{"id":331,"date":"2021-09-23T14:23:21","date_gmt":"2021-09-23T14:23:21","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=331"},"modified":"2022-08-21T23:23:54","modified_gmt":"2022-08-21T23:23:54","slug":"algumas-coisas-que-escrevi-durante-o-trabalho-com-o-seminario-a-identificacao-ou-um-fio-puxado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/09\/23\/algumas-coisas-que-escrevi-durante-o-trabalho-com-o-seminario-a-identificacao-ou-um-fio-puxado\/","title":{"rendered":"Algumas coisas que escrevi durante o trabalho com o Semin\u00e1rio &#8220;A Identifica\u00e7\u00e3o&#8221; ou Um fio puxado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Relendo o que havia escrito em minhas anota\u00e7\u00f5es durante a leitura do Semin\u00e1rio <em>A Identifica\u00e7\u00e3o<\/em>, deparei-me com o fato de que eu j\u00e1 havia colocado nelas tanto as minhas quest\u00f5es quanto as tentativas de elabor\u00e1-las. N\u00e3o consigo avan\u00e7ar al\u00e9m do que j\u00e1 pude ir at\u00e9 agora, e n\u00e3o tenho nenhuma vontade de repetir aqui o percurso que fiz para poder concentrar em alguns par\u00e1grafos elabora\u00e7\u00f5es de leitura de Freud e Lacan. De fato, s\u00f3 de pensar em fazer isso, veio-me \u00e0 lembran\u00e7a uma frase que encontrei em <em>Planol\u00e2ndia, Um Romance de muitas Dimens\u00f5es<\/em>, de Edwin A. Abbot:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<em>\u201cQue vergonha, como eu enquadro desvairadamente o meu discurso!\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o vou puxar um fio bem fininho de todo esse tecido. Quem sabe, terei assim a chance de desfaz\u00ea-lo. N\u00e3o importa o que se esteja tecendo, este \u201cse\u201d vem aqui dizer exatamente isso: a cada vez que um tecido \u00e9 feito, quer seja com pontos largos e linha grossa, ou com muitos buracos ou mesmo com uma estrutura quase s\u00f3lida, n\u00e3o importa se \u00e9 um texto que tece esse tecido, o que se tece \u00e9 esse \u201cse\u201d tece. \u00c9 ser a\u00ed, no sujeito indeterminado, no que vai de mim e do al\u00e9m de mim no texto tecido, no tecido tecido. (Olha! o significante que se repete n\u00e3o sendo ele mesmo, A diferente de A!)<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Um analista faz tric\u00f4<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizem que Melanie Klein tecia seu tric\u00f4 durante as sess\u00f5es de an\u00e1lise. Quando comecei a clinicar minha linha era kleiniana. Come\u00e7ar a ser tecida por uma linha lacaniana era algo muito diferente, algo estonteante para mim. Eu tive um sonho quando comecei a receber em minha an\u00e1lise os significantes que retornavam de minha fala. Sonhei que minha analista fazia tric\u00f4 e me dava alguns pontos que ela tirava da malha tecida. Um tric\u00f4 deveras especial. Poss\u00edvel apenas no sonho e na an\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pontos que eram os buracos circunscritos, retirados do tecido tricotado, retornando de um Outro \u2013 lugar \u2013 para minha escuta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrever \u00e9 expor-se, expor seus buracos na trama textual da tecitura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que tra\u00e7o \u00e9 esse que pode permitir ao analisante reconhecer-se no discurso que lhe vem do Outro? O que sustenta que isso que eu disse sem saber que estava dizendo, isso que n\u00e3o diz o que eu pensava que queria dizer, isso que diz o que eu pensava que n\u00e3o iria dizer, que tudo isso possa ser identificado, mesmo assim, como meu, reconhecer como verdade, aquilo que n\u00e3o faz sentido? Isso n\u00e3o \u00e9 simples e n\u00e3o \u00e9 algo que esteja sempre dado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu