{"id":1219,"date":"2026-04-24T11:07:37","date_gmt":"2026-04-24T11:07:37","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=1219"},"modified":"2026-04-24T11:07:37","modified_gmt":"2026-04-24T11:07:37","slug":"por-uma-clinica-psicanalitica-das-paranoias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2026\/04\/24\/por-uma-clinica-psicanalitica-das-paranoias\/","title":{"rendered":"Por uma cl\u00ednica psicanal\u00edtica das paranoias"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A primeira palavra que me vem no in\u00edcio desta escrita \u00e9 \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d. Acredito que seja porque o trabalho no Cartel com a tese do Lacan me fez lembrar o seguinte trecho da m\u00fasica de Chico Buarque: \u201ctijolo por tijolo num desenho l\u00f3gico\u201d. A tese do Lacan me pareceu um primeiro tijolo nesse desenho da constru\u00e7\u00e3o de uma cl\u00ednica com as paranoias, o tra\u00e7ado que funda uma pr\u00e1tica cl\u00ednica, que, sendo subversivo e ousado, lan\u00e7a novidades no cen\u00e1rio do tratamento anal\u00edtico das psicoses. Penso que esse tra\u00e7ado \u00e9 um esbo\u00e7o do que Lacan engendrar\u00e1, vinte e tr\u00eas anos depois, em seu inovador <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Semin\u00e1rio 3<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, aquele dedicado \u00e0s estruturas freudianas da psicose. Tanto em sua tese como em seu terceiro semin\u00e1rio, podemos observar o quanto a doutrina estabelecida por Lacan tem as suas premissas na doutrina freudiana, permitindo-se avan\u00e7ar a partir dela.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Em suas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Notas psicanal\u00edticas sobre um relato autobiogr\u00e1fico de um caso de paranoia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, Freud dissera que os analistas n\u00e3o deveriam aceitar pacientes paranoicos, visto que a psican\u00e1lise n\u00e3o possibilitaria um sucesso terap\u00eautico nesses casos. Nesse mesmo texto, ele nos diz que a paranoia deveria ser mantida, como sugerira Kraepelin, como uma entidade cl\u00ednica independente de outros tipos de psicose. Constata-se, hoje, que estamos diante da prolifera\u00e7\u00e3o de uma nosografia psiqui\u00e1trica excessivamente descritiva, consensual, clinicamente pouco aplic\u00e1vel, que exclui as singularidades e as complexidades escancaradas pelas quest\u00f5es das psicoses. Os manuais de diagn\u00f3stico psiqui\u00e1tricos mais atuais (CID-11 e DSM-V) mant\u00e9m a elimina\u00e7\u00e3o das paranoias em seu escopo classificat\u00f3rio, mantendo-as somente enquanto termos de uma adjetiva\u00e7\u00e3o, um especificador veiculado a alguns quadros psic\u00f3ticos, como um subtipo de esquizofrenia (a esquizofrenia paranoide), o transtorno de personalidade paranoide, e o transtorno delirante, ou seja, algo totalmente antag\u00f4nico \u00e0 indica\u00e7\u00e3o freudiana. Abriu-se, portanto, espa\u00e7o para a pulveriza\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de transtornos mentais intercambi\u00e1veis, sobretudo no terreno das psicoses, desembocando numa cl\u00ednica repleta de comorbidades psiqui\u00e1tricas (a regra \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o de diagn\u00f3sticos) e numa polifarm\u00e1cia, ambas comprometidas com a farm\u00e1cia e o com o sil\u00eancio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Na primeira parte de sua tese, Lacan recorre aos imprescind\u00edveis ensinos de psiquiatras cl\u00e1ssicos, como Cl\u00e9rambault, com a sua no\u00e7\u00e3o de automatismo mental, e Kraepelin, com sua descri\u00e7\u00e3o que delimitou a no\u00e7\u00e3o de paranoia, retirando-a de um lugar de significa\u00e7\u00e3o bastante indefinida, para outro, onde ela \u00e9 enunciada como \u201cum duradouro