{"id":410,"date":"2021-12-20T11:34:02","date_gmt":"2021-12-20T11:34:02","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=410"},"modified":"2022-08-21T23:19:22","modified_gmt":"2022-08-21T23:19:22","slug":"o-buraco-do-sentido-e-o-ponto-que-nos-basta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/20\/o-buraco-do-sentido-e-o-ponto-que-nos-basta\/","title":{"rendered":"O buraco do sentido e o ponto que nos basta\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A interroga\u00e7\u00e3o principal que p\u00f5e este texto em movimento, e frente \u00e0 qual eu procuro minimamente articular um encaminhamento, \u00e9 o que a no\u00e7\u00e3o de ponto de basta, apresentada por Lacan no cap\u00edtulo XXI do Semin\u00e1rio III, pode esclarecer sobre a cl\u00ednica das psicoses. Sobre quais pontos ela pode nos instruir no que tange \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do tratamento poss\u00edvel junto a essa estrutura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que Lacan vem chamar de entrada na psicose, ele situa entre dois planos ilustrados pelo del\u00edrio schreberiano. De um lado, isso que \u00e9 da ordem do sentido e que parece recuar para cada vez mais longe conforme a <em>\u201creconstru\u00e7\u00e3o no plano imagin\u00e1rio\u201d<\/em>. Um sentido que ao mesmo tempo em que \u00e9 pleno, se oculta <em>\u201caspirando o sujeito\u201d<\/em> ao umbigo do fen\u00f4meno delirante. O umbigo, tal como Freud o postula a prop\u00f3sito dos sonhos, assinala o fato de que seu sentido acaba em um buraco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, por outro lado, o que seria a vertente do significante, marcada n\u00e3o por sua significa\u00e7\u00e3o, mas por sua signific\u00e2ncia. O que a mim soa como esse outro plano em que o significante seria entrevisto, surpreendido nele mesmo, em sua densidade, tomado n\u00e3o pelo que ele significa, mas como sendo o pr\u00f3prio suporte do que pode vir a se significar. Para Schreber s\u00e3o as vozes dos p\u00e1ssaros, o <em>\u201cdiscurso das meninas\u201d<\/em>, no qual o significado \u00e9 vazio e assume o primeiro plano as qualidades formais do significante. \u00c9 nessa dire\u00e7\u00e3o que vai o seu del\u00edrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao passo que o neur\u00f3tico habita a linguagem, o psic\u00f3tico \u00e9 antes<em> \u201chabitado, possu\u00eddo pela linguagem\u201d <\/em>(p.292). N\u00e3o que o neur\u00f3tico n\u00e3o seja tamb\u00e9m por ela habitado. Afinal, o automatismo mental, sob certas condi\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m se faz ouvir nele. Lacan o assinala evocando as observa\u00e7\u00f5es de Cl\u00e9rambault.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se passa na neurose, todavia, \u00e9 que nessa linguagem que o habita, o sujeito faz sua inscri\u00e7\u00e3o. Submete-se, pela castra\u00e7\u00e3o, a um lugar que lhe \u00e9 dado na ordem significante, um lugar de divis\u00e3o, de perda.\u00a0 Habita, ent\u00e3o, aquilo pelo qual \u00e9 habitado. \u00c9 uma ideia pr\u00f3xima daquela que ir\u00e1 reaparecer no pensamento lacaniano sobre um centro que seria ao mesmo tempo exterior. Uma ideia pouco usual nas representa\u00e7\u00f5es espaciais que nos v\u00eam mais imediatamente. N\u00e3o \u00e9 por acaso que da\u00ed ele vai para a no\u00e7\u00e3o de ponto de basta, segundo suas palavras, um artif\u00edcio espacializante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 algo na rela\u00e7\u00e3o do doente com a linguagem pela qual \u00e9 habitado que parece sofrer uma transforma\u00e7\u00e3o no trabalho do del\u00edrio. Uma vez que a\u00ed n\u00e3o h\u00e1 essa opera\u00e7\u00e3o pela qual ele pode tomar seu lugar na linguagem &#8211; que ainda sim o habita, fala nele \u2013 s\u00f3 podemos vislumbrar algo do Outro a partir de um certo modo que aqui \u00e9 chamado de alus\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cOs fen\u00f4menos falados alucinat\u00f3rios que t\u00eam para o sujeito um sentido no registro da interpela\u00e7\u00e3o, da ironia, do desafio, da alus\u00e3o, fazem sempre alus\u00e3o ao Outro com um A mai\u00fasculo, como a um termo que est\u00e1 sempre presente, mas jamais visto e jamais nomeado, a n\u00e3o ser de maneira indireta\u201d<\/em> (p.299).