{"id":406,"date":"2021-12-20T11:12:32","date_gmt":"2021-12-20T11:12:32","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=406"},"modified":"2022-08-21T23:19:45","modified_gmt":"2022-08-21T23:19:45","slug":"incidencias-do-trabalho-com-o-seminario-de-lacan-sobre-as-estruturas-freudianas-das-psicoses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/20\/incidencias-do-trabalho-com-o-seminario-de-lacan-sobre-as-estruturas-freudianas-das-psicoses\/","title":{"rendered":"Incid\u00eancias do trabalho com o semin\u00e1rio de Lacan sobre as estruturas freudianas das psicoses"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo desse tempo dedicado ao semin\u00e1rio de Jacques Lacan sobre as estruturas freudianas das psicoses, v\u00e1rios pontos me vieram, concernentes tanto ao campo da psiquiatria quanto ao da psican\u00e1lise, sobretudo no que tange \u00e0s quest\u00f5es da cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Como um sujeito se torna psic\u00f3tico? Por quais caminhos de perda, de fal\u00eancia, de diferen\u00e7a isso se d\u00e1? O que deixa de entrar para que um sujeito adentre em uma das mais diversas formas cl\u00ednicas das psicoses? Por que \u00e9 que, atualmente, a psiquiatria quase n\u00e3o fala mais em psicose? Ocupar-se da quest\u00e3o das psicoses \u00e9, a meu ver, o ponto de partida que marca o primeiro passo do semin\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Mas por que Lacan quis se ocupar dessa quest\u00e3o? Primeiramente, \u00e9 importante dizer que Lacan parte do trabalho de Freud a respeito do livro <em>\u201cMem\u00f3rias de um doente dos nervos\u201d<\/em>, no qual Schreber, um paranoico, percorre as tramas de seu del\u00edrio, escrevendo-o. \u00c9, para Lacan, um livro \u00fanico, decifrado por Freud <em>\u201ccomo se decifram hier\u00f3glifos\u201d<\/em>. A partir da\u00ed o semin\u00e1rio abre um lugar para novas constru\u00e7\u00f5es a respeito das psicoses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lugar&#8230; palavra que me veio por diversas vezes durante esse trabalho. O que \u00e9 que nos pede um paciente psic\u00f3tico quando ele vai at\u00e9 nossas salas de atendimento? E numa institui\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, quais os efeitos desse espa\u00e7o f\u00edsico enquanto um lugar delimitador, um ponto de sustenta\u00e7\u00e3o que freia o surto, servindo de amparo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No semin\u00e1rio sobre as psicoses, Lacan faz refer\u00eancia a psiquiatras cl\u00e1ssicos, como Cl\u00e9rambault. Eu nunca havia ouvido falar no nome do Cl\u00e9rambault, tampouco em automatismo mental, fen\u00f4menos elementares&#8230; Nem mesmo tinha o entendimento da paranoia como uma das formas cl\u00ednicas da psicose. Para o DSM, o termo usado \u00e9 somente esquizofrenia e seus diversos subtipos. De in\u00edcio, encontrando-me com isso, fui tendo a curiosidade de pesquisar acerca de como isso foi se estabelecendo ao longo das classifica\u00e7\u00f5es de diagn\u00f3stico psiqui\u00e1tricas, at\u00e9 chegarmos ao atual DSM-V, no qual o termo psicose desapareceu, assim como a histeria, ou a neurose obsessiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fragmenta\u00e7\u00e3o em incont\u00e1veis transtornos, especificadores, caracterizadores, e os modelos espectrais, onde tudo ganha uma nuance patol\u00f3gica, tomaram conta da forma como se diagnostica em psiquiatria. Um campo inteiro foi deixado de lado. A psicose man\u00edaco-depressiva se transformou em transtorno afetivo bipolar. Fiz essa pesquisa e escrevi, ao longo deste ano, um pequeno texto em que apresento o que fui observando. Foi impactante me dar conta de que a palavra psicose desapareceu das vozes dos psiquiatras. Das vozes e dos livros. Em minha forma\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, em nenhum momento tive not\u00edcia da exist\u00eancia do livro de Daniel Schreber, por exemplo. E que livro rico!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo do Semin\u00e1rio III na verdade \u00e9 <em>\u201cAs estruturas freudianas das psicoses\u201d<\/em> e creio que esse t\u00edtulo realmente condiz com o fato de que realmente parte de uma refer\u00eancia a um trabalho genial do Freud.