sistema delirante, imposs\u00edvel de ser abalado, e que se instaura com a conserva\u00e7\u00e3o completa da clareza e da ordem no pensamento, na vontade e na a\u00e7\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Um dos pontos que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o nas discuss\u00f5es acerca da tese de Lacan foi quando, ao estudarmos a segunda parte do livro, observamos o quanto ele destrincha, minuciosamente, as elabora\u00e7\u00f5es do del\u00edrio de uma paranoica, a paciente Aim\u00e9e, observada por Lacan durante aproximadamente um ano e meio, quase que diariamente. Respaldado no ensino de Freud sobre as mem\u00f3rias de Schreber, Lacan aborda a forma\u00e7\u00e3o delirante, tomando-a n\u00e3o como um produto patol\u00f3gico, mas como uma tentativa de reelabora\u00e7\u00e3o, de reconstru\u00e7\u00e3o. Com esse caso cl\u00ednico, ele formula um novo tipo de paranoia, a paranoia de autopuni\u00e7\u00e3o, trazendo o texto do drama delirante de Aim\u00e9e, apontando as formas gramaticais utilizadas, a combina\u00e7\u00e3o de temas persecut\u00f3rios (ideias de ci\u00fame) e de grandeza (um idealismo reformista, em sonhos de uma vida melhor, na realiza\u00e7\u00e3o de uma grande miss\u00e3o social). Em se tratando da persegui\u00e7\u00e3o, Lacan traz que Aimee escolheu como perseguidora uma atriz de teatro bem-sucedida, aclamada pelo seu p\u00fablico, famosa e rica. Aime\u00e9 tamb\u00e9m sonhava em ser uma escritora reconhecida por sua arte, influenciar as pessoas. Lacan ressalta essa ambival\u00eancia e os mandamentos da miss\u00e3o delirante que ordenam que Aim\u00e9e aja, publicando os seus romances, livrando-se, assim, de seus inimigos, que recuariam a partir de ent\u00e3o. Lacan apresenta esses mandamentos como um dos recursos da organiza\u00e7\u00e3o delirante. Lembrei-me de uma paciente que, diante de uma vizinha perseguidora que, insistentemente, colocava \u201ccopos de vidro demon\u00edacos\u201d em seu muro durante os sil\u00eancios escuros das madrugadas, elabora uma sa\u00edda, pelas vias de seu del\u00edrio: sua salva\u00e7\u00e3o seria levar esses copos para serem descartados nas lixeiras do Hospital Psiqui\u00e1trico. Com isso, ela se tornaria mais forte que a vizinha, concluindo que: \u201cvou ser mais filha de Deus do que ela acha que \u00e9, mais bem-dotada de palavras do que ela, nos cultos de nossa igreja\u201d. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">E o que faz Aim\u00e9e ap\u00f3s o insucesso de suas tentativas de sa\u00edda? Ela tenta assassinar uma imagem idealizada dela mesma, a atriz, a mulher ilustre e renomada: a sra. Z. O nome da atriz chegara ao seu conhecimento por meio de sua melhor amiga, que veio a se tornar sua principal perseguidora, ap\u00f3s esta, por telefone, pedir-lhe not\u00edcias a respeito do desenlace infeliz de uma primeira gravidez. Lacan escreve: \u201c\u00e9 com o trauma moral da crian\u00e7a natimorta que aparece em Aim\u00e9e a primeira sistematiza\u00e7\u00e3o do del\u00edrio em torno de uma pessoa, a quem s\u00e3o imputadas todas as persegui\u00e7\u00f5es que ela sofreu. Essa esp\u00e9cie de cristaliza\u00e7\u00e3o do del\u00edrio se produziu de forma t\u00e3o s\u00fabita que o testemunho espont\u00e2neo da doente n\u00e3o deixa d\u00favida\u201d. Sem conseguir confessar seu del\u00edrio, tudo se afunilar\u00e1 para essa rela\u00e7\u00e3o dual (ela e a outra, a atriz, a c\u00e9lebre). Essa mulher idealizada precisar\u00e1, ent\u00e3o, ser retirada de cena. Acredito que, a partir do estudo da tese do Lacan, podemos dizer que Aim\u00e9e se viu diante da aus\u00eancia de qualquer recurso que pudesse barrar esse outro em espelho, colocando a\u00ed alguma cis\u00e3o, alguma separa\u00e7\u00e3o entre a imagem dela mesma e a imagem dessa mulher ideal, o que fez irromper, assim, o surto