Começo a escrita desse texto com um fragmento em que Lacan diz que sentiu disposição para o chamado trabalho, isto é, para desarrumação. Lembrei de uma frase que minha avó dizia para mim quando era criança: “Menino, deixa de arrumação”, que era dita quando inventava alguma coisa tida como traquinagem infantil.
Percorrer o Seminário De um Outro ao outro até aqui tem colocado a entrada de pontos que tem desarrumado as coisas. “O significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante”, uma frase conhecida e até repetida, mas com a entrada da lógica não posso dizer que as coisas ficaram do mesmo jeito.
“A lógica matemática é a lógica pura e simples. […] Para chamar as coisas por seu nome, essa lógica é absolutamente essencial à sua existência no real, saibam vocês disso ou não”.
Lacan introduz uma frase que foi abrindo cada vez mais ao percorrer o Seminário: a essência da teoria psicanalítica é um discurso sem palavra (fala). É da função do discurso que se trata, mas de um discurso que tem consequências, acrescento, no real, como insistentemente foi colocado por Lacan.
“O que há de novo é a existência de um discurso que articula essa renúncia (ao gozo) e que faz evidenciar-se pelo que chamarei de função do mais-de-gozar. É a essência do discurso analítico. Essa função aparece em decorrência do discurso. Ela demonstra, na renúncia ao gozo, um efeito do próprio discurso”. Lacan afirma que é essa função do mais-de-gozar que dá lugar ao objeto a, é o que permite isolar a função do objeto a.
Aqui estou num ponto de dificuldade da escrita, porque pretendo abordar algo que entrou para mim mais intensamente nesse momento, a estrutura. É comum escutar referências à estrutura, mas o que é estrutura com Lacan nesse momento?
Esses dias, enquanto estava numa turma de 6° ano, disse para um estudante: “no teu texto faltou a parte do grafo”, quando queria dizer gráfico. Naquele momento tomei um susto e lembrei do quanto esse grafo do desejo tem sido revisto agora.
Embora tenha percorrido o Seminário O desejo e a sua interpretação, em que Lacan soletra esse grafo, somente agora fui surpreendido com dois pontos: Gozo e Castração. Gozo de um lado e Castração do outro, através desse vetor que corta esse
e
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Como aponta Lacan, o mais importante em relação ao grafo são os vetores estruturais.
Lacan afirma que “a estrutura deve ser tomada no sentido em que é mais real, em que é o próprio real. A estrutura, portanto, é real. Em geral, isso se determina pela convergência para uma impossibilidade. É por isso que é real”.
Considerando que a estrutura é real, como abordá-la? Quando penso nesse aspecto, penso em limite, o que faz limite ao real?
Enquanto estava às voltas com a escrita desse texto, fui tomado pela leitura de um livro do Dr. Charles Melman, intitulado Como alguém se torna paranóico?, e ali ele diz: “[…] a vocação da psicanálise só pode se referir a lógica, como eu já falei para vocês, funda a impossibilidade, funda o real, mostrando que nenhum sistema formal pode impedir a instalação disso que resiste a toda formalização de um sistema, mesmo quando essa formalização é perfeita. É preciso que eu passe para um metassistema para resolver a impossibilidade própria desse sistema. E é por isso que Lacan diz que a lógica é a ciência do real, e isso é uma definição, mas não estou certo de que os lógicos a compreendam, mas para o psicanalista ela é formidável”.
Lacan em determinado momento faz referência ao real absoluto e essa noção de absoluto me dirigiu ao livro De Pitágoras a Lacan, uma história não oficial da matemática, de Virginia Hasenbalg, em que ela afirma: “a matematização do infinito graças a teoria dos conjuntos permitiu o desenvolvimento do campo da matemática enquanto problema formal de letras”.
Ela afirma apoiada em Lacan que a entrada do significante no real introduz um para-além, um fora-de-medida que foi chamado de infinito atual. Cantor demonstra que com a escrita de uma letra é possível introduzir um limite ao considerado inacabado.
“O infinito em ato coloca um para-além absoluto que o infinito potencial escamoteia já que permanece no mesmo espaço que a sequência interminável; o infinito potencial por definição continua presente com seus pontos de reticência. A noção de absoluto implicada pelo infinito atual entra em ressonância com a do desejo que Lacan define como condição absoluta para o sujeito”.
Estou às voltas com esse texto e lembrei do buraco, do furo, da borda. Que, nesse momento, para mim são diferentes. Em alguns momentos percebi que me causava estranheza escutar esses termos, porque pensava em como olhar para eles de modo topológico, uma entrada que foi possível aqui.
“É na borda que ocorrem os maiores choques de placas tectônicas em que os terremotos mais intensos acontecem e que os vulcões entram em erupção frequentemente”, foi o que disse em uma aula de Ciências, mas fui levado a pensar nisso que ocorre nas bordas do corpo, que são erogeneizadas, onde algo dali cai. Mas cai para onde?
Lacan fala de uma estrutura de borda, “na pulsão intervém o que é chamado em topologia de estrutura de borda”. Aqui lembrei que é em torno de um orifício, chamado blastóporo, que teremos a formação da boca e do ânus e que em nosso caso, por sermos do ponto de vista biológico deuterostômios, esse orifício forma inicialmente o ânus e depois a boca. Nesse momento, uma massa de carne, mas depois, com a entrada na linguagem, é em torno de orifícios que apresentam essa estrutura de borda que Lacan põe o que funciona como pulsão.
“A pulsão, por si só, designa a conjunção da lógica com a corporeidade. O enigma, concerne mais a isto: como foi possível convocar o gozo da borda a uma equivalência como o gozo sexual?”. Essa equivalência me remeteu a funções equivalentes da matemática.
Aqui Lacan não diz que o gozo da borda é o gozo sexual, mas equivalente. Por conta dessa equivalência, lembrei do ponto em que ele diz que “se o objeto a pode funcionar como equivalente do gozo, é em razão de uma estrutura topológica”.
“O gozo, aqui, é um absoluto, é o real, e tal como defini, como aquilo que sempre volta ao mesmo lugar”. E coloco o gozo aqui tentando contornar a pergunta que fiz insistentemente no cartel: de que gozo se trata?
“Pois bem, se não houvesse a configuração de vacúolo, de furo próprio do gozo, que é algo insuportável para o que é regulado como tensão temperada, vocês não veriam nada no sexual que fosse análogo ao que eu chamo, na pulsão, de estrutura de borda. A borda é constituída, aqui, por uma espécie de logística de defesa”.
A suposição da existência de um gozo que teria sido, mas que desse gozo restou apenas uma marca que seria então buscada, coloca um movimento de repetição em torno dessa marca. Gozo enquanto perda de gozo, gozo interditado.
Texto escrito para a Intersecção Aepm e Cartéis Lacanianos, a partir do trabalho com o Seminário De um Outro ao outro. Encontro, em julho de 2025, por ocasião do aniversário de 30 anos da AEPM.