{"id":338,"date":"2021-09-27T12:22:27","date_gmt":"2021-09-27T12:22:27","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=338"},"modified":"2022-08-21T23:31:18","modified_gmt":"2022-08-21T23:31:18","slug":"entre-a-vida-vazia-e-o-objeto-indescritivel-a-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/09\/27\/entre-a-vida-vazia-e-o-objeto-indescritivel-a-poesia\/","title":{"rendered":"Entre a vida vazia e o objeto indescrit\u00edvel, a poesia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Para abordar \u201ca \u00e9tica da psican\u00e1lise\u201d, Lacan nos traz o semin\u00e1rio de 1959-1960, advertindo-nos que o que subjaz a esse tema tem o prop\u00f3sito de nos mostrar o que a experi\u00eancia da psican\u00e1lise desde Freud inaugura como novo e que se refere ao <em>\u201cuniverso da falta\u201d <\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan faz um longo percurso pela arte sob v\u00e1rios aspectos &#8211; embora sempre destacando o que nela h\u00e1 de um contorno do vazio &#8211; do qual recorto a poesia medieval denominada de <em>amor cort\u00eas<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan n\u00e3o est\u00e1 interessado na arte em si, mas em que a experi\u00eancia art\u00edstica, em particular a da poesia, nos mostrar\u00e1 dessas <em>\u201ctaciturnas n\u00fapcias da vida vazia com o objeto indescrit\u00edvel\u201d <\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, como ele dir\u00e1 mais tarde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, inclu\u00edmos aqui que o tempo da psican\u00e1lise n\u00e3o lida com uma falta <em>a priori<\/em>, mas sim com o que vem a se constituir como uma falta onde nada falta. Seres da linguagem que somos, criacionistas, caminhamos em um tempo do <em>s\u00f3-depois<\/em>, um tempo em que o que teria sido s\u00f3 se constitui no aqui e agora, no presente, n\u00e3o se trata de uma heran\u00e7a at\u00e1vica. \u00c9 assim com o <em>pai da horda<\/em>, com o objeto <em>a<\/em> e com o que se d\u00e1 em uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A lei moral \u00e9 desde Freud a interdi\u00e7\u00e3o do incesto, uma lei que n\u00e3o est\u00e1 escrita, n\u00e3o est\u00e1 colocada em nenhuma palavra, mas que \u00e9 a partir dela, da interdi\u00e7\u00e3o de um bem proibido, o objeto do incesto &#8211; e n\u00e3o h\u00e1 outro bem, n\u00e3o h\u00e1 o Bem Supremo &#8211; que o sujeito acede \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Bem Supremo, Lacan nos diz que \u00e9 <em>das Ding<\/em>, n\u00e3o \u00e9 um significante, nem \u00e9 um objeto, pois <em>das Ding<\/em>, a Coisa, n\u00e3o \u00e9 <em>die Sache<\/em>, a coisa <em>\u201cgovernada pela linguagem\u201d<\/em>; por outro Lado, em <em>das Ding<\/em> h\u00e1 o <em>\u201cverdadeiro segredo\u201d<\/em>, pois o princ\u00edpio de realidade est\u00e1 \u201c<em>sempre em fracasso e n\u00e3o chegando a valorizar-se sen\u00e3o de forma marginal e por uma esp\u00e9cie de press\u00e3o, [&#8230;] die Not des Lebens, alguma coisa que quer, as necessidades vitais\u201d<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 <em>sem das Ding<\/em>, \u201co verdadeiro segredo\u201d, que chegamos a esse estado de urg\u00eancia da vida, ou de desejo, que Lacan nos diz que interv\u00e9m no n\u00edvel do processo secund\u00e1rio. <em>Das Ding <\/em>\u00e9 aquilo a que n\u00e3o se tem acesso, aquilo do que se \u00e9 privado e, ao mesmo tempo, \u00e9 o que me faz presente no mundo na minha singularidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como dar conta da \u00e9tica da psican\u00e1lise sem que nos embrenhemos por essa a\u00e7\u00e3o que vai ao <em>kern <\/em>do ser? Ent\u00e3o, \u00e9 do div\u00e3 que nasce essa possiblidade, n\u00e3o de alcan\u00e7ar a verdade, mas de que ela seja articulada e marque o sujeito com esse encontro faltoso, j\u00e1 que a verdade, qual a prosopopeia, fala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma quest\u00e3o que apareceu durante a leitura do Semin\u00e1rio <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>, conduzida