{"id":1128,"date":"2025-03-21T17:33:24","date_gmt":"2025-03-21T17:33:24","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=1128"},"modified":"2025-03-21T17:33:24","modified_gmt":"2025-03-21T17:33:24","slug":"guia-do-principiante-na-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2025\/03\/21\/guia-do-principiante-na-psicanalise\/","title":{"rendered":"Guia do principiante na Psican\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p>Estamos extremamente advertidos por Sigmund Freud (1856-1939) e Jacques Lacan (1901-1981) de que o psicanalista ser\u00e1 um psicanalista apenas na medida em que tenha terminado a sua pr\u00f3pria an\u00e1lise, isto \u00e9, suportado, at\u00e9 o fim, o seu caminho de an\u00e1lise, passando pela experi\u00eancia real desta cl\u00ednica. Esta \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o, pre\u00e7o m\u00ednimo a pagar, para se utilizar o nome da Psican\u00e1lise. Dessa forma, deveria ser desnecess\u00e1rio dizer que, para dispor do nome da Psican\u00e1lise, um psicanalista precisa ser um psicanalista e ter se submetido ao lugar de membro de uma Institui\u00e7\u00e3o de Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>\u00c9 assim o trabalho de transmiss\u00e3o da Psican\u00e1lise: o sujeito deitado em um div\u00e3 por longo tempo, disposto a sofrer as consequ\u00eancias da sua fala, disposto a se submeter \u00e0 soberania e \u00e0 radicalidade do Inconsciente, ou seja, com a coragem de ser escutado por um psicanalista. No fim, se assim for, este paciente pode advir como um psicanalista. S\u00e3o as consequ\u00eancias de sua pr\u00f3pria an\u00e1lise e de sua presen\u00e7a, entre os psicanalistas da Institui\u00e7\u00e3o, que o autorizar\u00e3o ao in\u00edcio dessa pr\u00e1tica cl\u00ednica, como exigem Freud e Lacan. Tanto os iniciantes quanto os mais experientes, portanto, se submetem ao trip\u00e9 da forma\u00e7\u00e3o estipulado por Freud: an\u00e1lise pessoal; estudo na Institui\u00e7\u00e3o; e supervis\u00e3o sobre as experi\u00eancias na pr\u00e1tica cl\u00ednica, submetidos a um analista supervisor.<\/p>\n<p>Fora dessa dire\u00e7\u00e3o, todo e qualquer consult\u00f3rio que apenas contenha a placa \u201cPsican\u00e1lise\/Psicanalista\u201d se torna uma simula\u00e7\u00e3o, uma marginalidade quase sempre sustentada por um sujeito perverso. Se n\u00e3o por um sujeito perverso, seguramente por uma a\u00e7\u00e3o perversa, j\u00e1 que todos n\u00f3s estamos advertidos sobre as exig\u00eancias e condi\u00e7\u00f5es estruturais da forma\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise. Tais perversos s\u00e3o os mesmos que fizeram empres\u00e1rios acreditarem que seria poss\u00edvel a cria\u00e7\u00e3o de um \u201ccurso universit\u00e1rio de psican\u00e1lise\u201d.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Um psicanalista \u00e9 o resultado de uma psican\u00e1lise. A Universidade n\u00e3o disp\u00f5e da possibilidade de produzir um psicanalista, posto que o psicanalista n\u00e3o \u00e9 uma conquista, mas sim uma perda, uma consequ\u00eancia subjetiva decorrente exclusivamente da Psican\u00e1lise em Ato, onde aquele que \u00e9 a consequ\u00eancia dessa cl\u00ednica tamb\u00e9m \u00e9 a causa dessa transmiss\u00e3o. S\u00f3 existe Psican\u00e1lise na transmiss\u00e3o cl\u00ednica, de an\u00e1lise em an\u00e1lise, nunca em s\u00e9rie, ou seja, em uma sala de aula.