{"id":387,"date":"2021-12-13T11:13:30","date_gmt":"2021-12-13T11:13:30","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=387"},"modified":"2022-08-21T23:29:58","modified_gmt":"2022-08-21T23:29:58","slug":"por-que-lacan-precisou-passar-pela-sublimacao-e-pelo-belo-sublime-para-chegar-a-etica-da-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/13\/por-que-lacan-precisou-passar-pela-sublimacao-e-pelo-belo-sublime-para-chegar-a-etica-da-psicanalise\/","title":{"rendered":"Por que Lacan precisou passar pela sublima\u00e7\u00e3o e pelo belo-sublime para chegar \u00e0 \u00e9tica da psican\u00e1lise?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Em janeiro de 2008, quando voltava a esta institui\u00e7\u00e3o para dar continuidade \u00e0 minha forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, apresentei o resultado do trabalho com o Semin\u00e1rio X<em>, A ang\u00fastia<\/em>, a partir da no\u00e7\u00e3o de <em>causa<\/em>, usada por Lacan em rela\u00e7\u00e3o ao <em>objeto a<\/em> como causa de desejo. Dado que ele falava de uma cr\u00edtica da raz\u00e3o pura que poderia ser exposta <em>\u201cpor nossa ci\u00eancia\u201d<\/em> feita a partir do reexame da no\u00e7\u00e3o de causa, fiz algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a articula\u00e7\u00e3o que estava estabelecendo com Kant (\u201c<em>Kant e Lacan: intercursos cr\u00edticos\u201d<\/em>). Referia-se inclusive a sua \u201c\u00e9tica transcendental\u201d, o que chamou minha aten\u00e7\u00e3o, pois a palavra \u201ctranscendental\u201d \u00e9 utilizada por Kant com uma acep\u00e7\u00e3o relativa ao estabelecimento das condi\u00e7\u00f5es de possibilidade e aos limites da Raz\u00e3o em sua pretens\u00e3o de conhecer algo que est\u00e1 al\u00e9m da experi\u00eancia. Se, por um lado, ultrapassar esse limite \u00e9 ileg\u00edtimo e d\u00e1 lugar a falsos problemas e ilus\u00f5es internas, por outro, ao n\u00e3o poder impedir a pretens\u00e3o da Raz\u00e3o, baseada num interesse leg\u00edtimo de ultrapassar esse limite, Kant considera necess\u00e1rio passar do interesse especulativo para o pr\u00e1tico (moral, \u00e9tico).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A analogia que pretendi estabelecer entre Kant e Lacan \u00e9 que este, ao buscar situar uma certa efetividade do negativo como o pr\u00f3prio da psican\u00e1lise, d\u00e1 um encaminhamento transcendental, na medida em que trata das condi\u00e7\u00f5es de possibilidade da experi\u00eancia anal\u00edtica. A dificuldade est\u00e1 em estabelecer como \u00e9 poss\u00edvel a pr\u00f3pria experi\u00eancia psicanal\u00edtica frente a esse objeto negativo exterior \u00e0 cadeia significante. \u00c9 necess\u00e1rio pensar em uma certa efetividade do negativo que n\u00e3o se resolva em uma s\u00edntese que acaba por positivar o negativo, admitir que algo vem \u00e0 presen\u00e7a negativamente ou que haja uma presen\u00e7a do negativo. Portanto, esse encaminhamento passa necessariamente por aquilo que Kant considerava um uso ileg\u00edtimo da raz\u00e3o, se n\u00e3o para conhecer coisas em si, pelo menos para compreender como coisas que n\u00e3o est\u00e3o contidas no contorno de um aparecimento e cujo modo de ser \u00e9 o n\u00e3o-ser podem ser teorizadas. Talvez seja esse o motivo do deslocamento para a \u00e9tica. Na \u00e9poca, j\u00e1 que se tratava do Semin\u00e1rio X, o lugar de manifesta\u00e7\u00e3o dessa negatividade encontrava-se na ang\u00fastia. A cr\u00edtica por ele conduzida levou a uma \u201cnecessidade estrutural\u201d, que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, remete \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o do desejo na fantasia e \u00e0 af\u00e2nise do <em>a<\/em>, ou seja, ao desaparecimento do objeto numa dada fase do funcionamento fantas\u00edstico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Semin\u00e1rio VII<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[1]<\/a>, Lacan faz refer\u00eancia ao que passou a se chamar de \u201cTerceira Cr\u00edtica\u201d, a <em>Cr\u00edtica da Faculdade do Ju\u00edzo <\/em>que trata do julgamento est\u00e9tico. Ele considera que a no\u00e7\u00e3o de sublima\u00e7\u00e3o teria