{"id":1208,"date":"2026-05-05T16:28:41","date_gmt":"2026-05-05T16:28:41","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=1208"},"modified":"2026-05-05T16:28:41","modified_gmt":"2026-05-05T16:28:41","slug":"o-a-saber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2026\/05\/05\/o-a-saber\/","title":{"rendered":"O a Saber"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Durante o percurso que Lacan exp\u00f5e em seu <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Semin\u00e1rio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, partindo de um Outro ao outro, o saber \u00e9 questionado e movido de certa forma que n\u00e3o me pareceu sem import\u00e2ncia. \u00c9 sobre o que ele faz com esse saber que eu gostaria de me deter um pouco mais.\u00a0 Sem a pretens\u00e3o de fixar ideias, o que j\u00e1 seria tomar uma posi\u00e7\u00e3o quanto ao saber, mas para tentar coloc\u00e1-las em jogo no percurso que posso fazer, retomo a seguir alguns pontos do<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> Semin\u00e1rio 16<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, at\u00e9 o ponto em que pude avan\u00e7ar na leitura.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Lacan, a certa altura, designa o saber como uma forma de rela\u00e7\u00e3o conosco mesmos. Contudo, n\u00e3o \u00e9 sempre o mesmo saber que est\u00e1 em causa, ou ao menos n\u00e3o \u00e9 o saber sob a mesma forma. H\u00e1 momentos em que Lacan fala de um saber cient\u00edfico. H\u00e1 muitos outros momentos em que o saber est\u00e1 referido ao horizonte filos\u00f3fico, especialmente \u00e0 filosofia hegeliana que desemboca em uma ideia de saber absoluto. E h\u00e1 aquilo que chamamos de saber inconsciente. O que nos permite nomear coisas t\u00e3o d\u00edspares com a mesma palavra, talvez seja a ideia de que elas se constituem umas contra as outras, s\u00e3o, por assim dizer, antit\u00e9ticas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Saber n\u00e3o \u00e9 trabalho: o saber, diz Lacan, \u00e9 valor, valor de uma <em>ren\u00fancia ao gozo<\/em>, o que n\u00e3o basta para que ele se confunda com o trabalho. Contrapondo-se \u00e0 tend\u00eancia que podemos ter de pensar o saber como resultado de um esfor\u00e7o de aprendizagem, o que Lacan diz \u00e9 que o saber difere radicalmente de uma aprendizagem. Apesar de me parecer um pouco mais dif\u00edcil acompanhar como isso poderia ser afirmado em rela\u00e7\u00e3o ao saber escolar em que somos deformados, \u00e9 consequ\u00eancia necess\u00e1ria do que podemos formular sobre a exist\u00eancia de um saber inconsciente. Este saber, ningu\u00e9m o aprendeu. Na realidade, podemos aprender bastante sobre o assunto e continuar sem nada saber. N\u00e3o \u00e9 o caso mais comum?\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Lacan diz que a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 um saber do sexual e tampouco uma teoria do inconsciente: n\u00e3o \u00e9 que ela n\u00e3o introduza algo de decisivo a respeito, mas que isso n\u00e3o faz um saber nem constitui sua teoria. A teoria psicanal\u00edtica \u00e9 teoria de uma pr\u00e1tica que nos leva a falar de um saber que n\u00e3o se sabe ou, como tamb\u00e9m dizemos, um saber n\u00e3o sabido. O que est\u00e1 nessa part\u00edcula indeterminada, nesse \u201cse\u201d, \u00e9 o pr\u00f3prio saber ou aquele que por esse saber est\u00e1 sendo guiado \u00e0s cegas? Penso tratar-se do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">eu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> mas, ao mesmo tempo, \u00e9 pertinente dizer que esse saber n\u00e3o pode ser transparente a si mesmo, contrapondo-se radicalmente \u00e0 no\u00e7\u00e3o de um saber que se sabe, equivalente a uma pura consci\u00eancia de si. Quanto ao tempo verbal do n\u00e3o sabido, o que me ocorre \u00e9 que ele comporta a no\u00e7\u00e3o de um saber que sempre s\u00f3 pode ser um saber por vir.