{"id":1212,"date":"2026-05-09T13:05:03","date_gmt":"2026-05-09T13:05:03","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=1212"},"modified":"2026-05-09T13:05:03","modified_gmt":"2026-05-09T13:05:03","slug":"estrutura-real-e-gozo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2026\/05\/09\/estrutura-real-e-gozo\/","title":{"rendered":"Estrutura, Real e Gozo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Come\u00e7o a escrita desse texto com um fragmento em que Lacan diz que sentiu disposi\u00e7\u00e3o para o chamado trabalho, isto \u00e9, para desarruma\u00e7\u00e3o. Lembrei de uma frase que minha av\u00f3 dizia para mim quando era crian\u00e7a: \u201cMenino, deixa de arruma\u00e7\u00e3o\u201d, que era dita quando inventava alguma coisa tida como traquinagem infantil.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Percorrer o <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Semin\u00e1rio<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> De um Outro ao outro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> at\u00e9 aqui tem colocado a entrada de pontos que tem desarrumado as coisas. \u201cO significante \u00e9 aquilo que representa o sujeito para outro significante\u201d, uma frase conhecida e at\u00e9 repetida, mas com a entrada da l\u00f3gica n\u00e3o posso dizer que as coisas ficaram do mesmo jeito.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cA l\u00f3gica matem\u00e1tica \u00e9 a l\u00f3gica pura e simples. [&#8230;] Para chamar as coisas por seu nome, essa l\u00f3gica \u00e9 absolutamente essencial \u00e0 sua exist\u00eancia no real, saibam voc\u00eas disso ou n\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Lacan introduz uma frase que foi abrindo cada vez mais ao percorrer o <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Semin\u00e1rio<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">: a ess\u00eancia da teoria psicanal\u00edtica \u00e9 um discurso sem palavra (fala). \u00c9 da fun\u00e7\u00e3o do discurso que se trata, mas de um discurso que tem consequ\u00eancias, acrescento, <em>no real<\/em>, como insistentemente foi colocado por Lacan.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO que h\u00e1 de novo \u00e9 a exist\u00eancia de um discurso que articula essa ren\u00fancia (ao gozo) e que faz evidenciar-se pelo que chamarei de fun\u00e7\u00e3o do mais-de-gozar. \u00c9 a ess\u00eancia do discurso anal\u00edtico. Essa fun\u00e7\u00e3o aparece em decorr\u00eancia do discurso. Ela demonstra, na ren\u00fancia ao gozo, um efeito do pr\u00f3prio discurso\u201d. Lacan afirma que \u00e9 essa fun\u00e7\u00e3o do mais-de-gozar que d\u00e1 lugar ao objeto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, \u00e9 o que permite isolar a fun\u00e7\u00e3o do objeto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Aqui estou num ponto de dificuldade da escrita, porque pretendo abordar algo que entrou para mim mais intensamente nesse momento, a estrutura. \u00c9 comum escutar refer\u00eancias \u00e0 estrutura, mas o que \u00e9 estrutura com Lacan nesse momento?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Esses dias, enquanto estava numa turma de 6\u00b0 ano, disse para um estudante: \u201cno teu texto faltou a parte do grafo\u201d, quando queria dizer gr\u00e1fico. Naquele momento tomei um susto e lembrei do quanto esse grafo do desejo tem sido revisto agora.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Embora tenha percorrido o <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Semin\u00e1rio<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> O desejo e a sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, em que Lacan soletra esse grafo, somente agora fui surpreendido com dois pontos: Gozo e Castra\u00e7\u00e3o. Gozo de um lado e Castra\u00e7\u00e3o do outro, atrav\u00e9s desse vetor que corta esse <img loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-1234\" src=\"https:\/\/aepm.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/s-de-a-barrado-e1776360919488.png\" alt=\"\" width=\"37\" height=\"21\" \/> e <\/span><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-717 \" style=\"color: #ff0000;\" src=\"https:\/\/aepm.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/demanda-2.jpg\" alt=\"\" width=\"36\" height=\"21\" \/> .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Como aponta Lacan, o mais importante em rela\u00e7\u00e3o ao grafo s\u00e3o os vetores estruturais.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Lacan afirma que \u201ca estrutura deve ser tomada no sentido em que \u00e9 mais real, em que \u00e9 o pr\u00f3prio real. A estrutura, portanto, \u00e9 real. Em geral, isso se determina pela converg\u00eancia para uma impossibilidade. \u00c9 por isso que \u00e9 real&#8221;.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Considerando que a estrutura \u00e9 real, como abord\u00e1-la? Quando penso nesse aspecto, penso em limite, o que faz limite ao real?\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Enquanto estava \u00e0s voltas com a escrita desse texto, fui tomado pela leitura de um livro do Dr. Charles Melman, intitulado <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Como algu\u00e9m se torna paran\u00f3ico?