{"id":414,"date":"2021-12-20T12:20:24","date_gmt":"2021-12-20T12:20:24","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=414"},"modified":"2022-08-21T23:19:02","modified_gmt":"2022-08-21T23:19:02","slug":"notas-sobre-o-caso-do-pequeno-hans-e-a-analise-estrutural-do-mito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/20\/notas-sobre-o-caso-do-pequeno-hans-e-a-analise-estrutural-do-mito\/","title":{"rendered":"Notas sobre o caso do pequeno Hans e a an\u00e1lise estrutural do mito"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Escrevi um primeiro texto a partir da leitura e trabalho com o Semin\u00e1rio IV, coordenado por M\u00e1rcia Teresa. Este se referiu \u00e0 parte inicial do Semin\u00e1rio. Agora, espero poder trazer algo da parte que se refere \u00e0 estrutura dos mitos na observa\u00e7\u00e3o da fobia do pequeno Hans.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando do retorno de M\u00e1rcia do Semin\u00e1rio de Ver\u00e3o da ALI (Association Lacanienne Internationale), que trabalhou o Semin\u00e1rio IV, creio que em agosto de 2019, ficou decidido que o trabalho seguiria at\u00e9 o final do Livro IV. Ent\u00e3o, este fim chegou e embora n\u00e3o tenha participado do \u00faltimo encontro, considerei importante escrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e1rcia trouxe uma quest\u00e3o relativa ao uso que Lacan fez da f\u00f3rmula, melhor dizendo da \u201crela\u00e7\u00e3o can\u00f4nica\u201d \u2014 de F\u00e9lix C\u00e2non\u2014 apresentada por L\u00e9vi-Strauss no texto \u201cA Estrutura dos mitos\u201d (p.246).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre esta f\u00f3rmula, L\u00e9vi-Strauss nos diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 200px;\">Quaisquer que sejam os ajustes e modifica\u00e7\u00f5es a serem feitos na f\u00f3rmula abaixo, parece desde j\u00e1 estabelecido que todo mito (considerado como o conjunto de suas variantes) \u00e9 pass\u00edvel de redu\u00e7\u00e3o a uma rela\u00e7\u00e3o can\u00f4nica do tipo:<\/p>\n<p style=\"text-align: center; padding-left: 240px;\">F<sub>x<\/sub>(a) : F<sub>y<\/sub>(b) \u2243 F<sub>x<\/sub>(b) : F<sub>a-1<\/sub> (y)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 200px;\">Na qual, dados simultaneamente dois termos, <u>a<\/u> e <u>b<\/u>, e duas fun\u00e7\u00f5es, <u>x<\/u> e <u>y<\/u>, de tais termos, postula-se que existe uma rela\u00e7\u00e3o de equival\u00eancia entre duas situa\u00e7\u00f5es, definidas por uma invers\u00e3o entre termos e rela\u00e7\u00f5es, com duas condi\u00e7\u00f5es: 1. que um dos termos seja substitu\u00eddo por seu contr\u00e1rio (na express\u00e3o acima <u>a<\/u> e <u>a -1<\/u>) e 2. que uma invers\u00e3o correlativa se produza entre o <u>valor de fun\u00e7\u00e3o <\/u>e o <u>valor de termo<\/u> de dois elementos (acima <u>y<\/u> e <u>a<\/u>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho importante observar que a no\u00e7\u00e3o de termo (<u>a<\/u> e <u>b<\/u>) vai designar geralmente um personagem, um animal, um objeto material ou c\u00f3smico, e a no\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00e3o (F<sub>x <\/sub>e<u> F<sub>y<\/sub><\/u>) recobre, habitualmente, seja um atributo (uma caracter\u00edstica) do termo <u>a <\/u>e <u>b<\/u>, seja uma a\u00e7\u00e3o que este termo pode realizar. No Semin\u00e1rio, Lacan vai se servir de termos, elementos e fun\u00e7\u00f5es destacados por Freud no caso do pequeno Hans.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu continuei minhas pesquisas e indico como leitura complementar, do mesmo autor, o livro <em>\u201cA Oleira Ciumenta\u201d<\/em>, em especial os cap\u00edtulos: <em>\u201cDemiurgos Californianos\u201d<\/em> e <em>\u201cMitos em Garrafa de Klein\u201d<\/em>. Tamb\u00e9m recomendo a nota 71 do Semin\u00e1rio IV, da ALI, que gentilmente Periandro traduziu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que importa para mim \u00e9 perceber, estudar como Lacan se serve desta ferramenta para debru\u00e7ar-se sobre o caso do pequeno Hans. Retomo a ideia de aplicar a an\u00e1lise da estrutura dos mitos na observa\u00e7\u00e3o da fobia do pequeno Hans.