muito a se beneficiar da teoria kantiana do sublime. Tamb\u00e9m no que se refere ao belo, ele cede a palavra ao Sr. Kaufmann <em>\u201cnum campo, num ponto de articula\u00e7\u00e3o que considero como essencial para o prosseguimento de meu discurso, isto \u00e9, a defini\u00e7\u00e3o do belo e do sublime, tal como foi colocado por Kant\u201d<\/em> (p. 337). N\u00e3o tendo a comunica\u00e7\u00e3o proferida por ele, fui ao encal\u00e7o de me informar a respeito do belo e do sublime no que me pareceu v\u00e1lido para o acompanhamento das quest\u00f5es que surgiram na leitura deste Semin\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Kant, o julgamento do tipo <em>\u00e9 belo<\/em> \u00e9 a forma superior da faculdade de sentir prazer como efeito da representa\u00e7\u00e3o de uma pura forma de objeto. Nesse sentido, a exist\u00eancia material do objeto representado permanece indiferente e s\u00f3 pode ser superior sendo <em>desinteressada<\/em> no seu princ\u00edpio. O julgamento de algo como belo n\u00e3o tem a ver com nenhuma finalidade pr\u00e1tica do objeto, ou alguma inclina\u00e7\u00e3o \u201cpatol\u00f3gica\u201d associada a ele. \u00c9 a reflex\u00e3o de um objeto singular na imagina\u00e7\u00e3o sendo essencial o desenho, a configura\u00e7\u00e3o. A imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel pela composi\u00e7\u00e3o do m\u00faltiplo, esquematizando-o, ou seja, formalizando um esquema de inteligibilidade que ser\u00e1 operado pelo entendimento, ao consagrar a unidade da representa\u00e7\u00e3o. Interessante \u00e9 que o sentimento superior de prazer \u00e9 fruto de um jogo livre das faculdades e n\u00e3o sup\u00f5e nenhuma interven\u00e7\u00e3o do conceito do entendimento. Esse livre jogo entre a imagina\u00e7\u00e3o e o entendimento que forma um senso comum est\u00e9tico (o gosto) n\u00e3o pode ser conhecido, mas apenas sentido. Trata-se de uma pura harmonia subjetiva que pode induzir a um estado subjetivo inercial e mesmo a uma certa sensa\u00e7\u00e3o prazerosa de plenitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O outro tipo de julgamento est\u00e9tico, do tipo <em>\u00e9 sublime<\/em>, \u00e9 em todo diferente da reflex\u00e3o formal. O sentimento do sublime \u00e9 experimentado diante do informe ou do disforme (imensidade ou pot\u00eancia). A imagina\u00e7\u00e3o v\u00ea-se confrontada com o seu limite e percebe sua impot\u00eancia para abranger a totalidade da unidade visada pela raz\u00e3o. Esta conduz a imagina\u00e7\u00e3o a confessar que toda a sua pot\u00eancia nada \u00e9 relativamente a uma Ideia. Com tal desacordo, a imagina\u00e7\u00e3o parece perder sua liberdade e o sentimento do sublime \u00e9 uma dor, mais que um prazer. Mas, esse mesmo desprazer gera um prazer, na medida em que desse desencontro abre-se a perspectiva de eleva\u00e7\u00e3o subjetiva. A imagina\u00e7\u00e3o constata sua finitude sens\u00edvel, mas ao passar a representar-se, de forma negativa, a inacessibilidade da Ideia racional, a imagina\u00e7\u00e3o coloca-se acima dos obst\u00e1culos da sensibilidade, passa a ter uma destina\u00e7\u00e3o supra-sens\u00edvel, tal como a raz\u00e3o, o que prepara o homem para o advento da lei moral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os comentadores ressaltam a mudan\u00e7a que se produziu na no\u00e7\u00e3o de belo como forma harmoniosa que perdeu seu valor de julgamento est\u00e9tico caindo na categoria do que Kant chama de \u201cagrad\u00e1vel\u201d e que sup\u00f5e o efeito qualitativo em nossos sentidos e, portanto, o interesse \u201cpatol\u00f3gico\u201d. H\u00e1 um deslocamento da no\u00e7\u00e3o de belo para a de sublime que acompanha a nossa sensibilidade est\u00e9tica. Acredito que \u00e9 o caso de Lacan. Quando ele fala da fun\u00e7\u00e3o do belo n\u00e3o se encontra ali nenhuma ideia de beleza como forma harm\u00f4nica, mas sim uma esp\u00e9cie de fus\u00e3o entre o belo e o sublime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou me restringir \u00e0 imagem da beleza de Ant\u00edgona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00edgona \u00e9 uma imagem e um ato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto