{"id":329,"date":"2021-09-23T14:08:36","date_gmt":"2021-09-23T14:08:36","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=329"},"modified":"2022-08-21T23:24:15","modified_gmt":"2022-08-21T23:24:15","slug":"o-traco-unario-e-o-nome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/09\/23\/o-traco-unario-e-o-nome\/","title":{"rendered":"O Tra\u00e7o Un\u00e1rio e o Nome"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O que sabemos do tra\u00e7o un\u00e1rio abordado por Lacan no processo de identifica\u00e7\u00e3o? O tra\u00e7o foi recolhido em Freud, na refer\u00eancia \u00e0 segunda forma desse processo. Einzinger Zug j\u00e1 traz o un\u00e1rio que vai ser ampliado por Lacan e traz consequ\u00eancias. Trata-se inicialmente de um signo que se transmuta em significante ao apagar a coisa que, de inacess\u00edvel, fica mai\u00fascula, Coisa. E Lacan vai longe na procura desse tra\u00e7o.\u00a0 Vai encontr\u00e1-lo na express\u00e3o do ca\u00e7ador, l\u00e1 no paleol\u00edtico, que registra marcas nos ossos&#8230; cada tra\u00e7o, cada um.\u00a0 O que eles dizem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algo sobre a ca\u00e7a, possivelmente, experi\u00eancia de vida de ent\u00e3o. Mas o que cada um diz? Falta enredo, mas h\u00e1 representa\u00e7\u00e3o de uma escrita, chance do sujeito, ele come\u00e7a a sua alfabetiza\u00e7\u00e3o. Lembrando que, como diz Lacan, a linguagem preexiste \u00e0 escrita, j\u00e1 ent\u00e3o a\u00ed os vest\u00edgios da linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tra\u00e7o mant\u00e9m uma exclus\u00e3o, ele diz que n\u00e3o diz, explicita um vazio, o qual entendido como perda vai dar uma dire\u00e7\u00e3o ao sujeito, um destino de busca, a procura de um encontro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que mesmo que cada tra\u00e7o diz? Basicamente que ele \u00e9 um, e a s\u00e9rie que inaugura composta por outros uns se sucedem como tra\u00e7os que podem at\u00e9 ser id\u00eanticos, mas que s\u00e3o distintos. Cada um s\u00f3 diz a sua diferen\u00e7a. Mesmo sem saber contar o sujeito que da\u00ed adv\u00e9m, em nascen\u00e7a, j\u00e1 conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esmiu\u00e7ando, reconhecemos no tra\u00e7o o valor do que vai ser lido como representa\u00e7\u00e3o, portanto algo que se diz em perda, uma coisa ausente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse tra\u00e7o, inaugural de um sujeito no seu processo identificat\u00f3rio vai sendo abordado por Lacan, acho que n\u00e3o \u00e0 toa, na marca na qual se sustenta a vida desse ca\u00e7ador primitivo, reconhecendo-o como signo, como significante, como letra (n\u00e3o \u00e9 simples esse percurso&#8230;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tra\u00e7o, j\u00e1 dissemos, traz uma exclus\u00e3o, poder\u00edamos dizer que esse 1 se acompanha de um zero, de um vazio, efeito da exclus\u00e3o da coisa&#8230; essa coisa perdida, primeira letra, a, objeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, \u00e9 preciso que ao tra\u00e7o se acrescente um nome<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, que vai colocar o sujeito numa descend\u00eancia e proporcionar, estabelecer seus limites sintom\u00e1ticos, introduzindo-o na l\u00f3gica da exce\u00e7\u00e3o enquanto 1 distinto de outro 1, e incluindo-o, ao mesmo tempo na s\u00e9rie que vige sob o Nome. O nome incorpa o sujeito, d\u00e1-lhe corpo, fornece algo que n\u00e3o \u00e9 significante, o amarra num ponto ao mesmo tempo em que o coloca numa s\u00e9rie mediando ascend\u00eancia e