{"id":314,"date":"2021-09-23T13:09:16","date_gmt":"2021-09-23T13:09:16","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=314"},"modified":"2022-08-21T23:21:48","modified_gmt":"2022-08-21T23:21:48","slug":"o-cartel-e-uma-superficie-topologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/09\/23\/o-cartel-e-uma-superficie-topologica\/","title":{"rendered":"O cartel \u00e9 uma superf\u00edcie topol\u00f3gica?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No\u00a0semin\u00e1rio da Identifica\u00e7\u00e3o Lacan nos for\u00e7a, nos obriga a acompanhar uma abordagem topol\u00f3gica que, para alguns que n\u00e3o contam, de sa\u00edda, com esse caminho, media\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica, fica particularmente dif\u00edcil, para n\u00e3o dizer inacess\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, trata-se de um campo\/instrumento que bem num s\u00f3-depois vai se configurando como necess\u00e1ria fronteira entre a pr\u00e1tica psicanal\u00edtica e sua articula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da\u00ed, na experi\u00eancia de cartel que vivo no momento com mais cinco pessoas, trabalhando o pr\u00f3prio semin\u00e1rio da Identifica\u00e7\u00e3o, uma interroga\u00e7\u00e3o foi tomando corpo, ser\u00e1 que podemos considerar o cartel como uma superf\u00edcie topol\u00f3gica? A pergunta parece se justificar basicamente pela import\u00e2ncia do furo \u2212 \u00a0s\u00f3 a vibra\u00e7\u00e3o do furo pode definir um cartel e sabemos que o furo \u00e9 o nervo topol\u00f3gico. Vejamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de uma superf\u00edcie fechada, na qual o buraco, nervo topol\u00f3gico, deve ser mantido. Tal manuten\u00e7\u00e3o \u00e9 tarefa do +1 que, no seu exerc\u00edcio, deve tamb\u00e9m se configurar como -1, mero lugar, lugar esse que mant\u00e9m vigil\u00e2ncia sobre outro lugar, o do buraco. O que se verifica nesse caso \u00e9 uma l\u00f3gica prim\u00e1ria, \u00e0 medida que o conhecimento se amplia a \u00e1rea do desconhecimento tamb\u00e9m se amplia. Mas deve ser sublinhado o lugar do +1 como garantidor do vazio do buraco, a despeito dos rel\u00e2mpagos do saber e que, at\u00e9 por serem reconhecidos como rel\u00e2mpagos, o que destitui a mestria, mant\u00e9m o exerc\u00edcio de compreens\u00e3o e interroga\u00e7\u00e3o percorrendo a borda do furo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cartel constitu\u00eddo por cinco ou seis pessoas funciona como um processo de vizinhan\u00e7a, vizinhos n\u00e3o paralelos que conjugam lugares diferentes, advindos de tra\u00e7os distintos numa associa\u00e7\u00e3o que sabemos n\u00e3o t\u00e3o livre do cada um singular para um espa\u00e7o mais amplo. H\u00e1 de se considerar que o eixo desse funcionamento est\u00e1 referido ao Outro, presen\u00e7a que separa o cartel de um grupo e sustenta a possibilidade da palavra de um virar significante para um outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada um importa, por isso a cada um \u00e9 exigido que d\u00ea o seu peda\u00e7o de carne, a cada um \u00e9 exigido que fale do seu lugar de transfer\u00eancia, de transfer\u00eancia de trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consideramos que esse lugar cartel \u00e9 um lugar prop\u00edcio para o reconhecimento da transforma\u00e7\u00e3o da demanda em desejo, o sujeito pode surpreender vindo \u00e0 tona numa interroga\u00e7\u00e3o substantivada, densa, que se estende ao pr\u00f3prio ser. Poder\u00edamos reconhecer aqui o que Lacan diz sobre a superf\u00edcie do buraco, <em>\u201cessa superf\u00edcie assim estruturada \u00e9 particularmente prop\u00edcia a fazer funcionar, diante de n\u00f3s, esse elemento, o mais inapreens\u00edvel, que se chama desejo, enquanto tal, em outras palavras, a falta\u201d<\/em>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m para n\u00f3s fica como pergunta o que Lacan traz sobre o <em>cross-cap<\/em> que fala de uma estrutura entrecruzada. \u00c9 o caso do cartel? E, ainda se referindo sobre esse ponto, Lacan se refere ao objeto do desejo e ao falo na medida <em>\u201cem que \u00e9 por ele, enquanto operador que o objeto pode ser posto\u201d<\/em>&#8230; \u00c9 poss\u00edvel admitir tudo isso num rebatimento sobre o cartel?