{"id":1193,"date":"2026-03-24T17:42:33","date_gmt":"2026-03-24T17:42:33","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=1193"},"modified":"2026-03-24T17:42:33","modified_gmt":"2026-03-24T17:42:33","slug":"o-desconhecimento-a-verdade-e-a-mentira-nas-teorias-sexuais-infantis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2026\/03\/24\/o-desconhecimento-a-verdade-e-a-mentira-nas-teorias-sexuais-infantis\/","title":{"rendered":"O desconhecimento, a verdade e a mentira nas teorias sexuais infantis"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Como alguns j\u00e1 sabem, eu me apresso em dizer ou fazer coisas, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. Acho que foi isso que me fez dizer um dia para Alyssandra, como que do nada, que no dispositivo Oficina da Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica com Crian\u00e7as e Adolescentes eu escreveria sobre a mentira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dias depois, quando ela retomou o que eu havia falado para ela, eu mesma me surpreendi. Eu disse isso? Ser\u00e1 que eu que estava mentindo? Ser\u00e1 que disse isso, mas n\u00e3o queria falar da mentira? Afinal, falar da mentira&#8230; n\u00e3o me sentia confort\u00e1vel. S\u00f3 que resolvi enfrentar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecei pensando em Freud<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Ele nos diz que entre os 3 e os 5 anos algo como uma puls\u00e3o de saber ou de investigar se inscreve na crian\u00e7a, puls\u00e3o essa que n\u00e3o est\u00e1 entre os componentes pulsionais elementares, nem tampouco est\u00e1 subordinada exclusivamente \u00e0 sexualidade. Contudo, ainda segundo Freud, essa puls\u00e3o de saber ou investigar tem rela\u00e7\u00e3o muito significativa com o sexual: \u201c(&#8230;) a puls\u00e3o de saber \u00e9 atra\u00edda, de maneira insuspeitadamente precoce e inesperadamente intensa, pelos assuntos sexuais, e talvez seja at\u00e9 despertada por eles\u201d (p. 182).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Berg\u00e8s e Balbo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> se perguntam: s\u00f3 h\u00e1 teoria sexual porque h\u00e1 puls\u00e3o, ou seja, que \u201co menino tenha uma ere\u00e7\u00e3o ou a menina se toque, \u00e9 isso que os obriga a fazer hip\u00f3teses?\u201d (p. 21). O que impulsiona as crian\u00e7as? O desejo de saber adv\u00e9m puramente do incitamento de suas puls\u00f5es, puls\u00f5es ego\u00edstas, nesse caso, de acordo com Freud, em raz\u00e3o da chegada \u201cconhecida ou suspeitada\u201d de um novo membro da fam\u00edlia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Berg\u00e8s e Balbo dizem que, segundo Freud, h\u00e1 algo que impulsiona as crian\u00e7as a fazer teorias e esse algo \u00e9 o seu corpo erotizado. As teorias ou hip\u00f3teses encontram sua origem nos componentes da puls\u00e3o sexual agindo sobre o corpo. E Berg\u00e8s lembra que Freud diz que, por procederem do pulsional, as teorias sexuais infantis trazem fragmentos da verdade, elas tocam uma parte da verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a formula\u00e7\u00e3o das teorias sexuais \u00e9 impulsionada pelo corpo erotizado e trazem algo da verdade, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para \u201cinvencionices\u201d, para \u201cenredos embusteiros\u201d! Oba&#8230; n\u00e3o vou precisar falar da mentira! Mas n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora tais teorias expressem \u201cuma maior compreens\u00e3o dos processos sexuais do que se pretenderia de seus criadores\u201d, elas cont\u00eam \u201cerros grosseiros\u201d que t\u00eam a ver com a \u201cconstitui\u00e7\u00e3o sexual da crian\u00e7a\u201c para quem dois elementos s\u00e3o desconhecidos: \u201co papel do s\u00eamen fecundante e a exist\u00eancia do orif\u00edcio sexual feminino\u201d (Freud, p. 184).