{"id":412,"date":"2021-12-20T15:05:49","date_gmt":"2021-12-20T15:05:49","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=412"},"modified":"2022-08-21T23:18:12","modified_gmt":"2022-08-21T23:18:12","slug":"o-insignificante-cavalo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/20\/o-insignificante-cavalo\/","title":{"rendered":"O insignificante \u201ccavalo\u201d\u00a0\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Lacan nos diz, em um determinado momento do trabalho, incans\u00e1vel, com o tema da fobia no Semin\u00e1rio IV, que a primeira roupagem que toma a fobia \u00e9 o temor de ser devorado pela m\u00e3e, e que qualquer cavalo que for objeto de uma fobia \u00e9 de um cavalo que morde que se trata, introduzindo assim o tema da devora\u00e7\u00e3o; e acrescenta que o tema da devora\u00e7\u00e3o, com tudo o que ele comporta de real, est\u00e1, sempre, por qualquer vi\u00e9s que o abordemos, presente e identific\u00e1vel na estrutura da fobia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o podemos avan\u00e7ar no trabalho com a fobia sem abordar o significante. No caso de Hans, Lacan o ressalta bem, <em>\u201c\u00e9 pouco tempo depois da apari\u00e7\u00e3o do sinal difuso da ang\u00fastia que o cavalo vai entrar em fun\u00e7\u00e3o e \u00e9 pelo desenvolvimento dessa fun\u00e7\u00e3o, por tudo que vai acontecer, por tudo que se vai fazer com o cavalo, seguindo o significante cavalo, a todo instante, e at\u00e9 o fim, que podemos chegar a compreender o que aconteceu, qual \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o desse significante cavalo\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hans nos diz a todo instante que foi <em>\u201cpor causa do cavalo\u201d<\/em> que ele pegou a bobagem, ele evoca essa ladainha o tempo todo e Freud, nos diz Lacan, n\u00e3o pode deixar de apontar que uma associa\u00e7\u00e3o de palavras pode ser feita entre <em>w\u00e4gen<\/em>, o plural de<em> wagen <\/em>que significa carro em alem\u00e3o e <em>wegen, <\/em>locu\u00e7\u00e3o prepositiv<em>a <\/em>que significa <em>\u201cpor causa de\u201d<\/em>, e dizer que \u00e9 assim que o inconsciente funciona: <em>o cavalo arrasta o carro <\/em>exatamente da mesma maneira que a palavra <em>wegen <\/em>arrasta atr\u00e1s de si essa alguma coisa que n\u00e3o \u00e9 nem mesmo um porqu\u00ea.\u00a0 Hans diz: <em>\u201cWegen dem pferd (por causa do cavalo) eu peguei a bobagem\u201d<\/em>. Para Lacan, esse \u00e9 o ponto exato onde surge a fobia, atrav\u00e9s de um processo t\u00edpico, cl\u00e1ssico: a meton\u00edmia, ou seja, o peso do sentido desse <em>wegen, <\/em>que fica inteiramente velado, \u00e9 transferido para aquilo que vem logo em seguida: <em>dem pferd<\/em> (do cavalo), e \u00e9 por isso que o termo \u201ccavalo\u201d vai assumir um valor articulat\u00f3rio, e \u00e9 nesse momento que ele toma para si todas as esperan\u00e7as de solu\u00e7\u00e3o. Hans, nesse momento, est\u00e1 se debatendo com alguma coisa que n\u00e3o \u00e9 nem mesmo um porqu\u00ea, <em>\u201cpois para al\u00e9m do ponto onde as regras do jogo s\u00e3o respeitadas, n\u00e3o haver\u00e1 mais do que confus\u00e3o, n\u00e3o haver\u00e1 mais do que a falta de ser\u201d<\/em>. Na falta de um porqu\u00ea interrogativo, que pergunta, interroga, o que poderia trazer uma possibilidade simb\u00f3lica, uma \u201cresposta simb\u00f3lica\u201d, Hans introduz um porqu\u00ea explicativo &#8211; o seu porqu\u00ea explicativo &#8211; para tentar responder, mas esse porqu\u00ea explicativo n\u00e3o responde a nada, j\u00e1 que ele se apresenta sob forma de um puro e simples <em>x<\/em> que \u00e9 o cavalo. Freud considera que o termo \u201c<em>por causa de<\/em>\u201d abriu o caminho para a extens\u00e3o da fobia dos cavalos, para os carros e Lacan nos diz que toda hi\u00e2ncia da situa\u00e7\u00e3o de Hans, nesse momento, vai ficar ligada a essa transfer\u00eancia gramatical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 v\u00e1rias passagens em que Lacan fala