{"id":390,"date":"2021-12-13T12:52:26","date_gmt":"2021-12-13T12:52:26","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=390"},"modified":"2022-08-21T23:28:57","modified_gmt":"2022-08-21T23:28:57","slug":"observacoes-a-respeito-de-limites-e-abismos-a-etica-da-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/13\/observacoes-a-respeito-de-limites-e-abismos-a-etica-da-psicanalise\/","title":{"rendered":"Observa\u00e7\u00f5es a respeito de limites e abismos &#8211; A \u00c9tica da Psican\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho de 2008 a que me referi no texto anterior<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> pensava uma analogia entre o projeto transcendental kantiano e o prop\u00f3sito lacaniano do que considerei como uma busca dos limites, no caso, da experi\u00eancia anal\u00edtica. No Semin\u00e1rio X, Lacan, ironicamente, nos manda escolher entre o conceito de absoluto de Hegel e a ang\u00fastia quando se trata da captura do real. E eu me perguntava: de que escolha se trata? De um abismo incontorn\u00e1vel entre o simb\u00f3lico e o real? Como pensar a\u00ed a pr\u00e1tica anal\u00edtica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o que, desde o come\u00e7o, se imp\u00f4s a mim no texto anterior: \u201cPor que Lacan precisou passar pela sublima\u00e7\u00e3o e pelo belo-sublime para chegar \u00e0 \u00e9tica da psican\u00e1lise?\u201d trazia, no fundo, a mesma interroga\u00e7\u00e3o. Na certeza de n\u00e3o ter respondido, deixo como algo que considero importante a ser pensado, talvez passando por Heidegger e Nietzsche com os quais Lacan est\u00e1 silenciosamente discutindo como se percebe em alguns vest\u00edgios (\u201cser-para-a-morte\u201d, por exemplo). Se o primeiro trabalha com a estrutura do <em>Dasein<\/em>, Nietsche o faz em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s consequ\u00eancias de decad\u00eancia por meio da resposta dada pelo pensamento (filosofia) ao mascarar os terrores e atrocidades da exist\u00eancia e da morte atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o do belo, da medida, da arte apol\u00ednea e dos deuses, do mundo da \u201cbela apar\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Semin\u00e1rio VII<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> coloca, de maneira aguda, essa quest\u00e3o, principalmente por estar perpassado por uma das crises mais violentas entre as superpot\u00eancias durante o que se chamou de \u201cGuerra Fria\u201d: <em>\u201cNo momento em que lhes falo do paradoxo do desejo, no que os bens o mascaram, voc\u00eas podem ouvir l\u00e1 fora os terr\u00edveis discursos do poder. \u201d<\/em> (p. 275). Como a psican\u00e1lise pode ouvir \u201co que ressoou\u201d? A formula\u00e7\u00e3o deve ser: \u201cO que <em>isso<\/em> quer?\u201d \u201cAonde <em>isso<\/em> quer chegar?\u201d. Contudo, por mais que o tr\u00e1gico esteja colocado \u00e0 luz do dia, um <em>isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel<\/em>, acalma e faz adormecer. Em contraposi\u00e7\u00e3o, Lacan afirma: \u201c<em>\u00c9 poss\u00edvel porque o poss\u00edvel \u00e9 o que pode responder \u00e0 demanda do homem, e que o homem n\u00e3o sabe o que ele p\u00f5e em movimento com sua demanda.\u201d<\/em> (p. 276).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cTranspusemos a linha?\u201d<\/em> (p. 275). Essa quest\u00e3o me parece colocada n\u00e3o apenas a esse mundo do bem, da pol\u00edtica do bem, mas tamb\u00e9m \u00e0 ci\u00eancia e \u00e0 psican\u00e1lise. Para al\u00e9m da linha h\u00e1 o inconsciente, isto \u00e9, a mem\u00f3ria do que ele esquece. E o que ele esquece \u00e9 o fedor, a corrup\u00e7\u00e3o sempre aberta como um abismo. A vida \u00e9 podrid\u00e3o. Que vida \u00e9 essa, vivida na fronteira por n\u00e3o querer nada saber sobre o que existe para al\u00e9m, por n\u00e3o enfrentar esse desconhecido, o estranho, aquilo que resiste?