por Alayde Martins, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de <em>das Ding<\/em> com o que se coloca no centro do amor cort\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse semin\u00e1rio, o que Lacan aborda sobre o <em>amor cort\u00eas<\/em> aparta-se de qualquer que seja o vi\u00e9s liter\u00e1rio ou hist\u00f3rico da poesia trovadoresca; ele nos diz que <em>\u201co que a cria\u00e7\u00e3o da poesia cort\u00eas tende a fazer deve ser situado no lugar da Coisa [&#8230;]. A cria\u00e7\u00e3o da poesia consiste em colocar, segundo o modo da sublima\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria \u00e0 arte, um objeto que eu chamaria de enlouquecedor, um parceiro desumano\u201d<\/em> <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Assim, a Dama como esse ser <em>\u201cdesumano\u201d<\/em>, \u00e9 elevada a um lugar, ao mesmo tempo, cruel e sem humanidade. E \u00e9 a partir desse <em>\u201cartif\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o do amor cort\u00eas\u201d<\/em><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> que Lacan vai nos mostrar que o lugar da Dama se aproxima do lugar de <em>das Ding<\/em>, a Coisa, disso que n\u00e3o \u00e9 um significante, que \u00e9 inapreens\u00edvel, que s\u00f3 pode ser circundado, bordejado. <em>Das Ding<\/em>, a Coisa \u00e9 o inconcili\u00e1vel, o inomin\u00e1vel, o que nos aproxima do mortal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se tanto Rougemont<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> como Agamben<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> abordam a poesia do amor cort\u00eas na inten\u00e7\u00e3o de circunscrever, respectivamente, uma origem dessa <em>forma de amor<\/em> ou dessa <em>forma po\u00e9tica,<\/em> Lacan vai nos levar ao <em>amor cort\u00eas<\/em> como aquilo que <em>\u201cdeixa contudo rastros num inconsciente [&#8230;], num inconsciente tradicional, veiculado por uma literatura, por todo um conjunto de imagens, que \u00e9 aquele no qual vivemos nossas rela\u00e7\u00f5es com a mulher\u201d<\/em><a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Assim, sem procurar a origem nem o porqu\u00ea, Lacan diz que, <em>\u201cde maneira deliberada, esse c\u00f3digo moral institui, no centro de uma certa sociedade, um objeto que \u00e9, no entanto, deveras um objeto natural\u201d<\/em> e esse <em>\u201cobjeto aqui \u00e9 elevado \u00e0 dignidade da Coisa, na medida em que esse novo objeto \u00e9 promovido \u00e0 fun\u00e7\u00e3o da Coisa <\/em>\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. E, elevar a Dama \u00e0 dignidade da Coisa leva-nos a perguntar, \u201cmas que Coisa \u00e9 essa?\u201d e, por outro lado, \u201cque \u00e9 elevar um objeto \u00e0 dignidade de?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan vai buscar em Freud o conceito de <em>das Ding<\/em>, mostrando-nos que, sem a sua leitura, esse conceito n\u00e3o teria vindo \u00e0 luz como um ponto capital da originalidade freudiana, quando este diz que <em>\u201co objeto primeiro e imediato da prova da realidade n\u00e3o \u00e9 o de encontrar na percep\u00e7\u00e3o real um objeto que corresponda ao apresentado, mas reencontr\u00e1-lo, convencer-se de que ele ainda est\u00e1 presente\u201d <\/em><a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. A Coisa, essa inquietante estranheza, \u00e9 aquilo ao qual n\u00e3o tenho acesso, aquilo do que sou privado, mas que se inscreve enquanto <em>\u201co primeiro exterior, \u00e9 em torno do que se orienta todo o encaminhamento do sujeito\u201d<\/em>. A temporalidade da psican\u00e1lise inscreve um lugar que nunca esteve l\u00e1 e somente <em>a posteriori<\/em> ele \u00e9, como tendo estado ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, a poesia trovadoresca circunscreve um objeto, a Dama, que \u00e9 elevada, isto \u00e9, que \u00e9 al\u00e7ada \u00e0 dignidade da Coisa, <em>das Ding<\/em>. Lacan diz que, quando fala da Coisa, fala de alguma coisa de maneira operacional <em>\u201cpelo lugar que ela ocupa