{"id":392,"date":"2021-12-15T11:28:12","date_gmt":"2021-12-15T11:28:12","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=392"},"modified":"2022-08-21T23:27:32","modified_gmt":"2022-08-21T23:27:32","slug":"sobre-a-sublimacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/15\/sobre-a-sublimacao\/","title":{"rendered":"Sobre a sublima\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Lacan nos diz que um analista conduz um tratamento, n\u00e3o um sujeito. N\u00e3o deve ser encontrado naquele lugar onde \u00e9 demandado por seu paciente. N\u00e3o lhe cabe dar opini\u00f5es, seu <em>eu<\/em> n\u00e3o deve estar ali no momento do tratamento. Quest\u00f5es da pr\u00e1tica anal\u00edtica de cada um, que nos interrogam nas supervis\u00f5es se, no final das contas, os tratamentos que conduzimos est\u00e3o pautados na \u00c9tica da psican\u00e1lise. Mas, antes de sabermos se os tratamentos que conduzimos tem como eixo a \u00c9tica da psican\u00e1lise, temos que saber que \u00c9tica \u00e9 essa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan nos conduz por muitos caminhos para cercar isso de que ele se ocupa nesse semin\u00e1rio. Fundamentalmente seguindo com Freud, ele recorre tamb\u00e9m \u00e0 obra de Arist\u00f3teles, Kant, Sade, Shakespeare, entre muitos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma dedica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica ao que se nomeia sublima\u00e7\u00e3o. Dentro de tudo que se pode falar da sublima\u00e7\u00e3o, me ative a esse ponto que especifica essa puls\u00e3o ou energia pulsional que teria um destino sexual, mas que encontra um destino n\u00e3o sexual. Aquela dita sublimada. Mas \u00e9 sublimada em qu\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sublima\u00e7\u00e3o, sublime. Esse sublime come\u00e7a a dar uma dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan, nesse ponto, nos fala da arte, da anamorfose, das ma\u00e7\u00e3s de C\u00e9zanne, do amor cort\u00eas. Ele tenta, por esse meio, com que comecemos a fazer uma distin\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 fundamental em nosso trabalho entre objeto e <em>das Ding<\/em>. Ele nos d\u00e1 um exemplo que talvez nos aproxime disso quando ele fala do colecionador. H\u00e1 o uso do objeto, enquanto fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica daquele objeto, enquanto utens\u00edlio e h\u00e1 essa outra coisa que um colecionador nos deixa entrever e que nos aproxima de <em>das Ding<\/em>. Quando, em cada lugar que visito, compro uma m\u00e1scara, n\u00e3o \u00e9 para us\u00e1-las. Vou p\u00f4-las, por exemplo, penduradas em uma parede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan vai nos aproximar disso que foi o amor cort\u00eas e de toda produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que se dedicou a ele. Temos, inicialmente, isso: a mulher elevada a esse lugar sublime. Como nos demos conta, durante o trabalho, isso n\u00e3o quer dizer que elas n\u00e3o fizessem sexo, mas a aten\u00e7\u00e3o se volta para esse trovador, para essa trova, para essa mulher inalcan\u00e7\u00e1vel, inacess\u00edvel que deve ser cantada nesses versos. Lacan primeiramente aponta para essa fun\u00e7\u00e3o da troca das mulheres socialmente e, em seguida, para o fato de que, neste caso, elas s\u00e3o elevadas \u00e0 categoria de <em>das Ding<\/em>, sendo assim, no amor cort\u00eas, a pr\u00f3pria sublima\u00e7\u00e3o desse sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Capel\u00e3o escreve sobre o amor cort\u00eas. Ele nos mostra diversos exemplos. Como um homem da alta nobreza deve se dirigir a uma mulher da alta nobreza, pequena nobreza ou a uma plebeia. Como um homem plebeu deve se dirigir a uma mulher da alta nobreza, baixa nobreza ou plebeia. Uma mulher deveria se relacionar com um homem de sua classe ou acima dela sob pena de perder seu valor. Uma plebeia poderia se relacionar com homens de sua classe ou acima. O homem poderia escolher livremente entre todas as classes, mas deveria se dirigir a cada classe de maneira diferente. Tudo isso estava escrito nas regras da cavalaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A certo ponto do texto de Andr\u00e9 Capel\u00e3o, ele nos mostra que essa n\u00e3o era uma conversa entre solteiros, mas um tipo de amor que era buscado fora do casamento. Ele decreta: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel amar o marido, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel amar a esposa. Um casal est\u00e1 unido pelas obriga\u00e7\u00f5es do casamento. Sabemos que ali valia o dote, o contrato, a legitimidade dos filhos, a heran\u00e7a. Isso era do campo dos casamentos leg\u00edtimos. O autor vaticina que o amor n\u00e3o pode estar do lado dessas obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor cort\u00eas vinha, portanto, sustentar naquele momento um erotismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estar fora dessas trocas naquele momento n\u00e3o era qualquer coisa. Como ele mesmo diz, uma mulher n\u00e3o poderia fechar as portas do amor. Isso corresponderia, segundo ele, a uma puni\u00e7\u00e3o \u00e0 semelhan\u00e7a do inferno de Dante. Uma mulher seria castigada por ceder em excesso ou n\u00e3o ceder de jeito algum ao amor. Ali, inclusive, esse amor surge personificado, o pr\u00f3prio Eros se encarregaria desse castigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproximando com o exemplo do colecionador, o matrim\u00f4nio estaria para o utens\u00edlio, o objeto, assim como o amor cort\u00eas faz, com essa sublima\u00e7\u00e3o, com que a mulher se torne equivalente a <em>das Ding<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembrando Dom Quixote que, fascinado e delirante com os romances de cavalaria, quis sair pelo mundo fazendo hero\u00edsmos de cavalaria, mas precisava de uma mulher a quem dedic\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho com o semin\u00e1rio da \u00c9tica foi produzindo essas interroga\u00e7\u00f5es sobre a mulher em algumas culturas na nossa atualidade. Por exemplo, a mulher, em alguns pa\u00edses do mundo \u00e1rabe, chama a aten\u00e7\u00e3o: a burca; a aus\u00eancia delas em reuni\u00f5es masculinas, em fotos; um casamento no m\u00ednimo peculiar onde homem e mulher n\u00e3o se encontram para se casar&#8230; e esse homem que pode ter quantas mulheres ele puder sustentar. \u00c9 um ponto muito interessante essa quantidade de mulheres agregando um valor a esse homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas fam\u00edlias indianas n\u00e3o importa se um filho est\u00e1 brigado com o pai. Se ele se casa, \u00e9 para a casa do pai que ele deve voltar para morar com sua esposa. Claro que, em nossa atualidade, um indiano j\u00e1 \u00e9 mais livre para ter sua pr\u00f3pria casa com sua esposa e o pr\u00f3prio mundo \u00e1rabe j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma unidade quanto a essas quest\u00f5es com a mulher. Mas s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que nos aproximam de outras coisas. Coisas que interessam a psican\u00e1lise.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Texto escrito a partir do trabalho com o Semin\u00e1rio VII, <em>A \u00e9tica da Psican\u00e1lise<\/em>, de Jacques Lacan, realizado na AEPM em 2020.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lacan nos diz que um analista conduz um tratamento, n\u00e3o um sujeito. N\u00e3o deve ser encontrado naquele lugar onde \u00e9 demandado por seu paciente. N\u00e3o lhe cabe dar opini\u00f5es, seu eu n\u00e3o deve estar ali no momento do tratamento. 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