<\/p>\n<p>O efeito e produto do Inconsciente s\u00e3o restos e destro\u00e7os. Estes detritos escapam da repeti\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es meton\u00edmicas da Cadeia Significante. Por sua vez, a Psican\u00e1lise \u00e9 a pr\u00e1tica cl\u00ednica capaz de interferir e dar lugar aos restos meton\u00edmicos, reconhecendo neles \u2013 quando for verdadeira \u2013 a fun\u00e7\u00e3o do Significante. A partir disso, e suportado na Transfer\u00eancia, o Inconsciente pode <em>encontrar<\/em> com o vazio do lugar do analista, engendrando as condi\u00e7\u00f5es da Escans\u00e3o, Escans\u00e3o do Significante, nunca coextensiva ao espa\u00e7o f\u00edsico, ao tempo cronol\u00f3gico, \u00e0s predile\u00e7\u00f5es, ao bem ou ao mal.<\/p>\n<p>O psicanalista n\u00e3o \u00e9 uma aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimento: o psicanalista \u00e9 uma perda de conhecimento e de saber. Sendo assim, isso n\u00e3o denuncia qualquer incapacidade da Universidade, mas apenas exp\u00f5e o que n\u00e3o \u00e9 de sua atribui\u00e7\u00e3o. A Universidade sempre cumpriu com a fun\u00e7\u00e3o de formar profissionais e fazer avan\u00e7ar o conhecimento cient\u00edfico. Mas a Psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma profiss\u00e3o, n\u00e3o no sentido estrito e comum dessa palavra \u2013 como tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9, nem se pretende, uma Ci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 importante dizer que o curso de Psicologia n\u00e3o autoriza um indiv\u00edduo ao exerc\u00edcio da Psican\u00e1lise, pois um psic\u00f3logo n\u00e3o ocupa a posi\u00e7\u00e3o subjetiva necess\u00e1ria \u00e0 condu\u00e7\u00e3o de uma an\u00e1lise; o psiquiatra tamb\u00e9m n\u00e3o. S\u00f3 um psicanalista conduz uma an\u00e1lise. A posi\u00e7\u00e3o subjetiva de um psicanalista, ele a ocupa por efeito da sua pr\u00f3pria an\u00e1lise. \u00c9 obviamente necess\u00e1rio ter se submetido e terminado a sua pr\u00f3pria an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Por <em>posi\u00e7\u00e3o subjetiva <\/em>entende-se a s\u00e9rie de perdas e deslocamentos que o psicanalista precisa ter atravessado, ele mesmo deitado no div\u00e3. Essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima para a sustenta\u00e7\u00e3o do tratamento cl\u00ednico que visa O Inconsciente, no tratamento ps\u00edquico denominado de Psican\u00e1lise por Sigmund Freud. Ent\u00e3o, nesse ponto, talvez j\u00e1 seja poss\u00edvel compreender que a simples leitura dos livros de Freud ou dos Escritos e Semin\u00e1rios de Jacques Lacan n\u00e3o produzem um psicanalista.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Sou psic\u00f3logo de forma\u00e7\u00e3o, tendo sido graduado na Universidade Federal do Maranh\u00e3o. E \u00e9 claro que um psic\u00f3logo, um psiquiatra, ou outro sujeito podem fazer an\u00e1lise ou terem terminado as suas an\u00e1lises. N\u00e3o \u00e9 relevante qualitativamente se o indiv\u00edduo \u00e9 psic\u00f3logo ou engenheiro. S\u00f3 uma an\u00e1lise, levada at\u00e9 o fim, autoriza um psicanalista, como insiste em nos exigir Jacques Lacan. Como Freud coloca: o grande requisito central \u00e9 a an\u00e1lise pessoal, e o consequente deslocamento subjetivo deste sujeito \u2013 sempre testemunhado por outros membros na Institui\u00e7\u00e3o de Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>S\u00f3 se \u00e9 psicanalista nas condi\u00e7\u00f5es acima e em constante forma\u00e7\u00e3o. A forma\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise \u00e9 para toda a vida e n\u00e3o se encerra em um \u201ccurso\u201d. \u00c9 por isso que n\u00e3o h\u00e1 \u201cformatura\u201d, simplesmente porque a obriga\u00e7\u00e3o m\u00ednima \u00e9 que o estudo seja constante durante toda a vida, na Institui\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 \u00f3bvio. O psicanalista sabe que a forma\u00e7\u00e3o lhe custar\u00e1 toda a sua vida, e nada menos do que isso. Ent\u00e3o, de an\u00e1lise em an\u00e1lise, os sujeitos submetidos \u00e0 Lei verificam e atestam que a Psican\u00e1lise s\u00f3 se sustenta exclusivamente em uma transmiss\u00e3o que exige perdas narc\u00edsicas ao analisante. Ningu\u00e9m escolheria perder. A Psican\u00e1lise s\u00f3 pode ser noticiada na Universidade \u2013 e nada mais do que isso.