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olha que interessante! O fragmento da verdade contido na teoria est\u00e1 ligado ao corpo, mas esse corpo, ele \u00e9 desconhecido. Saber ver\u00eddico, desconhecimento, teorias que a crian\u00e7a faz para tentar dar conta da maneira pela qual as crian\u00e7as s\u00e3o concebidas, trazendo a quest\u00e3o sobre o que est\u00e1 em jogo na rela\u00e7\u00e3o sexual. Esse confronto de um saber \u201cver\u00eddico\u201d com o desconhecimento que impregna esse mesmo saber n\u00e3o \u00e9 suficiente, pelo menos n\u00e3o imediatamente, para que a crian\u00e7a n\u00e3o elabore ou n\u00e3o tente elaborar teorias, mesmo que ela acabe renunciando \u00e0s suas pesquisas em fun\u00e7\u00e3o do \u201catraso\u201d da sua organiza\u00e7\u00e3o sexual, de acordo com Freud.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto n\u00e3o desiste das teorias e elas n\u00e3o passam pelo recalque, como a crian\u00e7a vai dar prosseguimento \u00e0s suas pesquisas sen\u00e3o criando, de certa maneira inventando, dando uma \u201cresposta\u201d que \u00e9 s\u00f3 dela?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas como isso \u00e9 poss\u00edvel? Os autores se perguntam: isso \u00e9 um processo espont\u00e2neo, resultado do fato do corpo ter orif\u00edcios? Ou isso tem a ver com a rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com o Outro, com o discurso do Outro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles dizem que \u00e9 preciso que esse desconhecimento seja retomado pelo outro, os adultos, ou mais especificamente os pais. Enfim, os que t\u00eam valor de autoridade para a crian\u00e7a. Estes supostamente \u201csabem\u201d, mas t\u00eam grande responsabilidade do lado do desconhecimento. E por qu\u00ea? Porque esse saber nascente da crian\u00e7a (como eles chamam) ainda que com \u201cerros grosseiros\u201d, vai \u201cse chocar com o que disso o outro n\u00e3o quer nada saber\u201d (p. 17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Balbo destaca a afirma\u00e7\u00e3o de Freud de que o avan\u00e7o da crian\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o a um saber mais exato encontra-se continuamente obstaculizado pelo discurso do outro, e mais especificamente, pelo que est\u00e1 em quest\u00e3o para a m\u00e3e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria verdade sobre a rela\u00e7\u00e3o sexual. \u201cEssa crian\u00e7a, como \u00e9 que ela faz para t\u00ea-la? N\u00e3o est\u00e1 claro que ela saiba&#8230;\u201d (p. 19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os autores colocam que \u201ca m\u00e3e tem necessidade de fazer a hip\u00f3tese de que seu filho, sua filha lhe dir\u00e1 um dia por que e como ela o (a) concebeu. Ela vai esperar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles, inclusive, fazem a seguinte pergunta, pergunta que d\u00e1 t\u00edtulo ao cap\u00edtulo 1: A teoria sexual infantil: ser\u00e1 que a crian\u00e7a a inventa ou ela participa da hip\u00f3tese que a m\u00e3e faz sobre o saber de sua crian\u00e7a?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os autores advogam que a crian\u00e7a faz teoria, sua teoria, porque a m\u00e3e sup\u00f5e que ela \u00e9 capaz de faz\u00ea-la. S\u00f3 que para isso, ela tem que ser capaz de se supor, a ela tamb\u00e9m, desconhecendo algo, para poder deixar que seu filho possa ele dizer uma \u201cponta disso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 uma din\u00e2mica contradit\u00f3ria porque a crian\u00e7a se dirige ao adulto, supondo que ele sabe. A crian\u00e7a pergunta e o adulto responde, mas como responder ao que n\u00e3o tem resposta? Ou ao que o adulto inventou para si mesmo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e pode querer responder tudo a todas as perguntas que a crian\u00e7a faz, mas os autores dizem que isso \u00e9 a