{"id":396,"date":"2021-12-16T14:29:13","date_gmt":"2021-12-16T14:29:13","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=396"},"modified":"2022-09-23T17:24:16","modified_gmt":"2022-09-23T17:24:16","slug":"o-lugar-da-fala-na-coisa-freudiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/16\/o-lugar-da-fala-na-coisa-freudiana\/","title":{"rendered":"O lugar da fala n&#8217;A coisa freudiana"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Na leitura de <em>\u201cA coisa freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psican\u00e1lise\u201d<\/em> o que me pareceu muito dif\u00edcil foi encontrar o que fazia o conjunto do texto. Em certos momentos, pareceu-me uma reuni\u00e3o de v\u00e1rios escritos sobre temas diversos. Depois, no fim, h\u00e1 a retomada de uma quest\u00e3o que havia sido colocada no come\u00e7o, e me ocorreu que, de uma maneira ou de outra, algo atravessou essa profus\u00e3o de temas: a verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o deve ser por acaso, ent\u00e3o, o efeito de enigma que quase tudo no texto suscitou em minha leitura. N\u00e3o bastasse a Coisa n\u00e3o se prestar ao furor das defini\u00e7\u00f5es, ela ainda tem aqui esse atributo: freudiana. Isso em um texto no qual n\u00e3o me lembro de qualquer refer\u00eancia expl\u00edcita ao Projeto, onde est\u00e1 a Coisa de que Freud falou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece que o que se encontra em jogo \u00e9 antes o efeito de verdade da mensagem de Freud, aquela pela qual, naqueles para quem \u00e9 transmitida, \u00e9 poss\u00edvel encontrar <em>\u201co testemunho de uma transforma\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes sobrevindos da noite para o dia, de sua pr\u00e1tica, simplificada e tornada mais eficaz, antes mesmo de se lhes tornar mais transparente\u201d<\/em> (p.405). Um efeito de verdade, portanto. N\u00e3o de um saber que anteciparia a a\u00e7\u00e3o apropriada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse rumo, alguns trechos foram capturando minha aten\u00e7\u00e3o. Alguns com precis\u00f5es te\u00f3ricas, outros com observa\u00e7\u00f5es sobre a pr\u00e1tica cl\u00ednica e frases que mais pareciam aforismos, depois das quais era dif\u00edcil seguir a leitura e as discuss\u00f5es, como se alguma coisa ainda precisasse ser lida, dita ou escutada a respeito daquilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos trechos de precis\u00e3o te\u00f3rica que me pareceu mais prof\u00edcuo \u00e9 o que Lacan introduz de uma distin\u00e7\u00e3o entre resist\u00eancia e defesa, termos cujo emprego se confunde cada vez mais, diz ele.\u00a0 Ele diz: <em>\u201cA primeira resist\u00eancia com que a an\u00e1lise tem de lidar \u00e9 a do pr\u00f3prio discurso, na medida em que antes de mais nada ele \u00e9 um discurso da opini\u00e3o, e em que qualquer objetiva\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica se revelar\u00e1 solid\u00e1ria a esse discurso\u201d <\/em>(p.420). Essa pr\u00f3pria objetiva\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, da qual Lacan acusa os analistas, parece exemplificar o que pode ser da ordem de uma defesa.\u00a0 A defesa, mecanismo a servi\u00e7o do eu, \u00e9 solid\u00e1ria do que \u00e9 da ordem da resist\u00eancia, que, primeiramente, ao menos na an\u00e1lise, \u00e9 resist\u00eancia do discurso. Talvez dito de outra forma, a defesa \u00e9 uma resist\u00eancia, mas a resist\u00eancia n\u00e3o se limita a defesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de ent\u00e3o ir\u00e1 insistir no texto este termo: objetiva\u00e7\u00e3o. <em>\u201cVoc\u00eas n\u00e3o podem ao mesmo tempo proceder pessoalmente a essa objetiva\u00e7\u00e3o do sujeito e falar com ele como conv\u00e9m\u201d<\/em> (p.420).\u00a0 Essa investida de Lacan contra a objetiva\u00e7\u00e3o suscitou em mim a interroga\u00e7\u00e3o sobre o que seria, em psican\u00e1lise, objetivar algo. Afinal, na psican\u00e1lise, dizemos algo que se encontra nesse texto: o <em>eu<\/em> \u00e9 um objeto. Por que ent\u00e3o n\u00e3o o tratar como tal? E, no fim das contas, pelo encaminhamento do texto, parece que o que ele est\u00e1 chamando de objetiva\u00e7\u00e3o do sujeito, nada mais seria do que falar com o sujeito como se ele fosse um eu, sem distinguir, no que ele fala, um al\u00e9m dele. Mas lateralmente me interessou tamb\u00e9m pensar que se o sujeito na psican\u00e1lise n\u00e3o coincide com o sujeito do conhecimento, o objeto na psican\u00e1lise tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o mesmo que pode ser conhecido, compartimentado, manipulado e reduzido a sua