<\/p>\n<p>N\u00e3o se aprende, n\u00e3o se compra a an\u00e1lise, pois a an\u00e1lise \u00e9 transmitida na experi\u00eancia cl\u00ednica, apenas. Aquele sujeito que um dia talvez esteja autorizado a pratic\u00e1-la deve ter necessariamente sofrido todo o percurso como paciente do tratamento psicanal\u00edtico, ele mesmo deitado no div\u00e3. Essa via \u00e9 \u00fanica. Essa tamb\u00e9m \u00e9 uma base da \u00c9tica da Psican\u00e1lise, pois, para a Psican\u00e1lise, n\u00e3o existe uma separa\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica: essa teoria j\u00e1 \u00e9 a pr\u00e1tica; a pr\u00e1tica j\u00e1 \u00e9 a teoria em Ato. A tentativa de venda no varejo da teoria da Psican\u00e1lise \u00e9 uma perda de tempo \u2013 tamb\u00e9m \u00e9 a perda dos escr\u00fapulos. Essa teoria s\u00f3 se sustenta em Ato, como efeito da cl\u00ednica, como produto de sua transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Freud e Lacan expressamente desautorizam qualquer outra dire\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja a da transmiss\u00e3o da Psican\u00e1lise, no div\u00e3. As centenas e milhares de institui\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas no Brasil e no mundo, que fazem um trabalho s\u00e9rio de estudo cl\u00ednico di\u00e1rio, d\u00e9cada ap\u00f3s d\u00e9cada, obviamente cobram um pre\u00e7o subjetivo alto a cada um que se submete a esta transmiss\u00e3o. O pre\u00e7o \u00e9 alto; nem todo mundo quer pagar esse pre\u00e7o. Mas \u00e9 apenas assim que se reconhece um psicanalista: quando ele se submete ao percurso da pr\u00f3pria an\u00e1lise e quando se submete \u00e0 Institui\u00e7\u00e3o de Psican\u00e1lise. Assim, ele se torna respons\u00e1vel pela Psican\u00e1lise e passa a fazer parte da verdadeira Hist\u00f3ria do Movimento Psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>Uma vez advindo no lugar do psicanalista, na sustenta\u00e7\u00e3o do Discurso do Analista, o seu trabalho \u00e9 submetido \u00e0 escuta de toda a Institui\u00e7\u00e3o, de modo a ser constantemente colocado em xeque e supervisionado. Em vista disso, aquele que n\u00e3o terminou sua an\u00e1lise, e que decide n\u00e3o pagar esse pre\u00e7o, n\u00e3o possui a legitimidade para utilizar o nome da Psican\u00e1lise. Freud afirma textualmente que tal sujeito ocorre em infra\u00e7\u00e3o quando utiliza o nome da Psican\u00e1lise e n\u00e3o se submete ao funcionamento, \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es e aos princ\u00edpios dessa cl\u00ednica, desta \u00c9tica.<\/p>\n<p>N\u00e3o dar essas provas \u00e0 Institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o a um psicanalista \u2013 essa tamb\u00e9m \u00e9 uma seguran\u00e7a aos pacientes que realmente est\u00e3o em an\u00e1lise. Portanto, a proposta de cria\u00e7\u00e3o de \u201ccursos universit\u00e1rios de psican\u00e1lise\u201d \u00e9 uma iniciativa marginal, j\u00e1 que o Inconsciente n\u00e3o se materializa, j\u00e1 que o Inconsciente pertence a uma temporalidade n\u00e3o cronol\u00f3gica. \u00c9 que o Inconsciente possui funcionamento gerido por suas pr\u00f3prias Leis. E um curso universit\u00e1rio n\u00e3o pode nada com O Inconsciente. Ali\u00e1s, \u201cO Inconsciente\u201d \u00e9 o t\u00edtulo de um texto de Sigmund Freud (1915).