j\u00e1 estive, quanto a isso, diante de pacientes que, ao escutarem o que eu lhes repetia de sua fala, tiveram rea\u00e7\u00f5es bem singulares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um, n\u00e3o conseguia sair da sess\u00e3o e me implorava para deix\u00e1-lo corrigir o que ele tinha dito, pois n\u00e3o teria sido o que ele queria dizer; outra, ficou profundamente ofendida, porque eu teria escutado algo que n\u00e3o era verdade, pois ela n\u00e3o tivera a inten\u00e7\u00e3o de dizer, e que, al\u00e9m do mais, fazia com que ela a\u00ed fosse uma pessoa m\u00e1, o que n\u00e3o era verdade. Outra paciente ao escutar os significantes que se desprendiam de seu discurso e que eu lhe retornara, ficou muito assustada com aquele tipo de coisa; ela disse que parecia que eu fazia uma esp\u00e9cie de macumba em que eu lhe obrigava a dizer as palavras do diabo. Uma outra, ria muito, pois dizia achar engra\u00e7ados os chistes que eu fazia com o que ela dizia. Uma outra arregalou os olhos assustada com o que ela estava escutando, sem sequer reconhecer que eram palavras que ela havia falado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebi pelo menos uma coisa. Que, ent\u00e3o, a maneira como o sujeito recebe o que vem do Outro no seu discurso ajuda na determina\u00e7\u00e3o de uma suposi\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica. Mas, o que faz com que isso seja assim?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma neurose obsessiva o sujeito pode at\u00e9 reconhecer que foi dele que partiu o que foi dito, mas n\u00e3o consegue atribuir verdade ao dito. Ou foi um erro dele ou foi um erro meu. Mas fora das neuroses, o que foi dito \u00e9 atribu\u00eddo ao outro, um semelhante que, dependendo da transfer\u00eancia, pode ter boas ou m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, tem algo que permite ao sujeito ser no discurso do Outro, ex-sistir no Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma enorme diferen\u00e7a entre o significante e a palavra se abre aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<em>Parl\u00eatre<\/em>, a gente traduz por fala-ser, ser-falante, mas assim, perdemos a letra; tamb\u00e9m podemos traduzir por fale-ser, com todas as asson\u00e2ncias que nossa l\u00edngua nos permite. Ainda que n\u00e3o recuperemos a <em>lettre<\/em>, introduzimos o imperativo da fala ao ser e indicamos seu apagamento a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Neste momento, quando leio para voc\u00eas o que escrevi, devo suportar saber e ignorar que, o que eu lhes digo, ter\u00e1 sido do Outro que adveio e que o sentido ser\u00e1 dado pelo outro, por voc\u00eas, que me escutam. Eu n\u00e3o sou dona das minhas palavras, dessas mesmas que, entretanto, sustento diante de voc\u00eas. Eu n\u00e3o sei o que digo, porque o sentido do que digo \u00e9 aquele que cada um dar\u00e1 ao que escutar de minha fala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, como estamos sob um mesmo c\u00f3digo, \u00e9 poss\u00edvel que minhas palavras fa\u00e7am um pouco de sentido para voc\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um significante que adv\u00e9m num ato falho, numa an\u00e1lise, n\u00e3o faz sentido, a n\u00e3o ser no <em>a posteriori<\/em>. Ele abre o sentido, abre um buraco, ele faz enigma, um semisentido, e ele puxa um fio que pode trazer, por associa\u00e7\u00e3o, toda uma nova cadeia de significantes. \u00c0s vezes perdemos o ch\u00e3o, o equil\u00edbrio, com o advento de um significante. Perdemos o eixo. Que eixo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O advento do sujeito do inconsciente a partir do negativo, do n\u00e3o, do vazio que o significante