{"id":385,"date":"2021-12-14T11:51:31","date_gmt":"2021-12-14T11:51:31","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=385"},"modified":"2022-08-21T23:26:56","modified_gmt":"2022-08-21T23:26:56","slug":"algumas-interrogacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/14\/algumas-interrogacoes\/","title":{"rendered":"Algumas interroga\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Tem algo que parece ficar claro de sa\u00edda: o gozo seria um mal, fugimos dele, seja em nome do prazer, seja pelo bem, pelo narcisismo, em nome do outro e em \u00faltima inst\u00e2ncia de mim, ele despeda\u00e7a o corpo do outro, impede que eu o ame. Qui\u00e7\u00e1 fosse t\u00e3o simples. O gozo do <em>parl\u00eatre<\/em> \u00e9 um paradoxo, sua rela\u00e7\u00e3o com a lei e com o desejo \u00e9 um caminho enigm\u00e1tico. E, de sa\u00edda, o amor entra nessa complica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que \u00e9 o que surge em retorno ao assassinato do pai primevo, a partir do que se instaura a Lei e o gozo do <em>parl\u00eatre<\/em>. Com a morte do pai, o gozo, longe de liberado, fica interditado. A respeito dessa falha interditiva, Lacan coloca que <em>\u201ctudo que a transp\u00f5e (a falha interditiva) constitui objeto de uma d\u00edvida no Grande livro da d\u00edvida. Todo exerc\u00edcio de gozo comporta algo que se inscreve no livro da d\u00edvida na Lei. E muito mais ainda, \u00e9 preciso que algo nessa regula\u00e7\u00e3o seja, ou bem um paradoxo, ou bem lugar de algum desregramento\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No desregramento a coisa n\u00e3o vai bem, seja na dire\u00e7\u00e3o de submeter-se a uma lei moral, seja avan\u00e7ando na via do gozo sem freios. Ent\u00e3o, o que seria uma regula\u00e7\u00e3o que fosse um paradoxo?\u00a0 E, ao que parece, esse exerc\u00edcio de gozo poss\u00edvel, tem a ver n\u00e3o com uma d\u00edvida que se pagaria para finalmente poder gozar, ainda que pouco, mas uma d\u00edvida a ser inscrita, inscrita no Grande livro da d\u00edvida, na Lei. N\u00e3o \u00e9 incluir o gozo como um dos itens de que trata a lei dos homens, j\u00e1 que se trata de inscrever algo que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pela transgress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed, no semin\u00e1rio, Lacan n\u00e3o tarda a colocar o mandamento <em>\u201camar ao pr\u00f3ximo como a si mesmo\u201d<\/em>. Este mandamento n\u00e3o \u00e9 altru\u00edsmo. O bem \u00e9 altru\u00edsta, e o altru\u00edsmo \u00e9 ego\u00edsmo, mas, nos diz ele, enquanto se trata do bem n\u00e3o tem problema, a quest\u00e3o \u00e9 quando se coloca o amor. Ent\u00e3o, o problema \u00e9 que tenho que amar o outro, o pr\u00f3ximo? Basta, ent\u00e3o, ficar na via do bem? Nem tanto. No altru\u00edsmo imagino o penar do outro no espelho do meu, inclusive me sacrifico pelo seu bem, desde que ele dependa de meu esfor\u00e7o. A\u00ed, nos diz Lacan, tem imagina\u00e7\u00e3o, <em>s\u00f3<\/em> tem imagina\u00e7\u00e3o, \u00e9 o espa\u00e7o do semelhante a n\u00f3s mesmos, id\u00eantico e irredut\u00edvel, uma preliminar de individua\u00e7\u00e3o, portanto, um <em>\u201ceste que n\u00e3o \u00e9 aquele\u201d<\/em>. Contudo, nesse espa\u00e7o eu extravio o outro, falta essa <em>via<\/em> dif\u00edcil: o amor ao pr\u00f3ximo! Os pacientes n\u00e3o falam disso o tempo todo? N\u00e3o \u00e9 disso que falamos em nossa an\u00e1lise? Quanto mais pr\u00f3ximo, tanto mais dif\u00edcil essa via. Quando s\u00f3 tem imagina\u00e7\u00e3o, ou seja, o bem do outro, falta esse mais pr\u00f3ximo e falta essa via dif\u00edcil at\u00e9 ele, at\u00e9 esse \u00e2mago de mim mesmo e para al\u00e9m de mim. \u00c9 a mesma maldade, esse centro incandescente e irrespir\u00e1vel. E essa via dif\u00edcil, eu n\u00e3o diria, por enquanto, de amor ao pr\u00f3ximo, mas a via do mandamento de amar o pr\u00f3ximo, essa via \u00e9 a via do gozo. E se uma transgress\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para ter acesso ao gozo, nos diz Lacan, trata-se da Lei como fundada no Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por