dimens\u00e3o de <em>objeto para o sujeito<\/em>, isto \u00e9, para esse sujeito que se confunde com o eu. O que, ao mesmo tempo em que me pareceu quase \u00f3bvio, n\u00e3o deixou de me surpreender. Tudo \u00e9 sempre outra coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E por falar em outra coisa, h\u00e1 outra passagem do texto que me pareceu central: <em>\u201cO analista interv\u00e9m concretamente na dial\u00e9tica da an\u00e1lise se fazendo de morto, cadaverizando sua posi\u00e7\u00e3o, como dizem os chineses, seja por seu sil\u00eancio, ali onde ele \u00e9 o Outro, Autre com A mai\u00fasculo, seja anulando sua pr\u00f3pria resist\u00eancia, ali onde \u00e9 o outro, autre com a min\u00fasculo. Em ambos os casos e sob as respectivas incid\u00eancias do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio, ele presentifica a morte\u201d<\/em> (p.431).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse par\u00e1grafo pareceu-me central em dois n\u00edveis. O primeiro pelo car\u00e1ter enigm\u00e1tico que esse fazer-se de morto, essa cadaveriza\u00e7\u00e3o suscitou para mim. O que diabos seria isso? O destino providenciou, e aqui talvez destino seja tamb\u00e9m outro nome para resist\u00eancia, que eu n\u00e3o conseguisse comparecer ao dispositivo no dia em que foi trabalhada essa passagem. Em outro n\u00edvel tamb\u00e9m me pareceu central pelo que ele tem de esclarecedor. Em uma an\u00e1lise concreta, a alteridade do analista situa-se nesses dois planos, e o que h\u00e1 de essencial \u00e9 distinguir a maneira como interv\u00e9m em cada um deles, <em>\u201cpara saber como interv\u00e9m, em que instante se oferece a oportunidade para isso, e como agir\u201d <\/em>(p. 431).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seguida, esses dois planos aparecem do outro lado, destacando-se que a condi\u00e7\u00e3o primordial \u00e9 que ele &#8211; leio nesse \u201cele\u201d o \u201canalista\u201d &#8211; \u201c<em>esteja imbu\u00eddo da diferen\u00e7a radical entre o Outro a quem sua fala deve endere\u00e7ar-se e esse segundo outro, que \u00e9 o que ele v\u00ea e do qual e atrav\u00e9s do qual o primeiro lhe fala no discurso que profere diante dele. Pois \u00e9 desse modo que ele poder\u00e1 ser aquele a quem esse discurso se dirige\u201d <\/em>(p.431).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As dimens\u00f5es do grande Outro e do pequeno outro discernidas do lado do analista e do analisante. Isso me pareceu diferente do que j\u00e1 havia lido a respeito, assim como a f\u00f3rmula que vir\u00e1 em seguida, na qual ele diz que o grande Outro \u00e9 o lugar<em> \u201conde se constitui o [eu] que fala com aquele que ouve, o que um diz j\u00e1 sendo a resposta, e o outro decidindo, ao ouvi-lo, se esse um falou ou n\u00e3o\u201d<\/em> (p.432).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan aqui d\u00e1 esse passo a mais. O grande Outro como lugar onde se constitui aquele que fala, mas n\u00e3o s\u00f3, aquele que fala com aquele que ouve. \u00c9 de dentro da situa\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, da transfer\u00eancia, que se pode dizer o que quer que seja de uma an\u00e1lise, do analisante e da a\u00e7\u00e3o do analista. Na diferen\u00e7a entre o pequeno outro e o grande Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso me permite escutar que o significante s\u00f3 \u00e9 significante no sentido anal\u00edtico do termo quando h\u00e1 algu\u00e9m para escut\u00e1-lo como representando um sujeito. E representando-o para outro significante. Que por sua vez, se \u00e9 tamb\u00e9m significante, tamb\u00e9m representa o sujeito. N\u00e3o sei se poderia dizer representa outro sujeito. Mas de toda forma, sujeito. Os significantes n\u00e3o est\u00e3o ali, prontos na fala de qualquer um o tempo todo, eles se constituem enquanto tais na condi\u00e7\u00e3o de que haja um sujeito que fale, por meio de um eu que se endere\u00e7a a um outro, que ali vem sustentar, em dados momentos, a dimens\u00e3o do Outro a quem essa fala pode se dirigir.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Texto escrito para a Jornada do dispositivo <em>Fundamentos da cl\u00ednica Psicanal\u00edtica<\/em>, realizada em Junho de 2021.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na leitura de \u201cA coisa freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psican\u00e1lise\u201d o que me pareceu muito dif\u00edcil foi encontrar o que fazia o conjunto do texto. Em certos momentos, pareceu-me uma reuni\u00e3o de v\u00e1rios escritos sobre temas diversos. 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