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A outra via, qual \u00e9? O discurso da ci\u00eancia que, pela primeira vez, desvelou a pot\u00eancia do significante, o discurso que surge nas pequenas letras das matem\u00e1ticas. Lacan considera que a psican\u00e1lise \u00e9 atingida na medida em que no discurso da comunidade, do bem em geral, os efeitos desse discurso se fazem sentir: <em>\u201cEssa quest\u00e3o \u00e9 propriamente a nossa. Para n\u00f3s se coloca a quest\u00e3o que est\u00e1 subjacente \u00e0 ordem de pensamento que tento desenrolar aqui diante de voc\u00eas.\u201d<\/em> Mas, no discurso da ci\u00eancia h\u00e1 uma aliena\u00e7\u00e3o suplementar; trata-se de um discurso que, <em>\u201cpor estrutura, nada esquece\u201d<\/em>. Confronta-se, assim, ao discurso memorial do inconsciente que prossegue em n\u00f3s sem que o saibamos, cujo centro est\u00e1 ausente e situado pelo <em>\u201cele n\u00e3o sabia\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O uso desse discurso assim constitu\u00eddo baseado no princ\u00edpio da pot\u00eancia do significante, fazendo-o circular <em>\u201cno real e no mundo\u201d<\/em> tem seus efeitos<em>: \u201cBasta que uma pequena cadeia significante comece a funcionar baseada nesse princ\u00edpio para que as coisas continuem exatamente como se funcionassem sozinhas, a tal ponto que ficamo-nos perguntando se o discurso da f\u00edsica, engendrado pela onipot\u00eancia do significante, vai confinar com a integra\u00e7\u00e3o da Natureza ou com sua desintegra\u00e7\u00e3o\u201d<\/em> (p.291)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a via da psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m sem efeitos: temos aqui a depend\u00eancia do homem ao significante no que tange \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com o desejo. <em>\u201c\u00c9 porque o movimento do desejo est\u00e1 transpondo a linha de uma esp\u00e9cie de desvelamento que o advento da no\u00e7\u00e3o freudiana de puls\u00e3o de morte tem seu sentido para n\u00f3s.\u201d<\/em> E acrescenta<em>: \u201cA quest\u00e3o se coloca no n\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o do ser humano com o significante como tal, dado que no n\u00edvel do significante todo o ciclo do ente (\u00e9tant) pode ser recolocado em quest\u00e3o, inclusive a vida em seu movimento de perda e de retorno\u201d<\/em> (p.291).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que \u00e9 disso que a trag\u00e9dia Ant\u00edgona lida por Lacan trata: o que pode ser um desejo que nenhum bem motive, como o de Ant\u00edgona?\u00a0 O que isso tem a ver com o que o ser humano quer e de que se defende? Al\u00e9m do bem, o belo. E al\u00e9m do belo? A Coisa? A Lei? <em>\u201c[&#8230;] A rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica do desejo com a Lei faz nosso desejo n\u00e3o arder sen\u00e3o numa rela\u00e7\u00e3o com a Lei, pela qual se torna desejo de morte.\u201d<\/em> (p. 104). Preservar o lugar vazio para a emerg\u00eancia do desejo nos livra da destrui\u00e7\u00e3o da vida como tal?<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Texto escrito a partir do trabalho com o Semin\u00e1rio VII, <em>A \u00e9tica da Psican\u00e1lise<\/em>, de Jacques Lacan, realizado na AEPM em 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Refer\u00eancia ao texto, tamb\u00e9m de autoria de Maria Victoria Borges D\u00edaz, <em>Por que Lacan precisou passar pela sublima\u00e7\u00e3o e pelo belo-sublime para chegar \u00e0 \u00e9tica da psican\u00e1lise? <\/em>Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/13\/por-que-lacan-precisou-passar-pela-sublimacao-e-pelo-belo-sublime-para-chegar-a-etica-da-psicanalise\/\">https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/13\/por-que-lacan-precisou-passar-pela-sublimacao-e-pelo-belo-sublime-para-chegar-a-etica-da-psicanalise\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LACAN, Jacques. Semin\u00e1rio VII\u00a0: <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em> (1959-1960). Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trabalho de 2008 a que me referi no texto anterior[1] pensava uma analogia entre o projeto transcendental kantiano e o prop\u00f3sito lacaniano do que considerei como uma busca dos limites, no caso, da experi\u00eancia anal\u00edtica. 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