numa certa etapa l\u00f3gica do nosso pensamento e de nossa conceitualiza\u00e7\u00e3o, por sua fun\u00e7\u00e3o naquilo com que lidamos\u201d<\/em><a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor cort\u00eas institui uma Dama que tem sempre as mesmas caracter\u00edsticas, \u00e9 despersonalizada, <em>\u201cde tal forma que os autores puderam notar que todos parecem se dirigir \u00e0 mesma pessoa\u201d<\/em><a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>, o objeto feminino \u00e9 esvaziado de toda subst\u00e2ncia real. Ent\u00e3o a quem ou melhor ao que se dirige o poeta? Certamente a um lugar. Das Ding est\u00e1 no \u00e2mago da tramoia humana, da trama, da tessitura do sujeito. A Coisa \u00e9 o registro que faz o sujeito hesitar diante do momento de prestar falso testemunho, \u00e9 o lugar do desejo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor cort\u00eas, nessa perspectiva, n\u00e3o se resume ao nascimento de uma nova forma de amor, ou mesmo de uma nova possiblidade po\u00e9tica a partir do lugar assumido pelo poeta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra cantada, mas o que Lacan vem nos mostrar \u00e9 que a poesia trovadoresca foi capaz de mostrar que o amor \u00e9 letra morta em canto vivo, em carne viva, que circunscreve o lugar vazio ocupado pela imagem do objeto inalcan\u00e7\u00e1vel. E n\u00e3o seria nessa transgress\u00e3o, nesse jogo de ir e vir do novelo, que o trovador articula em palavra o amor que queima a partir do desejo, desse lugar vazio? N\u00e3o seria esse encontro faltoso &#8211; que dessubstancializa a mulher e, ao mesmo tempo, a instaura nesse lugar po\u00e9tico de objeto inapreens\u00edvel, supervalorizado e desumano &#8211; o que Lacan chama de taciturnas n\u00fapcias entre a vida vazia e o objeto indescrit\u00edvel?<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Quest\u00f5es advindas da leitura do Semin\u00e1rio VII: <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>, conduzida por Alayde Martins em 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, Jacques. Semin\u00e1rio VII\u00a0: <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em> (1959-1960). Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 1988, p. 10.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LACAN, Jacques. Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein (1965). In\u00a0: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro\u00a0: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 205.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, Jacques. Semin\u00e1rio VII\u00a0: <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em> (1959-1960). Rio de Janeiro\u00a0: Jorge Zahar Editor, 1988, p. 61-62.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 187.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <em>Ibidem, <\/em>p.187.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> ROUGEMONT, Denis. <em>Hist\u00f3ria do amor no Ocidente<\/em>. S\u00e3o Paulo: Ediouro, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> AGAMBEN, Giorgio. <em>A linguagem e a morte<\/em>. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LACAN, Jacques. Semin\u00e1rio VII\u00a0: <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em> (1959-1960). Rio de Janeiro\u00a0: Jorge Zahar Editor, 1988, p. 141.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> <em>Ibidem, <\/em>p. 141.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> <em>Ibidem, <\/em>p. 69.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a><em> Ibidem, <\/em>p. 171.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> <em>Ibidem, <\/em>p. 185.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para abordar \u201ca \u00e9tica da psican\u00e1lise\u201d, Lacan nos traz o semin\u00e1rio de 1959-1960, advertindo-nos que o que subjaz a esse tema tem o prop\u00f3sito de nos mostrar o que a experi\u00eancia da psican\u00e1lise desde Freud inaugura como novo e que se refere ao \u201cuniverso da falta\u201d [1]. 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