das vicissitudes da opera\u00e7\u00e3o significante. Quando ele apresenta, por exemplo, o esquema da zona da rede ferrovi\u00e1ria cont\u00edgua \u00e0 rua onde est\u00e1 o conjunto de casas, dentre as quais est\u00e1 a casa da fam\u00edlia de Hans; isso est\u00e1 no caso, exposto por Freud, mas Lacan o explora de tal maneira que fica claro que abordando essa rede f\u00e9rrea, esses trilhamentos e cruzamentos de vias f\u00e9rreas, ele est\u00e1 evocando, ele est\u00e1 nos convocando a trilhar pela via do significante. H\u00e1 um momento, quase po\u00e9tico, em que Lacan diz: <em>\u201cO pequeno Hans vai partir com os cavalos, e a prancha de descarregamento vai se afastar, e ele vai voltar a confluir \u2013 o que \u00e9 muito desejado ou por demais temido, quem sabe? &#8211; com sua mam\u00e3e\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma fantasia que \u00e9 chamada de <em>a cena do cais<\/em>. Nessa fantasia, Hans pensou que estava partindo de Lainz com a av\u00f3, a m\u00e3e do pai de Hans, que este ia visitar religiosamente aos domingos. A <em>Lainzoense,<\/em> como o pequeno Hans a chamava, deveria embarcar com eles no trem, mas o pai n\u00e3o conseguiu descer a passarela a tempo, e Hans e a av\u00f3 partiram sem ele. O pequeno Hans relata que ele chega a tempo de tomar o segundo trem com seu pai. Como o pequeno Hans, que j\u00e1 tinha partido, voltou? Eis a\u00ed o impasse. Trata-se de um impasse que ningu\u00e9m conseguiu elucidar, mas o pai de Hans se faz essas perguntas. No relato do caso, essa passagem leva umas doze linhas aproximadamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltemos ao cavalo. Lacan nos diz que o significante cavalo, quando \u00e9 introduzido como ponto central da fobia, introduz um novo termo que tem como propriedade, primeiramente, ser \u201c<em>um significante obscuro\u201d. <\/em>Ao designar o cavalo como <em>un signifiant obscur <\/em>(um significante obscuro) Lacan associa pela asson\u00e2ncia manifesta esse <em>un signifiant <\/em>(um significante) \u00e0 palavra <em>insignifiant <\/em>(insignificante, em portugu\u00eas). \u00c9 por assumir a fun\u00e7\u00e3o mais profunda do significante, qual seja: o significante \u00e9 aquilo que n\u00e3o significa nada, que o significante cavalo vai poder desempenhar o papel dessa l\u00e2mina que vai fender de uma nova maneira o real. \u00c9 esse insignificante que arrasta o porqu\u00ea de Hans que n\u00e3o responde a nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa rela\u00e7\u00e3o em que Hans est\u00e1 \u00e0 merc\u00ea do jogo imagin\u00e1rio com sua m\u00e3e, oferecendo-se como falo para ela, sua entrada no complexo de \u00c9dipo vai se dar por uma rivalidade, Lacan nos diz, quase fraterna com o pai, trata-se de uma rivalidade do tipo especular, imagin\u00e1ria, ou eu ou o outro, e a fixa\u00e7\u00e3o permanece naquela que se tornou o objeto real ap\u00f3s as primeiras frustra\u00e7\u00f5es, ou seja, a m\u00e3e. O pai est\u00e1 impossibilitado de responder que o falo, o p\u00eanis real, \u00e9 ele quem o tem. Ele n\u00e3o tem como introduzir esse elemento real na ordem simb\u00f3lica, ordem simb\u00f3lica esta que foi introduzida pela m\u00e3e, no real, com sua presen\u00e7a e sua aus\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00c9dipo se resolve de alguma maneira, nos diz Freud, e, ao final do complexo de \u00c9dipo, entre a idade de cinco anos e cinco anos e meio, h\u00e1 a forma\u00e7\u00e3o de algo bem particular, trata-se de um n\u00facleo que vai herdar o legado do complexo, o superego, e \u00e9 aqui que somos confrontados com a necessidade de fazer surgir algo de novo, e que traz sua solu\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria \u00e0 rela\u00e7\u00e3o edipiana. A lei n\u00e3o \u00e9 mais apenas aquilo que permite que a comunidade dos homens esteja nela implicada e seja por ela introduzida. A lei assume uma via real, sob a forma desse n\u00facleo deixado pelo complexo de \u00c9dipo, trata-se de um n\u00facleo