<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>A Psican\u00e1lise \u00e9 a cl\u00ednica que trata das Forma\u00e7\u00f5es do Inconsciente. E o ensino das Leis do Inconsciente s\u00f3 adquire legitimidade e real fun\u00e7\u00e3o se veiculado atrav\u00e9s da experi\u00eancia que se recebe, em transmiss\u00e3o, na an\u00e1lise pessoal. N\u00e3o existe a possibilidade de se receber \u201caulas\u201d de Psican\u00e1lise. Dessa forma, a teoria se tornaria apenas a aquisi\u00e7\u00e3o banal de uma leitura, absolutamente desconectada da transmiss\u00e3o, uma leitura destitu\u00edda do peso de um Saber sobre o Inconsciente em Ato \u2013 esta sim a experi\u00eancia literal de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>O Ensino da Psican\u00e1lise s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando atravessado pela experi\u00eancia pessoal da an\u00e1lise. Quem faz an\u00e1lise, mesmo sem nunca ter lido Freud ou Lacan, segue em dire\u00e7\u00e3o ao lugar vazio do analista, sem garantias, sem viola\u00e7\u00e3o, e na responsabilidade por si, sempre caracter\u00edstica dos sujeitos que se submetem a esta transmiss\u00e3o. J\u00e1 aqueles que tomam a dire\u00e7\u00e3o oposta n\u00e3o chegam a sair do caminho da Psican\u00e1lise, haja vista que, dessa forma, n\u00e3o chegam a adentr\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A Psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 a estrita leitura do que est\u00e1 nos livros: ela est\u00e1 na an\u00e1lise e no Ensino dispon\u00edvel na Institui\u00e7\u00e3o. Por outro lado, o que nunca cessa, e que est\u00e1 sempre em tudo o que for lugar \u00e9 a falha no saber, que nenhuma leitura resolver\u00e1. O saber sempre escapa, o saber falha, j\u00e1 que essa \u00e9 a marca do funcionamento do Inconsciente. O saber falta, mas O Inconsciente sobra, soberano. No trajeto de uma an\u00e1lise \u00e9 poss\u00edvel saber algo a mais do que escapa. Mais uma vez, somente aqueles que fizeram an\u00e1lise podem falar desse algo a mais\u2026 O indiv\u00edduo que est\u00e1 em um \u201ccurso\u201d de Psican\u00e1lise est\u00e1 fazendo um nada. Seu destino deveria ser o da an\u00e1lise e, em seguida, o da Institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Freud dedica a experi\u00eancia de toda uma vida para mostrar que O Inconsciente tem suas pr\u00f3prias Leis. A Psican\u00e1lise mostra e descreve o funcionamento dessa cl\u00ednica pautada apenas nas pr\u00f3prias Leis do Inconsciente. Portanto, o pre\u00e7o a ser pago por um psicanalista \u00e9 a necess\u00e1ria condi\u00e7\u00e3o para a sustenta\u00e7\u00e3o dessa cl\u00ednica que trata do Inconsciente. \u00c9 por isso que o rigor da Psican\u00e1lise \u00e9 cl\u00e1usula p\u00e9trea. \u00c9 por isso que Freud e Lacan estipulam os deveres da forma\u00e7\u00e3o de um analista. N\u00e3o h\u00e1 a doma do Inconsciente. Dessa maneira, a decis\u00e3o de um indiv\u00edduo em n\u00e3o se submeter aos limites dados pelo pr\u00f3prio Sigmund Freud \u00e9 um ato flagrante de viola\u00e7\u00e3o, de delinqu\u00eancia declarada, quando este indiv\u00edduo utiliza o nome da Psican\u00e1lise sem ser um psicanalista, sem ter terminado uma an\u00e1lise, sem estar na Institui\u00e7\u00e3o de Psican\u00e1lise. N\u00e3o existe Psican\u00e1lise fora dessas condi\u00e7\u00f5es. E s\u00f3 nesta medida a Psican\u00e1lise se define como uma cl\u00ednica.