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan nos diz: <em>\u201cCertamente, n\u00e3o se torna louco quem quer\u201d<\/em>. Como que a psicose se d\u00e1, ent\u00e3o, para um sujeito? Como \u00e9 que ela se estabelece? Por quais vias? Tem a ver com o real, o simb\u00f3lico e o imagin\u00e1rio? Como o psic\u00f3tico habita a ordem simb\u00f3lica? Lacan nos traz a\u00ed a incid\u00eancia da met\u00e1fora paterna e sua opera\u00e7\u00e3o, e dos efeitos da foraclus\u00e3o do Nome-do-pai, apresentando-nos o del\u00edrio como algo que pode ser lido como um fen\u00f4meno verbal e tamb\u00e9m como um fen\u00f4meno elementar. Ao falar do car\u00e1ter central da alucina\u00e7\u00e3o verbal na paranoia, Lacan diz essa bela frase que, por v\u00e1rios momentos, ficou ecoando em meus ouvidos: <em>\u201co sujeito articula o que ele diz ouvir\u201d<\/em>. E nos alerta: a quest\u00e3o do <em>\u201cquem fala? deve dominar toda a quest\u00e3o da paranoia\u201d<\/em>. E chega a um ponto que, para mim, foi um ponto marcante nesse trabalho: <em>\u201co que foi rejeitado do simb\u00f3lico reaparece no real\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse ponto, Lacan nos coloca de encontro com o que se d\u00e1 para o sujeito psic\u00f3tico, com a sua diferen\u00e7a. H\u00e1 no sujeito psic\u00f3tico algo que difere do retorno do recalcado que observamos na neurose. O que n\u00e3o \u00e9 simbolizado retorna no real. Veio-me logo uma lembran\u00e7a da \u00e9poca em que eu dava plant\u00f5es na emerg\u00eancia do Hospital Nina Rodrigues e escutava os pacientes em surto man\u00edaco, gritando bem alto a invas\u00e3o que se dava em seus corpos, corpos sem limites, ampliados, ocupando uma geografia tamb\u00e9m ampliada. Eles se batiam nas paredes, numa logorreia que fala de uma vastid\u00e3o, de um ser grandioso e dotado de uma imensa e incessante energia. Tamb\u00e9m me veio \u00e0 mem\u00f3ria relatos de pacientes que falavam de um corpo acometido por um apodrecimento. <em>\u201cSou um cad\u00e1ver ambulante. Estou todo morto por dentro\u201d<\/em>, disse-me um. <em>\u201cTodas as minhas c\u00e9lulas internas est\u00e3o mortas\u201d<\/em>, disse-me o \u00faltimo paciente que atendi e que falava assim, com seu del\u00edrio, um del\u00edrio de Cotard.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Para Lacan, o psic\u00f3tico fala, portanto, uma l\u00edngua que ele ignora, e a alucina\u00e7\u00e3o vem nos mostrar esse sujeito identificado com o seu eu, esse eu com o qual ele fala. Quando essa alucina\u00e7\u00e3o aparece no real, ela vem dotada de uma certeza, uma certeza inabal\u00e1vel. Nesse momento, esse sujeito psic\u00f3tico fala com o seu eu, literalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Eis o que Lacan nos aponta como sendo o fen\u00f4meno delirante, isso que se imp\u00f5e e que invade. Como n\u00e3o h\u00e1 media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, isso se traduz numa via imagin\u00e1ria, \u00fanico recurso que resta. Lacan, ent\u00e3o, nos traz esse del\u00edrio como algo que pode ser lido, mas que n\u00e3o tem sa\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, qual seria o tratamento poss\u00edvel? Com essa pergunta, busquei as palavras escritas por Lacan no texto <em>\u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d<\/em>. Perguntei-me, de in\u00edcio, qual era essa tal <em>\u201cquest\u00e3o preliminar\u201d<\/em>? Vi que foi um texto escrito pouco tempo depois do Lacan dar o seu semin\u00e1rio das estruturas freudianas das psicoses. Qual seria, afinal, a rela\u00e7\u00e3o entre essa quest\u00e3o preliminar e a possibilidade de um tratamento da psicose atrav\u00e9s da psican\u00e1lise? Que tratamento \u00e9 esse e o que \u00e9 que ele visa? Quais as bases que norteiam a dire\u00e7\u00e3o desse tratamento? S\u00e3o quest\u00f5es que permanecem em aberto. Mas algo faz com que elas estejam em movimento. \u00c9 uma boa inquietude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan aponta o del\u00edrio como um fato de linguagem, sendo o psic\u00f3tico aquele que nos d\u00e1 