{"id":1214,"date":"2026-05-05T16:18:27","date_gmt":"2026-05-05T16:18:27","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=1214"},"modified":"2026-05-05T16:18:27","modified_gmt":"2026-05-05T16:18:27","slug":"o-que-o-psiquiatra-faz-com-o-que-escuta-em-sua-escuta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2026\/05\/05\/o-que-o-psiquiatra-faz-com-o-que-escuta-em-sua-escuta\/","title":{"rendered":"O que o psiquiatra faz com o que escuta em sua escuta?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 v\u00e1rias formas de estar na psiquiatria. Uma delas, a que me parece mais interessante e mais desafiante \u2014 pois permite que nos surpreendamos, a cada vez, com aquilo que um paciente fala \u2014 \u00e9 a psiquiatria que se compromete com uma escuta. Uma jovem residente de psiquiatria me disse ontem, numa de nossas discuss\u00f5es cl\u00ednicas: &#8220;as pessoas de nossa idade n\u00e3o gostam de liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas&#8221;. Discut\u00edamos os contatos por WhatsApp com os pacientes, aquela fala sem voz, aquela aus\u00eancia de di\u00e1logo. Numa escrita de WhatsApp, algo pode se dar a ouvir? Algu\u00e9m poderia me dizer: &#8220;mas h\u00e1 os \u00e1udios! Ali tem voz!&#8221; Pode at\u00e9 ter voz, mas n\u00e3o tem conversa. Quando um psiquiatra se esquiva dessa possibilidade de escutar, o que resta? Resta remediar a dor que d\u00f3i em algum lugar perdido <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">entre os descaminhos do que \u00e9 nosso, inteiramente nosso<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, e que pode ficar apaziguado sob um v\u00e9u de sil\u00eancio. Contudo, essa dor se faz de palavras. E o psiquiatra pode ouvi-las. O que \u00e9 muito. Isso \u00e9 muito.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Mas e se os jovens psiquiatras n\u00e3o querem mais liga\u00e7\u00f5es? Meu Deus, eles n\u00e3o querem mais saber de liga\u00e7\u00f5es! Ent\u00e3o, resta-nos a dor de uma mo\u00e7a irritada com o marido, que sai do consult\u00f3rio do psiquiatra com uma boa dose de rem\u00e9dio anti-irrita\u00e7\u00e3o que h\u00e1 de vir a calar sua boca incomodada. \u00c9, estamos num tempo de bocas caladas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Hoje cedo vi num perfil de WhatsApp uma mo\u00e7a ensinando a viver uma rela\u00e7\u00e3o conjugal. Quais as atitudes perfeitas para que nada saia dos eixos? A felicidade mora nos itens checados e ticados. Felicidade de um tra\u00e7o. Numa lapada de tra\u00e7o. Assim: pronto, acabou! O rem\u00e9dio pode ser tamb\u00e9m essa lapada, n\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Tem a morta e tem a viva, doutor&#8221;, diz a paciente irritada, bloqueada pelo ant\u00eddoto que combate o veneno do desconforto. E a\u00ed, quem vamos escolher: a morta ou a viva?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Outra paciente, uma menina que tem gradua\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, mestrado, est\u00e1 em vias de ir ao doutorado, e n\u00e3o trabalha em nada, e \u00e9 uma menina, ela leva \u2014 em sua consulta no hospital psiqui\u00e1trico, depois de tantos atendimentos nos quais fora sozinha \u2014 a m\u00e3e e o namorado para o residente de psiquiatria que a acompanhava. Tr\u00eas dias depois lhe irrompe um estado de ang\u00fastia. O psiquiatra nada ouve. Ela lhe pede socorro pelo telefone. Liga, liga. Ele n\u00e3o atende. Ele n\u00e3o ouve a liga\u00e7\u00e3o. Depois, ele v\u00ea a chamada, e nada se passa. Vazio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Quem n\u00e3o est\u00e1 disposto a ouvir deveria fazer outra coisa. A mo\u00e7a ainda pede: &#8220;eu quero&#8230; com voc\u00ea&#8221;. O psiquiatra n\u00e3o escuta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Estamos na era dos psiquiatras que falam no WhatsApp. Falam, v\u00edrgula. Balbuciam. Ensaiam. Vivem de ensaios. E, assim, o que se mant\u00e9m \u00e9 a morta. Os mortos-vivos espalhados pelas salas de recep\u00e7\u00e3o dos consult\u00f3rios psiqui\u00e1tricos, buscando nos m\u00e9dicos das dores o rem\u00e9dio pra sanar o que a eles escapa. At\u00e9 quando vamos enfiar uma capa de faz-de-conta\u00a0 sobre a dor alheia para que se arremate o certificado de qualidade de bons e grandes profissionais?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Mas e se se mergulha nessa chance que a escuta traz, o que \u00e9 que o psiquiatra poder\u00e1 fazer com isso que ele ouve? Ele n\u00e3o \u00e9 o psicanalista, nem o psic\u00f3logo. O lugar do psiquiatra \u00e9 um lugar de m\u00e9dico. \u00c9 um lugar. Ele pode dar lugar a essa voz que fala. E \u00e9 muito. Isso \u00e9 muito. Havendo necessidade de rem\u00e9dios, \u00e9 a partir da\u00ed, dessa escuta, que ele pode escolher o que incidir\u00e1 em sua letra, num receitu\u00e1rio, numa orienta\u00e7\u00e3o, em sua palavra de psiquiatra. Ele far\u00e1 a sua conduta, sugerir\u00e1 um tratamento, tendo por base aquilo que lhe foi poss\u00edvel ouvir.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Voc\u00ea tem um m\u00e9dico da dor&#8221;, disse o m\u00e9dico residente \u00e0 paciente irritada. O psiquiatra pode ser sim o m\u00e9dico da dor. Basta que ele ocupe esse lugar. E n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil, \u00e9 verdade. Mas \u00e9 poss\u00edvel. E \u00e9 uma chance. \u00c9 uma grande chance num universo de sil\u00eancios que fazem doer. Os jovens de hoje n\u00e3o querem ouvir sil\u00eancios, pausas, infelicidades conjugais n\u00e3o-instagram\u00e1veis. A bola da vez \u00e9 o jogo de futebol sem barulho, sem quedas, sem dribles, sem som. Um jogo mudo, a agressividade temperada por uma boa dose di\u00e1ria de sil\u00eancio em forma de dr\u00e1geas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Mas h\u00e1 uma chance. Ela s\u00f3 pede que se pare e se ou\u00e7a com aten\u00e7\u00e3o aquilo que nos \u00e9 diferente, outro. Ouvir \u00e9 um ato que pede um bom sil\u00eancio. E uma liga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 para se ir adiante numa escuta sem contar a liga\u00e7\u00e3o. A chance est\u00e1 a\u00ed!<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Texto escrito em janeiro de 2026, em comemora\u00e7\u00e3o aos 10 anos de funcionamento do Ambulat\u00f3rio de Transtornos do Humor do Hospital Nina Rodrigues.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 v\u00e1rias formas de estar na psiquiatria. Uma delas, a que me parece mais interessante e mais desafiante \u2014 pois permite que nos surpreendamos, a cada vez, com aquilo que um paciente fala \u2014 \u00e9 a psiquiatria que se compromete com uma escuta. 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