descend\u00eancia, fornece-lhe pois lugar e tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Nome \u00e9 o lugar da transmiss\u00e3o, acessa o Outro e sustenta a evic\u00e7\u00e3o da origem. O Nome nomeia um sujeito, d\u00e1-lhe condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para tecer sua hist\u00f3ria na oscila\u00e7\u00e3o estrutural entre um (+1) e um (-1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Aqui, em muitas regi\u00f5es do Brasil, o nome familiar, que marca a descend\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 prestigiado. O que \u00e9 chamado de nome \u00e9 o <em>pr\u00e9nom<\/em> na l\u00edngua francesa, e n\u00e3o \u00e0 toa o <em>nom<\/em> do franc\u00eas \u00e9 para n\u00f3s o sobrenome. A pergunta que ocorre: efeito do processo de mesti\u00e7agem?).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando ao tema, ocorre uma quest\u00e3o, esse sujeito que surfa entre significantes precisa ser nomeado? E, ent\u00e3o, temos que considerar a refer\u00eancia da duplicidade necess\u00e1ria entre enunciado e enuncia\u00e7\u00e3o. O sujeito da enuncia\u00e7\u00e3o n\u00e3o desliza fora de um enunciado. Entretanto h\u00e1 de se considerar que esse sujeito que surge inadvertidamente tem sua identidade na ex-sist\u00eancia&#8230; que n\u00e3o tem nome. Paradoxo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Ser nomeado implica simultaneamente um nomeante, um nome um nomeado \u2013 \u00e9 o batismo de 1 1 e de seu lugar numa s\u00e9rie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda essa premissa \u00e9 suporte para a reflex\u00e3o que vai focar essa pandemia que nos atropela, que afeta os nossos \u201crapports\u201d, que nos isola em cantos sem melodia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A observa\u00e7\u00e3o recai n\u00e3o s\u00f3 sobre o absurdo n\u00famero de mortes di\u00e1rias, mas de como o efeito desse n\u00famero totalizado rebate. No meu entender a falta de batimento do cada um, com seu nome, vai produzir um efeito de desentifica\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Perdemos, ao mesmo tempo, a refer\u00eancia da oscila\u00e7\u00e3o no tra\u00e7o entre presen\u00e7a\/aus\u00eancia entre +1 e -1, perdemos a \u00fanica fraternidade poss\u00edvel que \u00e9 a de estarmos sob o mesmo Nome. A desentifica\u00e7\u00e3o nos faz perder a perda. E, a\u00ed, um paradoxo: n\u00e3o podendo perder o cada um, n\u00e3o podendo sofrer o luto do cada um, a Morte nos pega de banda, fornecendo quantidades de ang\u00fastia, espalhando depress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O n\u00famero total aborta o sujeito. Paradoxalmente a contagem n\u00e3o o conta, resta-lhe o limbo, lugar dos n\u00e3o salvos, lugar dos n\u00e3o batizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me contaram que por ocasi\u00e3o do ato terrorista que atingiu o Bataclan, em Paris, o jornal Le Monde publicou uma edi\u00e7\u00e3o com o nome dos mortos, e, a cada dia, passou a trazer o retrato e algumas refer\u00eancias de cada um deles. Muito dif\u00edcil n\u00e3o ser afetado, atingido pela tr\u00edplice injun\u00e7\u00e3o a\u00ed produzida, de imagin\u00e1rio, simb\u00f3lico e real \u2013 uma foto, o nome, a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui tamb\u00e9m tivemos (poucas) manifesta\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas sobre essa desgra\u00e7a \u2013cruzes na areia, e, no jornal foto de fam\u00edlia inteira seguida da mesma foto desfalcada de alguns membros, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que tais procedimentos n\u00e3o resolvem a contamina\u00e7\u00e3o viral, mas reconhecemos a\u00ed a cerim\u00f4nia de uma liturgia que prestigia a fraternidade naquilo que dela \u00e9 poss\u00edvel \u2013 comemora a singularidade de cada um sob o batismo de um Nome, comungamos o mesmo lugar Outro. Assim mantem-se o campo identificat\u00f3rio, assim podemos fazer parte do mesmo tecido com os outros n\u00f3s, mediados pelo Outro.