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa rela\u00e7\u00e3o de alus\u00e3o \u00e9 que est\u00e1 em cena nesse plano do significante na psicose: \u00e9 de modo indireto, de vi\u00e9s, pelo del\u00edrio e no del\u00edrio que ele pode passar a\u00ed. A rela\u00e7\u00e3o com o significante, na qual <em>\u201cele se demora apenas numa casca, num inv\u00f3lucro, numa sombra\u201d <\/em>(p.297) \u00e9 toda a possibilidade para ele de apreens\u00e3o do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Lacan diz que se ver assim, um pouco de \u201ctrav\u00e9s\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao significante, \u00e9, ao mesmo tempo, a desvantagem e o privil\u00e9gio da psicose. Quem sabe \u00e9 por n\u00e3o estar tomado no jogo do significante &#8211; o que, claro, lhe custa o sofrimento atroz que testemunhamos em suas mem\u00f3rias \u2013 que Schreber possui essa perspic\u00e1cia que espanta Freud na semelhan\u00e7a de seu del\u00edrio com o que ele t\u00e3o laboriosamente chegou em sua teoriza\u00e7\u00e3o sobre o funcionamento do aparelho ps\u00edquico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, \u00e9 pela tens\u00e3o entre duas vertentes, a do significado e a do significante, que Lacan aborda o que seria o ponto de basta, aquilo que viria fazer um ponto de parada no deslizamento incessante de um sob o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No semin\u00e1rio, Lacan passa por <em>At\u00e1lia<\/em>, obra de Jean Racine na qual destaca de um di\u00e1logo entre dois personagens o significante <em>Temor a Deus<\/em>.\u00a0 Significante que teria o m\u00e9rito de vir substituir todos os <em>\u201cterrores m\u00faltiplos\u201d<\/em> por um \u00fanico temor que n\u00e3o \u00e9 temor nenhum. Antes, \u00e9 seu contr\u00e1rio. Quando se fala de ser temente a Deus n\u00e3o \u00e9 de temor que se trata.\u00a0 Nessa nuance, assim parece, Lacan apoia a ideia de que todo o enredo da obra, anterior e posterior, se organizaria em rela\u00e7\u00e3o a esse ponto. Um significante que teria por efeito sustentar a a\u00e7\u00e3o do personagem, dando-lhe a coragem necess\u00e1ria para fazer o que lhe cabia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim das contas, \u00e9 \u00e0 no\u00e7\u00e3o do pai que Lacan se refere a essa altura, afirmando-a como muito pr\u00f3xima da de<em> Temor a Deus<\/em>, ao menos no que ele divisa essa no\u00e7\u00e3o do pai como o n\u00f3 que Freud reencontra por toda parte, o ponto de basta entre significante e significado. O <em>Temor a Deus<\/em> serve para lev\u00e1-lo a questionar essa fun\u00e7\u00e3o onde Freud reconhece o n\u00f3 do \u00c9dipo. \u00c9 o termo imprescind\u00edvel para instala\u00e7\u00e3o de uma m\u00ednima estabilidade no plano da significa\u00e7\u00e3o: uma met\u00e1fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O psic\u00f3tico n\u00e3o faz met\u00e1fora. Ainda que o fa\u00e7a, falta esta, fundante, a met\u00e1fora capaz de produzir uma ordena\u00e7\u00e3o na massa amorfa da significa\u00e7\u00e3o pela interven\u00e7\u00e3o do significante pai. Mais \u00e0 frente, Lacan diz: <em>\u201cn\u00e3o \u00e9 de um tri\u00e2ngulo pai-m\u00e3e-crian\u00e7a de que se trata, \u00e9 um tri\u00e2ngulo (pai) &#8211; falo- m\u00e3e &#8211; crian\u00e7a. Onde estar\u00e1 o pai ali dentro? Ele est\u00e1 no anel que faz manter-se tudo junto\u201d<\/em> (p.368).