{"id":404,"date":"2021-12-16T14:45:54","date_gmt":"2021-12-16T14:45:54","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=404"},"modified":"2022-08-21T23:20:09","modified_gmt":"2022-08-21T23:20:09","slug":"quais-sao-os-votos-dirigidos-as-criancas-nos-dias-de-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/16\/quais-sao-os-votos-dirigidos-as-criancas-nos-dias-de-hoje\/","title":{"rendered":"Quais s\u00e3o os votos dirigidos \u00e0s crian\u00e7as nos dias de hoje?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Trabalhando o texto <em>A prop\u00f3sito do incesto,<\/em> que \u00e9 um anexo do livro <em>Para introduzir \u00e0 psican\u00e1lise nos dias de hoje<\/em>, no qual v\u00e1rias quest\u00f5es atuais s\u00e3o colocadas por Charles Melman, mais uma vez me parece que ele nos interroga sobre o papel e a responsabilidade dos psicanalistas de crian\u00e7as e adolescentes, especialmente quando estes est\u00e3o diante de problemas familiares que antes eram casos individuais, tratados pelos meios especializados, e, agora, s\u00e3o problemas da sociedade, divulgados nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, como os problemas relativos ao incesto, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Melman interroga os terapeutas, os educadores, os professores, os assistentes sociais, os psic\u00f3logos quanto a <em>\u201cpunir ou saber o que deve ser imaginado, para ser decidido pelo que for melhor para os interesses da crian\u00e7a\u201d<\/em> (p.381).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele nos diz que precisamos ter a dimens\u00e3o humana do que fazemos diante de tais situa\u00e7\u00f5es, que deveriam ser tratadas de maneira muito particular, privada, e que muitas vezes s\u00e3o tornadas p\u00fablicas, possibilitando que muitas pessoas gozem com o que \u00e9 publicado nos jornais e nas redes sociais; e nos chama a aten\u00e7\u00e3o para pensarmos em quais s\u00e3o as consequ\u00eancias ps\u00edquicas dessas situa\u00e7\u00f5es para as crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Melman diz: <em>\u201cEu ressaltava que nossa preocupa\u00e7\u00e3o primordial deveria ser o futuro da crian\u00e7a, pois, afinal temos um papel que deve ser terap\u00eautico, antes de ser o do justiceiro\u201d<\/em> (p.373).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o acerca do incesto nos remete para outra muito importante que \u00e9 a da interdi\u00e7\u00e3o do incesto: <em>\u201cuma lei geral, pr\u00f3pria \u00e0 humanidade, um interdito que era comum a todos os humanos\u201d <\/em>(p. 374).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Melman nos lembra de que n\u00e3o h\u00e1 vida humana que n\u00e3o seja organizada por um interdito, ou melhor, por um objeto interditado, e esse interdito \u00e9 congruente com o que \u00e9 o desejo. Havia um compartilhamento do interdito e hoje, segundo ele, h\u00e1 um compartilhamento do excesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, nas situa\u00e7\u00f5es muito particulares, tal como uma das situa\u00e7\u00f5es citadas por ele no texto, em que um pai pode perder a cabe\u00e7a ou enlouquecer, como os psicanalistas podem se colocar diante disso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Charles Melman tamb\u00e9m nos adverte que nenhuma situa\u00e7\u00e3o em que o incesto se deu ter\u00e1 a mesma consequ\u00eancia para a crian\u00e7a ou adolescente, e chama a nossa aten\u00e7\u00e3o acerca do que pode acontecer com elas diante de tais problemas e da responsabilidade que temos com o futuro das mesmas, com o seu futuro de adultos e sua participa\u00e7\u00e3o na vida sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, quando est\u00e1vamos terminando a leitura do texto, me ocorreu uma lembran\u00e7a da minha inf\u00e2ncia na qual minha av\u00f3 me aben\u00e7oava assim: <em>\u201cDeus te proteja! Deus te aben\u00e7oe! Deus te d\u00ea vergonha!\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu fiquei pensando que n\u00e3o foi \u00e0 toa que eu me lembrei dessa palavra, <em>vergonha<\/em>, num momento em que trabalh\u00e1vamos um texto que interroga o futuro das crian\u00e7as frente ao que hoje \u00e9 chamado por Melman de permissividade social e fala do quanto o despudor est\u00e1 em toda parte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa permissividade, segundo Melman, invadiu o meio familiar quando este era o meio no qual a crian\u00e7a era introduzida \u00e0 lei, \u00e0 regra. E hoje, os seus pais tamb\u00e9m participam dessa permissividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Melman nos diz que as pervers\u00f5es s\u00e3o permitidas, legalizadas e defendidas pela lei nos dias de hoje (p.380).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando para essa palavra que me ocorreu, <em>vergonha<\/em>, isso me fez pensar o que \u00e9 a vergonha e para o que ela serve. A vergonha \u00e9 um dos diques ps\u00edquicos citados por Freud nos \u201c<em>Tr\u00eas Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade\u201d<\/em>, al\u00e9m da moral e do asco (Freud, p.168). Eu n\u00e3o me refiro aqui \u00e0 vergonha como algo que paralisa o sujeito ou \u00e0 falta de vergonha que possa transformar um sujeito em um <em>sem vergonha<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No texto, Melman nos diz que o problema \u00e9 que queremos saber, assim como \u00c9dipo, e o quanto \u00e9 dif\u00edcil suportarmos ficar um pouco no equ\u00edvoco, ou suportarmos jogar um v\u00e9u em algumas situa\u00e7\u00f5es, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Melman nos lembra <em>\u201cque o excesso de luz \u00e9 uma forma de obscurecer, paradoxalmente, n\u00e3o se v\u00ea mais nada\u201d<\/em>, ser\u00e1 que quando ele nos diz isso, ele tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 tentando nos dizer que suportar n\u00e3o descobrir tudo, n\u00e3o saber de tudo, n\u00e3o entender tudo e n\u00e3o ver tudo pode, no caso das crian\u00e7as, proteg\u00ea-las psiquicamente?<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*Texto escrito para a jornada do dispositivo <em>Quest\u00f5es da Cl\u00ednica com crian\u00e7as e adolescentes<\/em> realizada em junho de 2021<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trabalhando o texto A prop\u00f3sito do incesto, que \u00e9 um anexo do livro Para introduzir \u00e0 psican\u00e1lise nos dias de hoje, no qual v\u00e1rias quest\u00f5es atuais s\u00e3o colocadas por Charles Melman, mais uma vez me parece que ele nos interroga sobre o papel e a responsabilidade dos psicanalistas de crian\u00e7as e adolescentes, especialmente quando estes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[12],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/404"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=404"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/404\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":585,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/404\/revisions\/585"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=404"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=404"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=404"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}