um lado, Lacan nos diz que o mito de Freud \u00e9 uma resposta a esse fato: a morte de Deus. Em seguida, p\u00f5e que o que ele prop\u00f5e como <strong>S<\/strong>(\u023a) \u00e9 uma resposta derradeira a uma garantia pedida ao Outro. Garantia de qu\u00ea? Garantia no sentido dessa <em>lei articulada o mais profundamente no Inconsciente<\/em>. Lei da interdi\u00e7\u00e3o do incesto? Lei da linguagem? Certamente, Lei como fundada no Outro. Ocorre que, se nada mais h\u00e1 sen\u00e3o a falta (<em>manque<\/em>), o Outro se esvai, e o significante \u00e9 o significante da morte. E, continua Lacan, \u00e9 em fun\u00e7\u00e3o dessa posi\u00e7\u00e3o, ela mesma suspensa ao paradoxo da Lei, que se prop\u00f5e o paradoxo do gozo que tentamos articular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 uma das partes que n\u00e3o acompanhei. Por que esse Outro <em>se esvai<\/em>? Esta posi\u00e7\u00e3o est\u00e1 suspensa ao paradoxo da Lei? Quando Lacan prop\u00f5e que as imagens s\u00e3o enganadoras, nos fala do vazio de Deus a ser descoberto e diz que \u00e9 a\u00ed tamb\u00e9m que Deus deixa o homem no vazio, que faz parte do poderio de Deus avan\u00e7ar nesse vazio, acrescentando e aumentando minhas interroga\u00e7\u00f5es. Em outra parte, ainda, nos diz que a Lei prov\u00e9m de alhures, onde aquele que deve responder, garantir, est\u00e1 faltando, o pr\u00f3prio Deus. Todas essas partes falam da mesma coisa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Deus n\u00e3o est\u00e1 morto desde sempre? Inclusive por isso o monote\u00edsmo, as leis escritas, o cristianismo. Mas, principalmente, o que estrutura o <em>parl\u00eatre<\/em> n\u00e3o adv\u00e9m do fato de que o verdadeiro pai \u00e9 o pai-morto, pois a\u00ed ele \u00e9 um lugar, uma fun\u00e7\u00e3o, um nome? Ent\u00e3o se trata do fato de ter sido um assassinato? Essa ruindade, essa <em>mauvaiset\u00e9,<\/em> essa maldade que \u00e9 a pr\u00f3pria possibilidade do <em>parl\u00eatre<\/em>. Uma ruindade como solid\u00e1ria do que ocorreu concernindo \u00e0 Lei. Lacan fala de <em>Aufhebung<\/em>, retomando e abolindo, conserva\u00e7\u00e3o do que \u00e9 destru\u00eddo. Da\u00ed o cristianismo, o mandamento do amor ao pr\u00f3ximo como a si mesmo. Lacan diz que a Lei \u00e9 substitu\u00edda, nesse sentido do <em>Aufhebung<\/em>, substitu\u00edda pelo \u00fanico mandamento doravante, amar ao pr\u00f3ximo como a si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um \u00faltimo ponto. Quando nos traz Sade, diz que avan\u00e7ar nesse vazio central \u00e9, at\u00e9 agora, a forma que se apresenta a n\u00f3s o acesso ao gozo. O problema \u00e9 que o corpo do pr\u00f3ximo se despeda\u00e7a. Entendia esse despeda\u00e7amento como um gozo que leva \u00e0 agress\u00e3o, viol\u00eancia, tortura. Mas creio que tem a ver com o que est\u00e1 na passagem de Sade que Lacan l\u00ea (p. 246) e que \u00e9 quase, diria, rom\u00e2ntica no modo como est\u00e1 escrita, e que mostra que esse objeto nada mais pede sen\u00e3o para entrar no objeto valorizado, objeto de nosso amor. Ent\u00e3o, despeda\u00e7amento, pois o que fica evidente \u00e9 que esse objeto est\u00e1 necessariamente em estado de independ\u00eancia no campo que dizemos central. Importante, j\u00e1 que Lacan coloca, conforme acompanhei, que \u00e9 a\u00ed que se situa o campo de batalha da experi\u00eancia psicanal\u00edtica, onde se organiza a inacessibilidade do objeto enquanto objeto de gozo, na barreira para al\u00e9m da qual est\u00e1 a Coisa anal\u00edtica.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*Texto escrito a partir do trabalho com o Semin\u00e1rio VII, <em>A \u00e9tica da Psican\u00e1lise<\/em>, de Jacques Lacan, realizado na AEPM em 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem algo que parece ficar claro de sa\u00edda: o gozo seria um mal, fugimos dele, seja em nome do prazer, seja pelo bem, pelo narcisismo, em nome do outro e em \u00faltima inst\u00e2ncia de mim, ele despeda\u00e7a o corpo do outro, impede que eu o ame. Qui\u00e7\u00e1 fosse t\u00e3o simples. 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