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* Texto escrito para a <em>Intersec\u00e7\u00e3o<\/em>, encontro de trabalho entre a AEPM e o Cart\u00e9is Lacanianos em torno das elabora\u00e7\u00f5es do Semin\u00e1rio IX de Lacan: <em>A Identifica\u00e7\u00e3o<\/em>, realizado em Maio de 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Sobre o conceito de Nome fiquei com tr\u00eas, ali\u00e1s, quatro alternativas, decorrentes da leitura de textos do Melman, do Morali e do Thibierge. Melman no cap\u00edtulo \u201cA fidelidade ao nome pr\u00f3prio: sexualidade e morte\u201d no livro \u201cPara introduzir \u00e0 Psican\u00e1lise nos dias de hoje\u201d diz: \u201cLacan observa que o nome pr\u00f3prio n\u00e3o se traduz, um nome pr\u00f3prio \u00e9 o mesmo qualquer que seja a l\u00edngua, as diversas l\u00ednguas que poder\u00e3o me interpelar, que poder\u00e3o assinalar meu nome, em que eu poderei tentar me impor. Ser\u00e1 sempre o mesmo nome\u201d. E, mais adiante: \u201co nome pr\u00f3prio n\u00e3o \u00e9 um significante\u201d. Em outro texto \u201cA identidade e seus destinos\u201d, no mesmo livro, diz que o nome pr\u00f3prio \u00e9 um significante que se significa a si mesmo (um autista decidido, por voca\u00e7\u00e3o). Morali discutindo o de que se trata quando se fala de significante puro, parece atribu\u00ed-lo ao nome pr\u00f3prio: \u201cd&#8217;une certaine fa\u00e7on pourrait renvoyer au nom propre en tant qu&#8217;il nome quelque chose qui n&#8217;a aucun rapport avec quoi que ce soit d&#8217;autre: c\u00b4est sa fonction essentielle!\u201d (essa cita\u00e7\u00e3o foi retirada do texto em que ele discute o cap\u00edtulo VII do Semin\u00e1rio da Identifica\u00e7\u00e3o). Quanto ao Thibierge, no seu artigo \u201cRemarques sur le nom propre, l&#8217;objet et l&#8217;identit\u00e9\u201d, encontramos o seguinte: \u201cLe nom propre&#8230;il ne designe le sujet, ni m\u00eame quelque chose substantiel, il est un signifiant qui permet que le sujet soit repr\u00e9sent\u00e9 dans le langage en \u00e9tant lui-m\u00eame elid\u00e9\u201d&#8230; Portanto tr\u00eas abordagens, quatro na verdade: n\u00e3o significante, significante que significa a si mesmo, significante puro, significante (simples). E a\u00ed?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Pensei, muito garbosa, que tinha inventado esse termo. Mas encontrei um texto de Octave Mannoni que tem esse t\u00edtulo. Nele, se bem entendi, ele valoriza esse processo articulando-o \u00e0 refer\u00eancia a um deslocamento na dire\u00e7\u00e3o do objeto. Desentificar \u00e9, repito, se bem entendi, \u00e9 quase \u201cdesneurotizar\u201d, talvez melhor dizendo \u00e9 estar mais dispon\u00edvel ao desejo. O que tento colocar sob esse termo vai noutra dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que sabemos do tra\u00e7o un\u00e1rio abordado por Lacan no processo de identifica\u00e7\u00e3o? O tra\u00e7o foi recolhido em Freud, na refer\u00eancia \u00e0 segunda forma desse processo. Einzinger Zug j\u00e1 traz o un\u00e1rio que vai ser ampliado por Lacan e traz consequ\u00eancias. 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