imagem, ela nos fascina, nos atrai, nos ret\u00e9m e ao mesmo tempo nos interdita. \u00c9 a imagem da beleza sublime atrav\u00e9s da qual somos purgados, purificados de tudo que \u00e9 da ordem do imagin\u00e1rio. Ant\u00edgona \u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o est\u00e9tica de uma imagem que \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o do Imagin\u00e1rio. Uma imagem que interrompe a s\u00e9rie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa imagem de um objeto (o objeto feminino) subtra\u00eddo do imagin\u00e1rio (<em>\u201cobjeto elevado \u00e0 dignidade da Coisa\u201d<\/em>) corresponde \u00e0 desaliena\u00e7\u00e3o do desejo. Ant\u00edgona \u00e9 portadora de uma \u00e9tica que a subtrai do mundo dos valores constitu\u00eddos, das significa\u00e7\u00f5es estabelecidas. Mas, Ant\u00edgona n\u00e3o se encerra a\u00ed. H\u00e1 algo a mais: essa beleza perfeita e congelada de Ant\u00edgona. Essa imagem se subtrai ao nosso olhar, pois se trata de <em>\u201cum brilho insuport\u00e1vel\u201d<\/em>, o que vem metaforizar a ideia de algo do imposs\u00edvel que se, por um lado, torna vis\u00edvel, por outro tem um <em>\u201cefeito de cegamento\u201d<\/em>. Essa dupla fun\u00e7\u00e3o de fasc\u00ednio e de desnorteamento \u00e9 o que corresponde a essa jun\u00e7\u00e3o do belo e do sublime de que fal\u00e1vamos anteriormente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A posi\u00e7\u00e3o subjetiva de Ant\u00edgona coloca-a no <em>\u201centre duas mortes\u201d <\/em>(a simb\u00f3lica e a real). Ap\u00f3s a decis\u00e3o de desobedecer \u00e0 ordem que impedia enterrar o corpo de Polinices, ela se sabe excomungada, por Creonte, da <em>p\u00f3lis<\/em>. Ela, ent\u00e3o, se identifica com esse irm\u00e3o ao qual, morto na realidade, s\u00e3o negados os rituais simb\u00f3licos (morte simb\u00f3lica). Simetricamente, ela se encontra exclu\u00edda da comunidade simb\u00f3lica e caminhando para a morte, s\u00f3 lhe restando a vida biol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan considera que a queixa de Ant\u00edgona, ao transpor a entrada da zona entre a vida e a morte, no momento de realiza\u00e7\u00e3o de sua <em>At\u00e9<\/em>, se pode ser entendida como <em>\u201ccontra-senso insensato\u201d<\/em> por alguns comentadores, \u00e9 porque n\u00e3o perceberam o limite de onde Ant\u00edgona se p\u00f5e a fazer a lamenta\u00e7\u00e3o, a poder <em>\u201cviver a vida sob a forma do que est\u00e1 perdido\u201d<\/em>. O efeito de beleza desse momento, \u201c<em>desse desejo tornado vis\u00edvel que se depreende das p\u00e1lpebras da admir\u00e1vel mo\u00e7a\u201d<\/em> \u00e9 a efetiva\u00e7\u00e3o do que se pode chamar de desejo puro, o puro e simples desejo de morte como tal<em>. \u201cEsse desejo, ela o encarna.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada de humanismo. Se Ant\u00edgona aparece como aquela que realiza o ato de maneira aut\u00f4noma, livre, pode-se atribuir a ela as caracter\u00edsticas do pressuposto colocado por Kant como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade da raz\u00e3o pr\u00e1tica, ou seja, da a\u00e7\u00e3o moral, da \u00e9tica: uma vontade livre que s\u00f3 visa \u00e0 pura forma da Lei? Aproximar a universalidade da lei moral com o desejo puro n\u00e3o aproxima Lacan a Sade? Como o mesmo sai dessa encruzilhada?<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Texto escrito a partir do trabalho com o Semin\u00e1rio VII, <em>A \u00e9tica da Psican\u00e1lise<\/em>, de Jacques Lacan, realizado na AEPM em 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[1]<\/a> LACAN, Jacques. Semin\u00e1rio VII\u00a0: <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em> (1959-1960). Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em janeiro de 2008, quando voltava a esta institui\u00e7\u00e3o para dar continuidade \u00e0 minha forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, apresentei o resultado do trabalho com o Semin\u00e1rio X, A ang\u00fastia, a partir da no\u00e7\u00e3o de causa, usada por Lacan em rela\u00e7\u00e3o ao objeto a como causa de desejo. 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