um testemunho aberto do inconsciente. Na neurose, algo fica a\u00ed velado. E na psicose? Lacan diz que, na psicose, h\u00e1 um impasse inaugural, uma perplexidade, um Outro exclu\u00eddo, afirmado no n\u00edvel do outro. <em>\u201cA\u00ed que se passam os fen\u00f4menos de entre-eu que constituem o que \u00e9 aparente na sintomatologia da psicose\u201d<\/em>. Logo, me pergunto: seria essa sintomatologia um modo com o qual o sujeito reage a esse impasse, ou seja, um modo de tentar uma restitui\u00e7\u00e3o? O del\u00edrio \u00e9, portanto, uma tentativa de cura? <em>\u201cO psic\u00f3tico est\u00e1 unido ao seu del\u00edrio como algo que \u00e9 ele pr\u00f3prio\u201d<\/em>, diz Lacan. Assim, uma pr\u00e1tica psiqui\u00e1trica que visa exterminar o del\u00edrio, faz o que com o sujeito delirante? \u00c9 uma pr\u00e1tica cada vez mais excessiva em quantidade de rem\u00e9dios. O que esses rem\u00e9dios remediam quando se apoia uma pr\u00e1tica de emudecimento da fala delirante? Que sil\u00eancio n\u00e3o deve desaparecer e que n\u00e3o est\u00e1 restrito \u00e0s p\u00e1ginas do DSM-V? N\u00e3o haver quase nenhuma palavra \u201cpsicose\u201d em meio a tantas p\u00e1ginas desse manual de in\u00fameras patologias \u00e9 algo que tem uma raz\u00e3o de estar assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pergunto-me ainda o porqu\u00ea do interesse de Lacan pelas paranoias, em especial. Por que ele parte dela? A paranoia para Lacan \u00e9 a mesma defini\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de paranoia que Kraepelin traz? Que diferen\u00e7as a paranoia apresenta em rela\u00e7\u00e3o a outras psicoses? Quais as outras psicoses que a psican\u00e1lise considera como parte desse campo? Sinto-me curioso para estudar os meandros que distinguem, para a cl\u00ednica psicanal\u00edtica, essas formas de um sujeito estar na psicose. Lembrei-me de um texto que li do psiquiatra e psicanalista Marcel Czermak, em que ele escreve: <em>\u201cos psic\u00f3ticos manifestam para n\u00f3s a c\u00e9u aberto o que os neur\u00f3ticos manifestam de modo velado. Em outros termos, se quisermos saber o que se trata para um neur\u00f3tico, basta escutar um psic\u00f3tico\u201d<\/em>. Essa frase fez com que eu me encontrasse com o fato de que o estudo das psicoses pode nos abrir para diversas elabora\u00e7\u00f5es e do quanto isso tem repercuss\u00e3o no dia-a-dia de nossa cl\u00ednica. H\u00e1, para o psic\u00f3tico, uma luta, a luta que ele trava utilizando-se do seu del\u00edrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0O campo das psicoses seria, portanto, esse campo onde o del\u00edrio se d\u00e1 como um modo de reconstru\u00e7\u00e3o? O del\u00edrio enquanto luta, enquanto algo poss\u00edvel de ser escutado. E lido. \u00c9, o campo das psicoses \u00e9 realmente um material de estudo muito desafiador. Sua diferen\u00e7a traz uma outra incid\u00eancia. As psicoses testemunham a outra cena de um modo \u00fanico. Assim, descoberto.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Texto escrito para a Jornada da <em>Oficina da Cl\u00ednica das Psicoses<\/em>, realizada em setembro de 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo desse tempo dedicado ao semin\u00e1rio de Jacques Lacan sobre as estruturas freudianas das psicoses, v\u00e1rios pontos me vieram, concernentes tanto ao campo da psiquiatria quanto ao da psican\u00e1lise, sobretudo no que tange \u00e0s quest\u00f5es da cl\u00ednica. \u00a0Como um sujeito se torna psic\u00f3tico? Por quais caminhos de perda, de fal\u00eancia, de diferen\u00e7a isso se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[12],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/406"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=406"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/406\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":584,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/406\/revisions\/584"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=406"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=406"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=406"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}