de consci\u00eancia moral. E, em cada indiv\u00edduo, esse n\u00facleo \u00e9 encarnado sob as mais estramb\u00f3licas, as mais caricatas, mais variadas formas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que isso \u00e9 assim? Por que o superego vai se manifestar, se apresentar assim? Porque isso vai se estruturar no n\u00edvel do <em>Es<\/em>, atrav\u00e9s de um acidente, de uma forma acidental, em que n\u00e3o se sabe em que momento do jogo imagin\u00e1rio se deu essa passagem, em que momento o pai, que esteve ali para responder, introduziu no n\u00edvel do <em>Es<\/em>, como mais um elemento, como os outros elementos libidinais, o superego tir\u00e2nico e que representa, inclusive nos n\u00e3o-neur\u00f3ticos, a fun\u00e7\u00e3o de ser o significante que imprime no homem sua rela\u00e7\u00e3o com o significado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>A significa\u00e7\u00e3o do falo<\/em>, Lacan escreve que o falo \u00e9 o significante da falta de significante e que<em> \u201c\u00e9 o significante destinado a designar em seu conjunto os efeitos de significado, na medida em que o significante os condiciona por sua presen\u00e7a de significante\u201d<\/em>. O falo \u00e9 esse significante que liga significante e significado. Ele \u00e9 esse significante at\u00edpico que n\u00e3o remete a nenhum outro significante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que tange \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de ser o significante que imprime no homem os efeitos de significado, h\u00e1 evidente coincid\u00eancia entre fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica e fun\u00e7\u00e3o superegoica nessa passagem do Semin\u00e1rio IV. Pergunto-me se, na fobia, diante dos impasses com a quest\u00e3o f\u00e1lica, com o falo, o sujeito, ao assumir uma met\u00e1fora f\u00f3bica, n\u00e3o est\u00e1 sendo guiado, for\u00e7ado pelo superego a se sustentar nessa met\u00e1fora f\u00f3bica pela impossibilidade de aceder \u00e0 fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na impossibilidade de transmiss\u00e3o, pelo pai, desse elemento real em sua vertente real, momento em que se daria a introdu\u00e7\u00e3o do sujeito infans no campo do desejo, pela via da castra\u00e7\u00e3o, h\u00e1 falha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Lei se reduz inteirinha a algo que n\u00e3o se pode nem mesmo expressar, como o <em>\u201ctu tens que\u201d<\/em>, que \u00e9 uma fala privada de todos os seus sentidos. O superego \u00e9 um imperativo insensato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 que podemos dizer que a fobia seria ent\u00e3o uma articula\u00e7\u00e3o entre o real da diferen\u00e7a sexual e essa lei imperativa e tir\u00e2nica que, pela via do gozo, ele tamb\u00e9m real, for\u00e7a o sujeito a repetir no sintoma esse comando superegoico?<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*Texto escrito para a Jornada do dispositivo <em>Trabalho de leitura do Semin\u00e1rio IV<\/em>, realizada em Outubro de 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lacan nos diz, em um determinado momento do trabalho, incans\u00e1vel, com o tema da fobia no Semin\u00e1rio IV, que a primeira roupagem que toma a fobia \u00e9 o temor de ser devorado pela m\u00e3e, e que qualquer cavalo que for objeto de uma fobia \u00e9 de um cavalo que morde que se trata, introduzindo assim [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[12],"tags":[49,48,47,50],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/412"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=412"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/412\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":581,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/412\/revisions\/581"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=412"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=412"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=412"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}