circunscreve<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan j\u00e1 o havia trazido com o pote de mostarda, mas aqui ele o amplia, atrav\u00e9s desse ap\u00f3logo em tr\u00eas tempos de Sexta-feira na ilha de Robinson. Primeiramente a marca de passo, o tra\u00e7o da passagem, que \u00e9 tamb\u00e9m escutado como marca, tra\u00e7o do n\u00e3o, trace de pas. Ao apagar o tra\u00e7o do passo, o signo da passagem, o sujeito vem a se constituir a\u00ed, Pas de trace, certeza de um sujeito. Mas \u00e9 ao circunscrever o lugar onde o tra\u00e7o do passo estivera que o significante adv\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Pas de trace, o tra\u00e7o do passo apagado que o significante cerne, que \u00e9 sempre esse Um sa\u00eddo do todo, sa\u00eddo do nada. A funda\u00e7\u00e3o do um que constitui esse tra\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A marca do sujeito do inconsciente \u00e9 identific\u00e1vel no <em>ne<\/em>, o significante de sua divis\u00e3o. Mas \u00e9 o <em>pas<\/em>, o n\u00e3o, o passo pagado que mostra o furo no real constituindo o sujeito como um efeito do significante. O lugar onde n\u00e3o h\u00e1 nenhum tra\u00e7o, o menos um. <em>\u201ctra\u00e7o un\u00e1rio, entrada no real do significante inscrito\u201d<\/em> (p. 168).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u201c<em>o tra\u00e7o un\u00e1rio apaga tudo da coisa. Onde a coisa era, estava, por meio do Um, eu serei, estarei\u201d<\/em> (p. 224).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto apagamento do tra\u00e7o na emerg\u00eancia de um sujeito, n\u00e3o se trata do um do \u00fanico, mas do Um do un\u00e1rio. \u00c9 seu batimento na repeti\u00e7\u00e3o que o diferencia no mesmo ato em que o repete. <em>\u201cCercar o rastro apagado para voltar ao lugar de passagem\u201d<\/em>. <em>Pas de trace<\/em> que restar\u00e1 como marca do tra\u00e7o em todo significante, de ser aquilo que o outro n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0\u201cnada da fun\u00e7\u00e3o significante \u00e9 propriamente pens\u00e1vel, sem partir disso que formulo: o Um como tal \u00e9 o Outro\u201d<\/em> (p. 47).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sujeito do inconsciente n\u00e3o ser\u00e1, ent\u00e3o, esse sujeito que, ao apagar o tra\u00e7o un\u00e1rio, se constituiu e que advir\u00e1 na repeti\u00e7\u00e3o do significante? No entre dois significantes? Ao marcar o lugar onde estivera o tra\u00e7o, com os significantes, se apaga ele mesmo no significante, fazendo assim, dos significantes, a possibilidade de retorno ao lugar de seu apagamento; o sujeito ter\u00e1 assim seu lugar nesse vazio cernido pelo significante. Vazio fundamental para que o significante inscrito em sua pura diferen\u00e7a represente o sujeito. Esse sujeito a\u00ed, que ex-istindo, n\u00e3o encontrar\u00e1 nada no campo dos significantes, no Outro, que diga o que ele \u00e9, que o nomeie. O significante do que ele teria sido, falta ao Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, para que o sujeito aceda \u00e0 linguagem e, assim, ao seu lugar como sujeito, seu destino, h\u00e1 uma dire\u00e7\u00e3o a seguir, que passa inclusive pela terceira identifica\u00e7\u00e3o como aquela que Freud diz que se faz ao desejo do Outro. \u00c9 mais uma longa teoriza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos significantes cernidos por Lacan nesse semin\u00e1rio t\u00e3o topol\u00f3gico. Ela tece a rela\u00e7\u00e3o entre desejo e demanda, a quest\u00e3o posta ao sujeito, a fantasia como o que vem situar o desejo, pelo significante falo, vindo marcar uma falta no Outro, pelo Nome-do Pai metaforizando o desejo da m\u00e3e etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cClaro, o sujeito, ele pr\u00f3prio, no seu \u00faltimo termo \u00e9 destinado \u00e0 Coisa, mas sua lei, mais exatamente seu destino, \u00e9 esse caminho que ele s\u00f3 pode descrever atrav\u00e9s da passagem pelo Outro, enquanto o Outro \u00e9 marcado pelo significante. E \u00e9 no aqu\u00e9m dessa passagem necess\u00e1ria para o significante que se constituem como tais o desejo e seu objeto\u201d<\/em> (p. 224).