cat\u00e1strofe, com a crian\u00e7a s\u00f3 podendo seguir em frente se a m\u00e3e \u00e9 interrogativa, se admite alguma falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o discurso do outro tanto dificulta que a crian\u00e7a leve adiante seu trabalho te\u00f3rico como tamb\u00e9m possibilita esse trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nenhuma teoria corresponde \u00e0 realidade, n\u00e3o h\u00e1 um ponto que seria a reprodu\u00e7\u00e3o exata do que se passa. N\u00e3o se pode conhecer diretamente, passamos pelo significante e \u00e9 em fun\u00e7\u00e3o de estarmos na linguagem que algo sempre vem faltar, n\u00e3o h\u00e1 representa\u00e7\u00e3o perfeita. Assim, nenhuma teoria \u00e9 direta nem convincente, ela sempre falha exatamente por se falar disso, mas a pr\u00f3pria teoria coloca a quest\u00e3o que, segundo Balbo, \u00e9 chamada de quest\u00e3o incessante por Freud: \u201cO que voc\u00ea quer? O que \u00e9? Conte-me\u201d (p. 42).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crian\u00e7a nunca recebe a mesma resposta, mas trata-se sempre da mesma quest\u00e3o. S\u00f3 que tudo isso n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como falei antes, na rela\u00e7\u00e3o com a crian\u00e7a est\u00e1 funcionando na m\u00e3e algo da sua verdade no campo do sexual, ou seja, a teoria que ela fez desde crian\u00e7a, ou melhor, a sua inven\u00e7\u00e3o, ou, podemos dizer, sua mentira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a crian\u00e7a, por um lado, \u201csabe algo que n\u00e3o deve saber\u201d (p. 48) e de certa maneira nega esse saber. Por outro lado, sabe algo que ela sabe n\u00e3o ser verdade nos discursos que seus pais lhe sustentam. Assim, o imperativo de fazer teorias vem desse discurso mentiroso sustentado pelos pais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sexualidade impulsiona a crian\u00e7a a fazer teorias que os autores chamam de justas. Por outro lado, o campo do discurso prop\u00f5e \u201co quanto \u00e9 bom ser mentiroso em rela\u00e7\u00e3o ao campo da sexualidade, como se lhe tivesse sido proposto um imperativo de mentir\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os autores dizem que n\u00e3o \u00e9 meramente uma mentira, j\u00e1 que se trata de algo para acreditar, j\u00e1 que \u00e0 quest\u00e3o formulada pela crian\u00e7a os pais respondem taxativamente: \u201cas crian\u00e7as s\u00e3o compradas nos supermercados\u201d ou \u201cas cegonhas trazem as crian\u00e7as\u201d, tanto faz a frase, \u00e9 dita como: \u00e9 assim mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEssa mentira ser\u00e1 algo com o qual, durante toda a vida, o sujeito ir\u00e1 atrapalhar-se. Esse imperativo retorna sem cessar nos sintomas e discursos registrados nos div\u00e3s\u201d (p. 49). Ser\u00e1 por isso que tive tanta dificuldade de falar da mentira? Porque afinal, nossa verdade, que n\u00e3o \u00e9 outra que n\u00e3o a do sexual, n\u00e3o passa da mentira que constru\u00edmos e levamos pela vida afora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> <em>Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade<\/em> (1905).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> <em>A atualidade das teorias sexuais infantis<\/em> (2001).<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* Texto apresentado na Jornada da Oficina da cl\u00ednica psicanal\u00edtica com crian\u00e7as e adolescentes, 2024<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como alguns j\u00e1 sabem, eu me apresso em dizer ou fazer coisas, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. Acho que foi isso que me fez dizer um dia para Alyssandra, como que do nada, que no dispositivo Oficina da Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica com Crian\u00e7as e Adolescentes eu escreveria sobre a mentira. 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