{"id":346,"date":"2021-09-27T11:51:01","date_gmt":"2021-09-27T11:51:01","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=346"},"modified":"2022-08-21T23:25:07","modified_gmt":"2022-08-21T23:25:07","slug":"um-ponto-do-texto-a-coisa-freudiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/09\/27\/um-ponto-do-texto-a-coisa-freudiana\/","title":{"rendered":"Um ponto do texto \u201cA Coisa Freudiana\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O texto <em>A Coisa freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psican\u00e1lise,<\/em> de Lacan, me convocou a falar, ou melhor, a escrever sobre a Verdade. Mas como falar de algo que n\u00e3o pode ser enunciado? Como falar de algo que n\u00e3o se busca e alcan\u00e7a, mas que simplesmente esbarra em n\u00f3s? Ent\u00e3o, estava quase desistindo quando escutei no Semin\u00e1rio de Alayde o seguinte: a Verdade \u00e9 instaurada pelo significante, mas n\u00e3o se vai encontr\u00e1-la no significante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando escutei isso, me animei a escrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando nos deparamos com um significante que n\u00e3o estava l\u00e1 antes, um significante novo e \u201cpensamos\u201d que ele diria o que somos, diria a nossa Verdade, n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a\u00ed que chegamos. Ele at\u00e9 diz algo de n\u00f3s, mas n\u00e3o se chega a um sentido \u00faltimo que defina nossa Verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, Verdade e sentido n\u00e3o s\u00e3o termos conjugados em comum. \u00c9 claro que a cada vez que se fala, algo da Verdade \u00e9 articulado em n\u00edvel do sujeito. Mas n\u00e3o \u00e9 ele que fala a Verdade. Lacan diz: <em>\u201cEu, a verdade, falo\u201d<\/em> (p. 410). Quem fala \u00e9 a pr\u00f3pria Verdade. Mas \u00e9 sempre bom se perguntar quando algo da Verdade surge: quem fala? Lacan responde: <em>\u201cisso fala, e sem d\u00favida o faz onde menos seria de se esperar, ali onde isso sofre\u201d<\/em> (p. 414).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz Lacan que <em>\u201ca descoberta de Freud questiona a verdade, e n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que n\u00e3o seja pessoalmente afetado pela verdade. <\/em>[&#8230;] [<em>Isso<\/em>]<em> est\u00e1 inscrito no pr\u00f3prio cerne da pr\u00e1tica anal\u00edtica, j\u00e1 que tamb\u00e9m esta sempre refaz a descoberta do poder da Verdade em n\u00f3s e at\u00e9 em nossa carne\u201d <\/em>(p.406). Essa verdade, que \u00e9 ela? \u2013 pergunta-se Lacan. E por que ela est\u00e1 e sempre estar\u00e1 inacess\u00edvel a n\u00f3s?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sujeito se inscreve no Outro a partir e com uma perda. Ele entra na cadeia significante, mas o significante que diria dele (S1) est\u00e1 perdido. S\u00f3 lhe resta se inscrever em (S2) que \u00e9 o que pode ser dito dele. Mas, por mais que ele tente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel apreender o que ele \u00e9, pois o desejo do Outro, onde ele se inscreveu, que poderia situ\u00e1-lo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua Verdade, \u00e9 um x, \u00e9 para sempre uma inc\u00f3gnita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Posso ent\u00e3o dizer que o mais pr\u00f3ximo da Verdade que se pode chegar \u00e9 \u00e0 \u201cconstata\u00e7\u00e3o\u201d de que somos um \u201cser\u201d em quem falta algo, que somos castrados de sa\u00edda por entrar na linguagem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Indo mais um pouco: por mais que eu passe anos e anos me deslocando de significante em significante, sempre algo vai escapar ao entendimento porque n\u00e3o h\u00e1 o significante que permitiria fechar o c\u00edrculo. Assim, a Verdade fala, mas n\u00e3o h\u00e1 possibilidade dela dizer o que sou \u2013 ela s\u00f3 vem num semi-dito e em forma de enigma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A forma em que a Verdade fala \u00e9 a de um enigma. Mas coisa interessante: resolver o enigma n\u00e3o faz a gente alcan\u00e7ar a Verdade. \u00c9dipo dissolveu o enigma com o tra\u00e7o marcado pelas gera\u00e7\u00f5es \u2013 o dos p\u00e9s. Mas isso n\u00e3o o fez chegar \u00e0 Verdade. N\u00e3o tem jeito: jamais poderei dizer a Verdade do que sou \u2013 n\u00e3o h\u00e1 significante para isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sujeito se perde e se aliena no significante, mas o que ele n\u00e3o sabe e nunca vai saber \u00e9 o ponto de sua perda. Mas quando voc\u00ea fala algo num trope\u00e7o e n\u00e3o d\u00e1 mais para seguir adiante do mesmo jeito, sabe que algo relacionado \u00e0 Verdade esbarrou em voc\u00ea.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*Texto escrito a prop\u00f3sito da jornada do dispositivo <em>Trabalho de Estudo: Fundamentos da Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica<\/em>, realizada na AEPM em junho de 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto A Coisa freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psican\u00e1lise, de Lacan, me convocou a falar, ou melhor, a escrever sobre a Verdade. Mas como falar de algo que n\u00e3o pode ser enunciado? Como falar de algo que n\u00e3o se busca e alcan\u00e7a, mas que simplesmente esbarra em n\u00f3s? 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