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Efeito metaf\u00f3rico, mais claramente, como significante que responderia ao que o Outro quer. \u00c9 o Nome-do-Pai que vir\u00e1 substituir essa inc\u00f3gnita, sustentando a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Ent\u00e3o, desejo tomado na demanda do Outro e significado ao sujeito. Nesse vazio, nesse x, nesse buraco interrogativo sobre o que o Outro quer, vem inscrever-se o falo. Significante da falta no Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao sujeito dividido, entre enunciado e enuncia\u00e7\u00e3o, restar\u00e1, por um lado, estar identificado com o objeto, com o resto dessa opera\u00e7\u00e3o significante, ou seja, com o <em>a<\/em> do matema da fantasia, por outro lado, identificar-se com o significante da demanda do Outro, com a falta no Outro, e apagando-se como sujeito, advir na evanesc\u00eancia \u00e0 passagem desse significante que o representa para outro significante<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou puxar o fio s\u00f3 mais um pouco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Fixar seu desejo em uma fantasia fundamental<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estar identificado com o resto dessa opera\u00e7\u00e3o do significante, ou seja, identificar-se com o objeto da demanda do Outro, apagando-se como sujeito. O sujeito do desejo se prende na fantasia e se faz repetir no sintoma. Quando a fantasia \u00e9 abalada, a gente vacila em nossa certeza de ser. N\u00e3o estamos propriamente amarrados a\u00ed. \u00c9 uma fixa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para o sujeito do desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para nos fazer ver a rela\u00e7\u00e3o entre desejo e demanda, Lacan introduz o toro. Eu pensei no toro como um bambol\u00ea. Estamos, somos no buraco central fazendo o bambol\u00ea girar. Quando o movimento se interrompe, somos n\u00f3s que ca\u00edmos. Eixo estranho&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sujeito barrado, dividido pelo significante pun\u00e7\u00e3o de a. Pun\u00e7\u00e3o, corte, encontro imposs\u00edvel, grafado por Lacan na pun\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, do vel \u201ce\u201d (\u02c4) reuni\u00e3o, com o vel \u201cou\u201d (\u02c5), exclus\u00e3o. Lacan l\u00ea o matema da fantasia assim: sujeito barrado corte de a. O sujeito est\u00e1 na efemeridade de sua passagem quando um significante emerge do inconsciente, (aquele que n\u00e3o diz o que ele \u00e9, mas o representa para outro significante). Cada encontro faltoso, ou, dizendo de outra forma, cada vez que o real da falta lhe esbarra, lhe d\u00e1 um encontr\u00e3o, a fantasia balan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escutar o que se desprende da cadeia significante, o que vem do Outro, e admiti-lo. N\u00e3o se trata propriamente de admiss\u00e3o, mas de submetimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A an\u00e1lise permite alguns abalos, alguns encontr\u00f5es. N\u00e3o se trata exatamente de uma passagem, nem mesmo de um percurso. \u00c9 uma ida sem volta, para onde n\u00e3o se sabe. O ato da enuncia\u00e7\u00e3o abala o eixo que nos sustenta. A gente sai ziguezagueando da sess\u00e3o de an\u00e1lise. E, c\u00e1 