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, e ali ele diz: \u201c[&#8230;] a voca\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise s\u00f3 pode se referir a l\u00f3gica, como eu j\u00e1 falei para voc\u00eas, funda a impossibilidade, funda o real, mostrando que nenhum sistema formal pode impedir a instala\u00e7\u00e3o disso que resiste a toda formaliza\u00e7\u00e3o de um sistema, mesmo quando essa formaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 perfeita. \u00c9 preciso que eu passe para um metassistema para resolver a impossibilidade pr\u00f3pria desse sistema. E \u00e9 por isso que Lacan diz que a l\u00f3gica \u00e9 a ci\u00eancia do real, e isso \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o estou certo de que os l\u00f3gicos a compreendam, mas para o psicanalista ela \u00e9 formid\u00e1vel\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Lacan em determinado momento faz refer\u00eancia ao real absoluto e essa no\u00e7\u00e3o de absoluto me dirigiu ao livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">De Pit\u00e1goras a Lacan, uma hist\u00f3ria n\u00e3o oficial da matem\u00e1tica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, de Virginia Hasenbalg, em que ela afirma: \u201ca matematiza\u00e7\u00e3o do infinito gra\u00e7as a teoria dos conjuntos permitiu o desenvolvimento do campo da matem\u00e1tica enquanto problema formal de letras\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Ela afirma apoiada em Lacan que a entrada do significante no real introduz um para-al\u00e9m, um fora-de-medida que foi chamado de infinito atual. Cantor demonstra que com a escrita de uma letra \u00e9 poss\u00edvel introduzir um limite ao considerado inacabado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO infinito em ato coloca um para-al\u00e9m absoluto que o infinito potencial escamoteia j\u00e1 que permanece no mesmo espa\u00e7o que a sequ\u00eancia intermin\u00e1vel; o infinito potencial por defini\u00e7\u00e3o continua presente com seus pontos de retic\u00eancia. A no\u00e7\u00e3o de absoluto implicada pelo infinito atual entra em resson\u00e2ncia com a do desejo que Lacan define como condi\u00e7\u00e3o absoluta para o sujeito\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Estou \u00e0s voltas com esse texto e lembrei do buraco, do furo, da borda. Que, nesse momento, para mim s\u00e3o diferentes. Em alguns momentos percebi que me causava estranheza escutar esses termos, porque pensava em como olhar para eles de modo topol\u00f3gico, uma entrada que foi poss\u00edvel aqui.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c\u00c9 na borda que ocorrem os maiores choques de placas tect\u00f4nicas em que os terremotos mais intensos acontecem e que os vulc\u00f5es entram em erup\u00e7\u00e3o frequentemente\u201d, foi o que disse em uma aula de Ci\u00eancias, mas fui levado a pensar nisso que ocorre nas bordas do corpo, que s\u00e3o erogeneizadas, onde algo dali cai. Mas cai para onde?\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Lacan fala de uma estrutura de borda, \u201cna puls\u00e3o interv\u00e9m o que \u00e9 chamado em topologia de estrutura de borda\u201d. Aqui lembrei que \u00e9 em torno de um orif\u00edcio, chamado blast\u00f3poro, que teremos a forma\u00e7\u00e3o da boca e do \u00e2nus e que em nosso caso, por sermos do ponto de vista biol\u00f3gico deuterost\u00f4mios, esse orif\u00edcio forma inicialmente o \u00e2nus e depois a boca. Nesse momento, uma massa de carne, mas depois, com a entrada na linguagem, \u00e9 em torno de orif\u00edcios que apresentam essa estrutura de borda que Lacan p\u00f5e o que funciona como puls\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cA puls\u00e3o, por si s\u00f3, designa a conjun\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica com a corporeidade. O enigma, concerne mais a isto: como foi poss\u00edvel convocar o gozo da borda a uma equival\u00eancia como o gozo sexual?\u201d. Essa equival\u00eancia me remeteu a fun\u00e7\u00f5es equivalentes da matem\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Aqui Lacan n\u00e3o diz que o gozo da borda \u00e9 o gozo sexual, mas equivalente. Por conta dessa equival\u00eancia, lembrei do ponto em que ele diz que \u201cse o objeto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> pode funcionar como equivalente do gozo, \u00e9 em raz\u00e3o de uma estrutura topol\u00f3gica\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u201cO gozo, aqui, \u00e9 um absoluto, \u00e9 o real, e tal como defini, como aquilo que sempre volta ao mesmo lugar\u201d. E coloco o gozo aqui tentando contornar a pergunta que fiz insistentemente no cartel: de que gozo se trata?\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cPois bem, se n\u00e3o houvesse a configura\u00e7\u00e3o de vac\u00faolo, de furo pr\u00f3prio do gozo, que \u00e9 algo insuport\u00e1vel para o que \u00e9 regulado como tens\u00e3o temperada, voc\u00eas n\u00e3o veriam nada no sexual que fosse an\u00e1logo ao que eu chamo, na puls\u00e3o, de estrutura de borda. A borda \u00e9 constitu\u00edda, aqui, por uma esp\u00e9cie de log\u00edstica de defesa\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A suposi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de um gozo que teria sido, mas que desse gozo restou apenas uma marca que seria ent\u00e3o buscada, coloca um movimento de repeti\u00e7\u00e3o em torno dessa marca. Gozo enquanto perda de gozo, gozo interditado.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Texto escrito para a Intersec\u00e7\u00e3o Aepm e Cart\u00e9is Lacanianos, a partir do trabalho com o Semin\u00e1rio <em>De um Outro ao outro<\/em>. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Encontro, em julho de 2025, por ocasi\u00e3o do anivers\u00e1rio de 30 anos da AEPM.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7o a escrita desse texto com um fragmento em que Lacan diz que sentiu disposi\u00e7\u00e3o para o chamado trabalho, isto \u00e9, para desarruma\u00e7\u00e3o. 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