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O falo \u00e9 a media\u00e7\u00e3o de nossa rela\u00e7\u00e3o com a falta, metamorfoseando-a em perda.\u00a0 O que se ganha a\u00ed? Talvez a delimita\u00e7\u00e3o disso que nos acossa, polarizando as significa\u00e7\u00f5es e dando um lugar um pouco menos vulner\u00e1vel ao abismo das quest\u00f5es sem resposta, ao buraco para onde o sentido aspira o sujeito. A entrada na ordem significante que faz do sujeito o material impalp\u00e1vel desse corte entre o que o vem representar e o para quem ele vem ser representado &#8211;\u00a0 o que n\u00e3o pode ser sen\u00e3o outro significante &#8211; ao mesmo tempo o coloca ao abrigo diante desse Outro absoluto para quem ele n\u00e3o pode ter outra posi\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o a de objeto a ser aspirado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0O que pode vir ent\u00e3o barrar o psic\u00f3tico nessa dire\u00e7\u00e3o quando pelo significante ele n\u00e3o se encontra barrado? Na falta de um significante que possa marcar a falta de um significante no Outro, quando o ponto de basta n\u00e3o se faz ou se afrouxa, o que est\u00e1 em responsabilidade do analista que toma um caso de psicose em tratamento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso que foi a ideia de que, diante de um caso de psicose, caberia ao analista \u201cmurar\u201d, criar alguma \u201cconten\u00e7\u00e3o\u201d que prendeu minha aten\u00e7\u00e3o em como Lacan formula o ponto de basta nessa altura de seu semin\u00e1rio.\u00a0 O que poderia vir em lugar disso que n\u00e3o tem lugar? Talvez n\u00e3o tenha sido \u00e0 toa que a palavra conten\u00e7\u00e3o tenha me ocorrido. O que cont\u00e9m e no que \u00e9 contido cada um?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tratar\u00edamos, ent\u00e3o, menos de cortar do que de \u201cbastar\u201d com o significante? Que esp\u00e9cie de interven\u00e7\u00e3o \u00e9 essa que se realiza com um certo modo de operar com a fala, j\u00e1 que, de toda forma, \u00e9 de uma perturba\u00e7\u00e3o na ordem da linguagem que se trata?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o est\u00e1 no prop\u00f3sito, nem no poder da an\u00e1lise introduzir quem quer que seja \u00e0 ordena\u00e7\u00e3o f\u00e1lica de seu funcionamento, o que eu tendo a pensar sobre o que se passa no tratamento \u00e9 que, uma vez que \u00e9 como submetido ao que escuta do Outro, marcado pela Lei do desejo que o analista interv\u00e9m, isso deixa marcas, m\u00ednimos pontos de refer\u00eancia no discurso daquele que se p\u00f5e a falar. Isto \u00e9, na falta de pontos de basta, pelo tratamento, a presen\u00e7a do analista pode forjar balizas m\u00ednimas para um discurso marcado pela prolifera\u00e7\u00e3o desenfreada no n\u00edvel da significa\u00e7\u00e3o.\u00a0 Favorecer pelo di\u00e1logo peculiar em que consiste a an\u00e1lise o trabalho do del\u00edrio seria a forma poss\u00edvel de dar um lugar ao que subjetivamente encontra-se desabrigado quando da entrada na psicose?<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Texto escrito para a Jornada da <em>Oficina da Cl\u00ednica das Psicoses<\/em>, realizada em setembro de 2021.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A interroga\u00e7\u00e3o principal que p\u00f5e este texto em movimento, e frente \u00e0 qual eu procuro minimamente articular um encaminhamento, \u00e9 o que a no\u00e7\u00e3o de ponto de basta, apresentada por Lacan no cap\u00edtulo XXI do Semin\u00e1rio III, pode esclarecer sobre a cl\u00ednica das psicoses. 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