entre n\u00f3s, podemos dizer, \u00e9 meio bambo que acaba sendo nosso estilo de caminhar. Seria isso o atravessamento da fantasia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqueles que est\u00e3o comigo h\u00e1 muitos anos que me desculpem escutar essa frase mais uma vez. \u00c9 um chicletinho que ainda tem gosto para mim. Lacan disse que \u00e9 preciso ser fissurado pela psican\u00e1lise. Eu gosto da tradu\u00e7\u00e3o. Poderia ser traduzido por mordido. Mas a fissura me permite escutar aqui tanto a carne cortada quanto o desejo de estar de novo e de novo a\u00ed. \u00c9 estar s\u00f3, com o desejo. Nem ang\u00fastia, para defender-se contra o desejo. \u00c9 estar \u00e0 merc\u00ea do Outro, \u00e0 deriva, talvez. Quando a gente est\u00e1 \u00e0 deriva n\u00e3o sabe para onde est\u00e1 indo; entretanto, estamos em nosso barco, ao sabor das correntes. Acredito que essas correntes est\u00e3o no fluxo associativo do discurso, as cadeias significantes que se movem no inconsciente enquanto a gente pensa que pensa no que fala. Assim, estamos sustentados e sustentando alguma coisa. Subsumimos no desejo. Sim, o desejo \u00e9 para os desprevenidos. S\u00f3 a transfer\u00eancia nos mant\u00e9m a\u00ed dentro. Sem lado de fora. Na transfer\u00eancia, como disse o Ant\u00f4nio Carlos, s\u00f3 tem dentro. S\u00f3 a psican\u00e1lise nos permite essa fissura, nos permite acreditar no inconsciente e nos surpreendermos com ele a cada vez, como Freud nos disse que lhe acontecia. Andar no fio&#8230; da navalha, com o real na sola dos p\u00e9s.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Texto escrito para a <em>Intersec\u00e7\u00e3o<\/em>, encontro de trabalho entre a AEPM\u00a0 e o Cart\u00e9is Lacanianos em torno das elabora\u00e7\u00f5es do Semin\u00e1rio IX de Lacan: <em>A Identifica\u00e7\u00e3o<\/em>, realizado em Maio de 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0 \u201co que distingue o significante \u00e9 ser o que os outros n\u00e3o s\u00e3o; o que, no significante, implica essa fun\u00e7\u00e3o de unidade \u00e9 justamente ser somente diferen\u00e7a. \u00c9 enquanto pura diferen\u00e7a que a unidade, em sua fun\u00e7\u00e3o significante, se estrutura, se constitui. Isto n\u00e3o \u00e9 um tra\u00e7o \u00fanico, de alguma forma ele constitui uma abstra\u00e7\u00e3o unilateral que diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o, por exemplo, sincr\u00f4nica do significante. [&#8230;] Nada da fun\u00e7\u00e3o significante \u00e9 propriamente pens\u00e1vel, sem partir disso que formulo: O Um como tal \u00e9 o Outro. \u00c9 a partir disso, dessa estrutura fundamental do um como diferen\u00e7a, que podemos ver aparecer essa origem, da qual se pode ver o significante se constituir, se posso dizer, \u00e9 no Outro que o A, do A \u00e9 A, o A mai\u00fasculo, como se diz, (o grande A) a grande palavra, est\u00e1 dito (p. 47).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201c\u00c9 porque h\u00e1 um sujeito que se marca a si mesmo ou n\u00e3o com o tra\u00e7o un\u00e1rio, que \u00e9 um ou menos um, que pode haver um menos a, que o sujeito pode identificar-se com a bolinha do neto de Freud e especialmente na conota\u00e7\u00e3o de sua falta, <em>n\u00e3o h\u00e1<\/em> [&#8230;] Obviamente, h\u00e1 um vazio e \u00e9 da\u00ed que vai partir o sujeito\u201d (p. 170).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relendo o que havia escrito em minhas anota\u00e7\u00f5es durante a leitura do Semin\u00e1rio A Identifica\u00e7\u00e3o, deparei-me com o fato de que eu j\u00e1 havia colocado nelas tanto as minhas quest\u00f5es quanto as tentativas de elabor\u00e1-las. 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