<\/p>\n<p>O Ensino da Psican\u00e1lise s\u00f3 existe quando est\u00e1 cruzado com a transmiss\u00e3o, ou seja, com a an\u00e1lise pessoal. E somente a Institui\u00e7\u00e3o de Psican\u00e1lise \u00e9 respons\u00e1vel e capaz de transmitir esse Ensino. E embora possa ter sido sim bem intencionada, a compra dos livros de toda a obra de Sigmund Freud, de Jacques Lacan, ainda assim essa \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o sem valor cl\u00ednico algum, caso n\u00e3o haja transmiss\u00e3o da an\u00e1lise no div\u00e3. Inclusive, para a Psican\u00e1lise, n\u00e3o importa o n\u00edvel de gradua\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria de algu\u00e9m, contanto que este sujeito fa\u00e7a an\u00e1lise e fa\u00e7a a sua forma\u00e7\u00e3o na Institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 digno de nota que a Psican\u00e1lise sempre esteve dispon\u00edvel nas cidades do mundo a quem quer que pe\u00e7a para fazer sua an\u00e1lise. O perverso \u00e9 aquele que pula o muro, mesmo quando a porta est\u00e1 aberta.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como vender a capacidade de escuta cl\u00ednica de um psicanalista. Comprar um \u201ccurso de psican\u00e1lise\u201d significa a aus\u00eancia completa de qualquer aptid\u00e3o cl\u00ednica. A Psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma t\u00e9cnica. Freud \u00e0s vezes a chamou de t\u00e9cnica apenas para melhor inseri-la no mundo. O psicanalista \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva atingida apenas e exclusivamente atrav\u00e9s da an\u00e1lise pessoal. A Psican\u00e1lise \u00e9 a teoria sobre a queda narc\u00edsica, a constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do trabalho com o Inconsciente, geradora desta outra posi\u00e7\u00e3o subjetiva no mundo, a do psicanalista.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhuma an\u00e1lise sen\u00e3o a causada pelo vazio do lugar do analista, pelo corte do Significante. Na hip\u00f3tese do balc\u00e3o fict\u00edcio de com\u00e9rcio dos \u201ccursos de psican\u00e1lise\u201d, o vendedor sabe que o produto n\u00e3o existe e o comprador sabe que leva uma mala vazia para casa. Se o comprador ainda n\u00e3o sabia, sabe agora.<\/p>\n<p>\u00c9 que O Inconsciente s\u00f3 pode ser escutado, em Ato, apenas por um psicanalista. E, quando o trabalho de an\u00e1lise avan\u00e7a, o paciente escuta tamb\u00e9m. Isso \u00e9 um limite, isso \u00e9 assim. A tentativa de venda do que nunca ser\u00e1 mercadoria n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma tapea\u00e7\u00e3o, quanto tamb\u00e9m \u00e9 um ato de contraven\u00e7\u00e3o daqueles que nas cidades usam placas com o nome da Psican\u00e1lise sem estarem autorizados a isso.<\/p>\n<p>Que se entenda: s\u00f3 existe Psican\u00e1lise na transmiss\u00e3o do div\u00e3 de um psicanalista. Um div\u00e3, sem um psicanalista, \u00e9 apenas um sof\u00e1; um consult\u00f3rio, sem cl\u00ednica, \u00e9 apenas uma sala.<\/p>\n<p>Dessa maneira, fica patente que ningu\u00e9m pode se autodeterminar, se autoproclamar psicanalista. \u00c9 obrigat\u00f3rio ter se submetido a um analista e ter atravessado a an\u00e1lise. Mais ainda, o surgimento de um psicanalista \u00e9 um advento que deve sempre ser testemunhado por outros analistas, que imediatamente o reconhecem ou o destituem como psicanalista na Institui\u00e7\u00e3o, na cidade e no mundo.