{"id":381,"date":"2021-12-09T12:24:16","date_gmt":"2021-12-09T12:24:16","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=381"},"modified":"2022-08-21T23:30:27","modified_gmt":"2022-08-21T23:30:27","slug":"a-visada-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/09\/a-visada-etica\/","title":{"rendered":"A visada \u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 uma psican\u00e1lise? \u00c9 o tratamento que se espera de um psicanalista. Essa tautologia nos deixa meio \u00e0 deriva. E se tentarmos avan\u00e7ar fazendo a pergunta desta maneira: o que o psicanalista espera de uma psican\u00e1lise, o que \u00e9 que ele visa? O bem, a felicidade do sujeito? Sabemos que n\u00e3o pode ser assim. H\u00e1 uma \u00e9tica em jogo, mas esta n\u00e3o deve ser a do bem, aquela da perspectiva aristot\u00e9lica, j\u00e1 que a mesma n\u00e3o corresponde \u00e0quilo que anima uma psican\u00e1lise, tal como Lacan a concebe. E o que \u00e9 que anima uma psican\u00e1lise? Uma psican\u00e1lise n\u00e3o pode se dar fora de uma visada \u00e9tica e, para Lacan, a \u00e9tica da psican\u00e1lise \u00e9 a \u00e9tica do desejo. Falar assim parece f\u00e1cil, mas o que isso quer dizer? Lacan dedicou o seu ensino e praticamente uma vida inteira tentando dar conta dessa quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Semin\u00e1rio VII, Lacan nos confronta com a quest\u00e3o de saber o que a psican\u00e1lise permite formular em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 origem da moral. De onde viria a famosa \u201cconsci\u00eancia moral\u201d, essa inst\u00e2ncia que permite a conviv\u00eancia entre os homens e a instaura\u00e7\u00e3o das leis que permitem tal conviv\u00eancia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>Totem e Tabu<\/em>, Freud nos apresenta, segundo Lacan, um mito, o do pai primevo, que dar\u00e1 origem \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o, aquele de quem podemos dizer <em>Tu es celui que tu es <\/em>(Tu \u00e9s aquele que \u00e9s), com suas muitas reverbera\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, inclusive, e por que n\u00e3o, esta: <em>Tu es celui qu\u2019es tu\u00e9<\/em> (Tu \u00e9s aquele que \u00e9 morto), sem esquecer que Lacan chama a nossa aten\u00e7\u00e3o para o fato de que o verbo <em>tuer<\/em>, que vem do latim <em>tutare<\/em>, quer dizer<em> conservar<\/em>, de onde vem tamb\u00e9m a palavra <em>tuteur <\/em>(tutor, em portugu\u00eas ) aquele que vela por, que cobre com sua prote\u00e7\u00e3o, que defende&#8230; Pois bem, por que foi necess\u00e1rio que os filhos tenham avan\u00e7ado a morte do pai, e, na sequ\u00eancia, tenham se interditado a si pr\u00f3prios as mesmas mulheres que queriam lhe arrebatar? Para mostrar que ele \u00e9 \u201c<em>imat\u00e1vel<\/em>\u201d. Qual a import\u00e2ncia disso para a quest\u00e3o \u00e9tica? A consci\u00eancia moral \u00e9 oriunda dessa no\u00e7\u00e3o m\u00edtica, segundo Lacan, dessa <em>\u201ccategoriza\u00e7\u00e3o de uma forma do imposs\u00edvel\u201d<\/em>: a eterniza\u00e7\u00e3o de um \u00fanico pai na origem, um pai que foi morto para ser conservado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De alguma maneira, o assassinato original do pai vai produzir um recalque do desejo e a lei n\u00e3o ser\u00e1 mais simplesmente esse algo no qual toda a comunidade dos homens est\u00e1 implicada, ela assume uma perspectiva real, sob a forma de um n\u00facleo permanente de consci\u00eancia moral, trata-se de algo que pode tomar as formas mais diversas, mais estranhas, que chamamos supereu. <em>\u201cEle \u00e9 ao mesmo tempo a lei e sua destrui\u00e7\u00e3o, sua nega\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 essencialmente a pr\u00f3pria fala, o comando da lei, na medida em que dessa lei j\u00e1 n\u00e3o resta mais do que sua raiz, a lei se reduz inteirinha a alguma coisa que n\u00e3o se pode nem mesmo expressar, ela se apresentar\u00e1 como um \u2018tu tens que\u2019, que \u00e9 simplesmente uma fala privada de todos os sentidos. O supereu \u00e9, portanto, um imperativo sem sentido\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan nos diz que a experi\u00eancia moral que est\u00e1 em quest\u00e3o na an\u00e1lise se resumiria no imperativo <em>Wo Es war<\/em>, <em>Soll Ich werden<\/em>, onde isso era, eu deve advir.\u00a0 Ent\u00e3o temos esse eu que deve advir l\u00e1 onde isso era. O que tudo isso tem a ver com a \u00e9tica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma coisa que \u00e9 enigm\u00e1tica e fascinante em uma an\u00e1lise \u00e9 a presen\u00e7a de paradoxos que, ao mesmo tempo em que parecem entravar o andamento da an\u00e1lise, possibilitam o seu avan\u00e7o. Poder\u00edamos dizer que eles s\u00e3o condi\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise e que dar-lhes lugar e mant\u00ea-los \u00e9 permitir o exerc\u00edcio da psican\u00e1lise. Travar-avan\u00e7ar, eis em si um paradoxo. Como suportar que n\u00e3o h\u00e1 a resposta certa, mas respostas poss\u00edveis e at\u00e9, muitas vezes, moment\u00e2neas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos perceber toda a dificuldade que est\u00e1 em jogo na quest\u00e3o \u00e9tica do desejo. Para ambos, paciente e analista, a dificuldade se apresenta. Para o primeiro, como advir l\u00e1 onde isso era e onde dever\u00e1 confrontar-se com os imperativos muitas vezes estranhos, paradoxais e at\u00e9 cru\u00e9is do supereu? Para o analista, como n\u00e3o ceder aos inevit\u00e1veis ideais que n\u00e3o deixar\u00e3o de comparecer \u00e0 medida que a an\u00e1lise for caminhando?<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Texto escrito a partir do trabalho com o Semin\u00e1rio VII, <em>A \u00e9tica da Psican\u00e1lise<\/em>, de Jacques Lacan, realizado na AEPM em 2020.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 uma psican\u00e1lise? \u00c9 o tratamento que se espera de um psicanalista. Essa tautologia nos deixa meio \u00e0 deriva. E se tentarmos avan\u00e7ar fazendo a pergunta desta maneira: o que o psicanalista espera de uma psican\u00e1lise, o que \u00e9 que ele visa? O bem, a felicidade do sujeito? 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