\u00a0 O sabido como o que \u00e9 conhecimento e o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a saber<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> como pr\u00f3prio do que \u00e9 inconsciente, advindo do corte, pois floresce na falha. Ele d\u00e1 a saber.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Retorno um pouco ao termo que se destacou antes: ren\u00fancia ao gozo. Essa ren\u00fancia, que n\u00e3o deixa de referir ao que em Freud est\u00e1 formulado no mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 o que est\u00e1 no cerne do que Lacan chama de mais-de-gozar, onde podemos isolar a recupera\u00e7\u00e3o de algo desse gozo irrealiz\u00e1vel, algo que talvez s\u00f3 seja porque gozo mesmo n\u00e3o h\u00e1, enquanto absoluto. Se saber \u00e9 meio de gozo \u00e9 nessa trilha que podemos conceb\u00ea-lo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Pouco adiante, Lacan diz que a maneira como cada um sofre em sua rela\u00e7\u00e3o com o gozo, porquanto s\u00f3 se insere nela pela fun\u00e7\u00e3o do mais-de-gozar, \u00e9 o sintoma (p. 40). O saber ent\u00e3o, podemos dizer, entra nessa composi\u00e7\u00e3o. O sintoma tem um saber, tem um valor. E a verdade, qual interesse ela pode ter a\u00ed?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A ci\u00eancia atual se desembara\u00e7a da preocupa\u00e7\u00e3o com a verdade e funciona por outros par\u00e2metros. Mas a verdade ainda assim nos concerne e gostamos de acreditar que o saber porta a verdade, e isso faz parte do brilho que ele pode ter para n\u00f3s. Geralmente enla\u00e7ados em uma apreens\u00e3o ing\u00eanua, com Lacan vemos que saber e verdade est\u00e3o separados, n\u00e3o est\u00e3o no mesmo lugar, e isso \u00e9 fundamental para mostrar o que Lacan parece apontar como trabalho para mais adiante: a topologia na qual o que \u00e9 disjunto pode se unir, a verdade e o saber na garrafa de Klein.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Antes disso, ele lan\u00e7a m\u00e3o de outra via para dizer algo sobre o saber. Dessa vez o faz sob a forma de S<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">2<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, significante diante do qual o significante que viria representar o sujeito vem se esvanecer. Em S<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">2<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, fun\u00e7\u00e3o do saber, perde-se o sujeito. Ao demonstrar que apesar de s\u00f3 articular-se a partir do Outro, S<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">2<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> est\u00e1 fora do Outro como tal, isto \u00e9, n\u00e3o pode sustentar-se a\u00ed, Lacan parece indicar essa marca de origem de todo saber (p. 81). \u00c9 do que \u00e9 inconsciente que parte todo saber, e \u00e9 essa a raz\u00e3o pela qual esse saber n\u00e3o se faz todo. Em outra li\u00e7\u00e3o podemos ler: \u201co saber, como saber perdido, est\u00e1 na origem do que aparece de desejo em toda articula\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do discurso\u201d (p. 197).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A falha inerente ao saber \u00e9 por onde o desejo toma lugar. E \u00e9 o que est\u00e1 no cerne da afirma\u00e7\u00e3o de que o desejo \u00e9 desejo de saber, desde que, alerta-nos Lacan, coloquemos uma esp\u00e9cie de par\u00eanteses nesse \u201cde saber\u201d. Isso nos impede de recair na ideia de que o desejo inconsciente teria outro objeto que n\u00e3o este que o causa e que constitui sua verdade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A verdade \u00e9 o que falta ao saber, e a pr\u00f3pria psican\u00e1lise \u00e9 um saber sobre esta verdade \u00e0 qual o saber falta. Se a psican\u00e1lise pode dizer \u201cvoc\u00ea pode saber\u201d \u00e9 sempre na perspectiva de que esse saber em quest\u00e3o coloca-se no rastro da verdade, mas n\u00e3o a diz, n\u00e3o a alcan\u00e7a, e n\u00e3o por conting\u00eancia, mas porque determinado na estrutura. Esse saber, aquele que nos importa, assim como o desejo, sempre comporta uma impossibilidade. Ele n\u00e3o \u00e9 articul\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 saber de nada que possa ser apontado, a n\u00e3o ser para apontar sua incompletude.