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Apenas o psicanalista pode tratar e suportar clinicamente as forma\u00e7\u00f5es do Inconsciente. A import\u00e2ncia disso tem a ver com o fato de que O Inconsciente n\u00e3o pede licen\u00e7a e sempre retorna com mais for\u00e7a. O Inconsciente n\u00e3o est\u00e1 escondido, e \u00e9 por isso que sempre causar\u00e1 o assombro em plena luz do dia. O Inconsciente s\u00f3 \u00e9 em Ato, o que significa que nenhuma m\u00e3o o manipula. A Psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 o Inconsciente \u2013 nem ousa s\u00ea-lo. S\u00f3 um analista sustenta o que n\u00e3o estava l\u00e1, sustenta o que insiste em escapar.<\/p>\n<p>Os psicanalistas, isto \u00e9, aqueles que se submeteram e fizeram an\u00e1lise, compondo a Institui\u00e7\u00e3o, s\u00e3o as testemunhas de uma pr\u00e1tica cl\u00ednica que escuta estas Forma\u00e7\u00f5es do Inconsciente, pr\u00e1tica que escuta o corte Significante, no encaminhamento \u00e0 falta de Significante no Grande Outro. S\u00f3 o lugar vazio do analista (o que n\u00e3o significaria sua simples aus\u00eancia ou mesmo a falta ou presen\u00e7a literal e irrelevante de sua pessoa) \u00e9 capaz de engendrar o encaminhamento \u00e0 falta de Significante no Outro e ir al\u00e9m disso \u2013 falta renovadora da antecipa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 retroa\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica, sempre remetida a nenhuma origem, aprisionada a vagar no limite cronol\u00f3gico do fechamento da temporalidade do Inconsciente, do que n\u00e3o era, at\u00e9 que fosse, no passo sustentado a partir do lugar vazio do psicanalista, uma Escans\u00e3o. Jacques Lacan n\u00e3o ensina a cl\u00ednica, ele a transmite, nos convoca \u00e0 an\u00e1lise.<\/p>\n<p>\u201cWo Es War, soll Ich werden\u201d, nos anuncia Freud. A pura retroa\u00e7\u00e3o Significante n\u00e3o atesta nada mais do que a Repeti\u00e7\u00e3o, o empuxo ao fim, a consecu\u00e7\u00e3o, o trabalho da puls\u00e3o de morte. Fora da Lei, o Significante dar\u00e1 lugar \u00e0 perfura\u00e7\u00e3o, \u00e0 perturba\u00e7\u00e3o. Quando banido, o Significante n\u00e3o nos salva em nada do <u>objeto a<\/u>. S\u00f3 a cl\u00ednica psicanal\u00edtica d\u00e1 lugar ao Significante.<\/p>\n<p>O Inconsciente sempre cobrar\u00e1 o seu pre\u00e7o aos que em pura contraven\u00e7\u00e3o acreditarem manipul\u00e1-lo, pois O Inconsciente acorda exatamente quando o Sujeito devaneia ou dorme, sempre desprevenido. Isso precisa, mais uma vez, n\u00e3o se inscrever. Reside a\u00ed a fun\u00e7\u00e3o salutar da Cadeia Significante: permitir que o Inconsciente n\u00e3o se inscreva, mais uma vez, <em>Encore. <\/em><\/p>\n<p>Negligenciar recomenda\u00e7\u00f5es t\u00e3o s\u00e9rias como as de Freud e de Lacan, tentar destituir o Significante de seu lugar e fun\u00e7\u00e3o Inconscientes \u00e9 fomentar a pr\u00f3pria desgra\u00e7a e o desastre alheio \u2013 \u00e0 despeito do Significante que sempre seguir\u00e1 indestrut\u00edvel, gratinando e corroendo os desvelados.<\/p>\n<p>O marginal \u00e9 aquilo que n\u00e3o alcan\u00e7a a borda, que nunca atinge o litoral. O Inconsciente \u00e9 o intervalo contra o qual n\u00e3o h\u00e1 qualquer preven\u00e7\u00e3o. A Psican\u00e1lise \u00e9 uma cl\u00ednica em Ato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos extremamente advertidos por Sigmund Freud (1856-1939) e Jacques Lacan (1901-1981) de que o psicanalista ser\u00e1 um psicanalista apenas na medida em que tenha terminado a sua pr\u00f3pria an\u00e1lise, isto \u00e9, suportado, at\u00e9 o fim, o seu caminho de an\u00e1lise, passando pela experi\u00eancia real desta cl\u00ednica. 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