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dimens\u00e3o temporal tamb\u00e9m interv\u00e9m nesse processo, h\u00e1 de ser considerada a pressa do tempo l\u00f3gico, o cartel tem uma dura\u00e7\u00e3o definida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pr\u00e1tica, no rolar e ralar do dia a dia, nos defrontamos com as resist\u00eancias de cada um, somos chamados a engomar nossa experi\u00eancia narc\u00edsica e nos exercer na rivaliza\u00e7\u00e3o que uma situa\u00e7\u00e3o grupal promove.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cartel, assim o entendo, s\u00f3 pode se fazer valer sob o comando\/reconhecimento do Outro que sustenta um menos, a partir do exerc\u00edcio do +1, e os cortes que operam re-cortes permitem a vivifica\u00e7\u00e3o do vazio (do vazio&#8230;chegamos ao nada?).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora n\u00e3o se tenha uma receita para um funcionamento de cartel o s\u00f3-depois nos permite reconhecer alguns elementos de sua estrutura naquilo que se articula e desarticula num encontro \u201cmarcado\u201d, passageiro&#8230; O verbo ter mostra uma dimens\u00e3o: tivemos cartel. Isso faz a verdade de que a proposta \u201cvamos fazer um cartel\u201d nem sempre se conclui com \u201ctivemos cartel\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o convite para um espa\u00e7o em que nossa ex-sist\u00eancia pode ser compartilhada, mas para isso \u00e9 preciso que naquele tempo, naquele lugar, cada um de n\u00f3s possa se sujeitar a esse convite que s\u00f3 tem efeitos quando entendido como convoca\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, suportar esse \u201cvocare\u201d como do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa refer\u00eancia ao Outro, como debulh\u00e1-la?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De sa\u00edda, dando \u00e0 palavra o valor de significante, fazendo-a sem autor, sempre equ\u00edvoca, sustentada apenas na sua ess\u00eancia de corte e, em sendo assim, admiti-la como determinante do sujeito. Ter\u00edamos ent\u00e3o em jogo mais os sujeitos do que os eus, embora, claro, os eus n\u00e3o s\u00e3o eliminados e v\u00e3o intervir aqui e ali \u2500 o cuidado \u00e9 de sab\u00ea-los submetidos a um lugar Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 transfer\u00eancia de trabalho, outro eixo essencial do funcionamento de cartel, como entend\u00ea-la? Me parece que deve ser avaliado o tipo de pertencimento que ali se define. Qualquer grupo convoca um pertencimento, uma inclus\u00e3o. Embora reduzindo, podemos abordar esse pertencimento sob o \u00e2ngulo do amor (onde vige tamb\u00e9m pedido de reconhecimento), do interesse (particularmente em rela\u00e7\u00e3o ao poder) ou do trabalho \u2500 aqui vale trazer, de novo, Riobaldo, aquele da ep\u00edgrafe da introdu\u00e7\u00e3o: <em>\u201ca colheita \u00e9 comum, mas o capinar \u00e9 sozinho\u201d<\/em> <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Juntamos a solid\u00e3o do humano sempre embarcada nos desvios do Outro com a partilha necess\u00e1ria com o outro. Com-partilhamos o significante, compartilhamos corte, como diz a m\u00fasica <em>\u201cpeda\u00e7os de mim\u201d<\/em>&#8230; Essa partilha de significantes procura sem cessar aquilo que o real, sempre o mesmo, n\u00e3o diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo de capinagem convoca uma vizinhan\u00e7a que n\u00e3o se define pelo amor, mas por uma tarefa (trabalho), com dura\u00e7\u00e3o limitada. Reproduz no coletivo o movimento temporal no qual o inconsciente nos conduz \u2500 abre e fecha&#8230;para abrir de novo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cartel \u00e9 uma passagem que rebate sobre o nosso destino de passageiros.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Este texto est\u00e1 incluso na publica\u00e7\u00e3o do Cart\u00e9is Lacanianos: <em>O cartel \u00e9 uma superf\u00edcie topol\u00f3gica?<\/em> (2021)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ep\u00edgrafe que consta na introdu\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o <em>O cartel \u00e9 uma superf\u00edcie topol\u00f3gica? <\/em>: \u201c<em>De Riobaldo, no Grande Sert\u00e3o, \u2018a colheita \u00e9 comum, mas o capinar \u00e9 sozinho\u2019.\u201d<\/em> A frase foi retirada do livro de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No\u00a0semin\u00e1rio da Identifica\u00e7\u00e3o Lacan nos for\u00e7a, nos obriga a acompanhar uma abordagem topol\u00f3gica que, para alguns que n\u00e3o contam, de sa\u00edda, com esse caminho, media\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica, fica particularmente dif\u00edcil, para n\u00e3o dizer inacess\u00edvel. 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