para darmos conta de um saber. “Quem sabe?”, nos interroga Lacan.

A psicanálise descobriu que havia alguma coisa de articulável e articulada, montagens, “e que literalmente não podem ser concebidas de outra maneira, algo que ela chama de pulsões” (p. 201). Com Freud, aprendemos que falar de sexual é falar das pulsões, estas tomadas aqui no sentido daquilo que Lacan chama de organon de um aparelho que se satisfaz. Lacan diz: a satisfação é da pulsão, não é de ninguém! 

Lacan fala da sublimação como sendo uma modalidade de satisfação da pulsão. De uma pulsão desviada de seu objetivo, a pulsão se satisfazendo fora de seu objetivo sexual. Diz ainda que a sublimação, no nível pulsional, tem como seu primeiro protótipo a forma do guizo, “uma coisa redonda com um trocinho, o objeto pequeno a, que se agita fortemente em seu interior” (p. 236). Isso me chamou muito a atenção, Lacan citar o guizo, esse objeto esférico que faz um som específico quando agitado, ele o aproximar do objeto a. E o que isso quer dizer? E o que isso nos mostra? Pois Lacan está falando da sublimação, dessa pulsão que está desviada de seu objetivo.

Lacan nos diz que nada é mais fácil do que ver a pulsão satisfazer-se fora de seu objetivo sexual, e nos pede para vermos a que isso leva, em todos os lugares em que, em torno da função sexual, organiza-se não o instinto, que teríamos bastante dificuldade de situar em algum lugar a partir de hoje, mas uma estrutura social. Eu nem consigo alcançar o que Lacan está dizendo nesse trecho, e em muitos outros, mas isso me fez lembrar dos adolescentes e de uma experiência que tive há muitos anos como professora de educação sexual. Hoje isso me faz rir: professora de educação sexual! É claro que essa experiência teve data para terminar porque além de não ser possível “educar” ninguém quanto ao sexual, uma vez que não sabemos nada dele, tudo o que os adolescentes queriam, à época, era falar sobre o sexual e fazer perguntas sobre isso.


 

Texto escrito, a partir do trabalho com o Seminário De um Outro ao outro, para a Intersecção Aepm e Cartéis Lacanianos. Encontro, em julho de 2025, por ocasião do aniversário de 30 anos da AEPM.