delirante e o ato agressivo, a posteriori. Creio ser poss\u00edvel pensar que seja essa falta de recurso ao Outro, essa dimens\u00e3o foraclu\u00edda, que coloca o paranoico numa milit\u00e2ncia competitiva com o seu ideal. Depois que Aim\u00e9e ataca e fere esse duplo, h\u00e1 gradativamente uma atenua\u00e7\u00e3o de seu del\u00edrio. Isso certamente n\u00e3o se d\u00e1 sem a interna\u00e7\u00e3o, que lhe d\u00e1 algum lugar diante da escassez de separa\u00e7\u00e3o entre ela e o outro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Freud dissera que a tentativa de cura, na paranoia, se d\u00e1 pela proje\u00e7\u00e3o. Lacan se inspira nas elabora\u00e7\u00f5es freudianas, ao escrever a sua tese, abrindo a interroga\u00e7\u00e3o a respeito da possibilidade de uma cl\u00ednica psicanal\u00edtica das psicoses. Em sua tese, Lacan \u00e9 kraepeliniano, dando \u00e0 paranoia um lugar singular. Chama o del\u00edrio de Aim\u00e9e de um del\u00edrio de interpreta\u00e7\u00e3o e diz que o primeiro tra\u00e7o caracter\u00edstico do del\u00edrio \u00e9 a sua clareza significativa. Em seguida, escreve algo que ficou ecoando em meus ouvidos: \u201cpode-se dizer que, ao contr\u00e1rio dos sonhos, que devem ser interpretados, o del\u00edrio \u00e9 por si mesmo uma atividade interpretativa do inconsciente. Estamos diante de um sentido inteiramente novo que se oferece ao termo del\u00edrio de interpreta\u00e7\u00e3o. Que se interrogue, contudo, o doente sobre as origens hist\u00f3ricas de suas convic\u00e7\u00f5es delirantes, e ent\u00e3o aparecer\u00e1 o segundo tra\u00e7o caracter\u00edstico do del\u00edrio, a saber, sua imprecis\u00e3o l\u00f3gica\u201d. Lacan chega a percorrer alguns escritos de Aim\u00e9e, e faz, com eles, um trabalho \u00fanico, impressionante, inspirador, observando um estilo em que se pode notar \u201ctra\u00e7os de automatismo\u201d, fuga de ideias. Escreve que \u201co grafismo chama aten\u00e7\u00e3o por sua rapidez, sua altura oscilante, sua linha descont\u00ednua, o defeito de pontua\u00e7\u00e3o. Todos esses tra\u00e7os se enfatizam nos per\u00edodos que correspondem a uma exalta\u00e7\u00e3o delirante\u201d. Esse n\u00edvel de trabalho com o trabalho do del\u00edrio foi um dos pontos que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o em toda a tese. Lacan n\u00e3o se economiza nem um pouco em destrinchar os percursos do del\u00edrio paranoico interpretativo de sua paciente. Embora em alguns pontos isso sugira um certo foco numa compreens\u00e3o, Lacan abre quest\u00f5es no campo das psicoses. Veio-me, agora, um trecho das primeiras li\u00e7\u00f5es de seu <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Semin\u00e1rio 3<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, e que, frequentemente, volta para mim: \u201co progresso maior da psiquiatria consistiu, acredita-se, em restituir o sentido na cadeia dos fen\u00f4menos. Isso n\u00e3o \u00e9 falso em si. Por\u00e9m, o que \u00e9 falso \u00e9 conceber que o sentido de que se trata \u00e9 aquele que se compreende. O que ter\u00edamos aprendido de novo, de acordo com o que se pensa de maneira ambiente nas salas de plant\u00e3o \u00e9 compreender os doentes. \u00c9 uma pura miragem\u201d.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Jornada do <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Cartel &#8220;Da psicose paranoica em suas rela\u00e7\u00f5es com a personalidade&#8221;, em 2025.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira palavra que me vem no in\u00edcio desta escrita \u00e9 \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d. Acredito que seja porque o trabalho no Cartel com a tese do Lacan me fez lembrar o seguinte trecho da m\u00fasica de Chico Buarque: \u201ctijolo por tijolo num desenho l\u00f3gico\u201d. 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