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Para encerrar essa descri\u00e7\u00e3o bastante preliminar do que Lacan faz neste semin\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao saber, escolho voltar ao momento em que ele fala do que nas universidades \u00e9 a marca da mercantiliza\u00e7\u00e3o do saber: \u201cNem se cogita, por ora, que se detenha o mercado do saber. Voc\u00eas mesmos \u00e9 que agir\u00e3o para que ele se estabele\u00e7a mais e mais. A unidade de valor, esse papelzinho que pretendem conceder a voc\u00eas \u00e9 isso. \u00c9 o sinal daquilo em que o saber se transformar\u00e1 cada vez mais, nesse mercado chamado Universidade. A verdade pode ter fun\u00e7\u00f5es espasm\u00f3dicas a\u00ed, mas n\u00e3o \u00e9 isso que reger\u00e1 para cada um sua exist\u00eancia de sujeito\u201d (p. 42).\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">De alguma forma, isso colocou de volta para mim a interroga\u00e7\u00e3o sobre o modo como os psicanalistas podem se posicionar diante da mercantiliza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, desse saber que os concerne. Para al\u00e9m das formas mais claramente esp\u00farias de transforma\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise em um curso de gradua\u00e7\u00e3o, chama a aten\u00e7\u00e3o nas redes sociais a imensa oferta de cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e afins sobre temas, obras e conceitos da psican\u00e1lise, estampados com a cara de psicanalistas de nome no pa\u00eds, e anunciados nos moldes de uma promo\u00e7\u00e3o de supermercado, visando o p\u00fablico curioso que quer enfeitar seus conhecimentos ou seus curr\u00edculos com um pouco desse saber, mas sem pagar o pre\u00e7o verdadeiro. Qual a nossa responsabilidade quando o empres\u00e1rio decide tomar para si essa clientela, j\u00e1 que de mercado ele provavelmente entende mais que o psicanalista que decide colocar o saber, que n\u00e3o \u00e9 seu, na prateleira?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 preciso se perguntar o que resta de psicanal\u00edtico na psican\u00e1lise que assim pretende garantir sua presen\u00e7a no contempor\u00e2neo. Tamb\u00e9m nesse sentido \u00e9 preciso levar em conta o que Lacan nos adiantou: \u00e9 sempre de dentro, entre os psicanalistas, que se providencia a degrada\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise.\u00a0<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Texto escrito, a partir do trabalho com o Semin\u00e1rio <em>De um Outro ao outro<\/em>, para a Intersec\u00e7\u00e3o Aepm e Cart\u00e9is Lacanianos. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Encontro, em julho de 2025, por ocasi\u00e3o do anivers\u00e1rio de 30 anos da AEPM.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante o percurso que Lacan exp\u00f5e em seu Semin\u00e1rio, partindo de um Outro ao outro, o saber \u00e9 questionado e movido de certa forma que n\u00e3o me pareceu sem import\u00e2ncia. \u00c9 sobre o que ele faz com esse saber que eu gostaria de me deter um pouco mais.\u00a0 Sem a pretens\u00e3o de fixar ideias, o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[13,1,12],"tags":[141,142,108,37],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1208"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1208"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1208\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1253,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1208\/revisions\/1253"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1208"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1208"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1208"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}