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma primeira pergunta \u00e9 sobre essa aplicabilidade. Ser\u00e1 que \u00e9 sempre poss\u00edvel observar o caso cl\u00ednico de uma crian\u00e7a considerando a estrutura dos mitos? N\u00e3o creio, acho pouco prov\u00e1vel. Mas, vou tentar articular essa ideia. Importante lembrar que Lacan tinha em m\u00e3os o texto de Freud, que por sua vez \u00e9 a leitura de Freud do que o pai de Hans recolheu em suas observa\u00e7\u00f5es quanto ao filho. Filigranas. Freud soube ler. Creio que era um material bastante rico, mas n\u00e3o bastava isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Proponho uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o da pergunta que formulei. A express\u00e3o de Lacan, ao considerar as narrativas de Hans como sua mitologia, abre ao menos duas hip\u00f3teses. De um lado, nos perguntamos: mitologia? Mas n\u00e3o se trata de um mito individual? Para adiantar, podemos formular: na impossibilidade de estar referido ao mito de \u00c9dipo, ou de se situar no mito individual do neur\u00f3tico, Hans constr\u00f3i sua mitologia, em supl\u00eancia. Ent\u00e3o, seria na tentativa de se situar simbolicamente quanto a esse mito que Hans produziu uma mitologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan, sobre a an\u00e1lise do mito na p\u00e1gina 366, diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 200px;\">A sucess\u00e3o de fantasias do pequeno Hans deve ser, realmente, concebida como um mito em desenvolvimento, um discurso. N\u00e3o se trata de outra coisa, na observa\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o de uma s\u00e9rie de reinven\u00e7\u00f5es desse mito com aux\u00edlio de elementos imagin\u00e1rios. Trata-se de compreender a fun\u00e7\u00e3o desse progresso rotativo, dessas sucessivas transforma\u00e7\u00f5es do mito, e daquilo que, num n\u00edvel profundo, representa para Hans a solu\u00e7\u00e3o do problema, o de sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o na exist\u00eancia, na medida em que ela deve se situar com rela\u00e7\u00e3o a uma certa verdade, a um certo n\u00famero de refer\u00eancias de verdade, nas quais ele deve tomar seu lugar (p.366).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto a esse ponto, posso dizer que h\u00e1 uma intensa produ\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, de fantasias, na tentativa de fazer essa supl\u00eancia ao Nome-do-Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, me pergunto sobre a produ\u00e7\u00e3o da fobia. Eu n\u00e3o estou separando essas coisas, mas fazendo a segunda interroga\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que o caso Hans foi como foi, mas \u00e9 leg\u00edtimo perguntar pela fantasia e pelo sintoma. A fobia permitiu construir toda mitologia em torno do cavalo. Mas, eu diria que o endere\u00e7amento dessa mitologia permitiu uma simboliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tanto que o pequeno Hans ficasse deslizando metonimicamente, mas que fosse poss\u00edvel alguma met\u00e1fora em supl\u00eancia ao Nome-do-Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 200px;\">[\u2026] no desenvolvimento m\u00edtico de um sistema significante sintom\u00e1tico, devemos sempre considerar ao mesmo tempo sua coer\u00eancia sistem\u00e1tica a cada momento, e o tipo de desenvolvimento pr\u00f3prio que \u00e9 o seu na diacronia. O desenvolvimento no neur\u00f3tico de um sistema m\u00edtico qualquer \u2014 o que chamei outrora do mito individual do neur\u00f3tico \u2014 se apresenta como a sa\u00edda, o desencaixe progressivo de uma s\u00e9rie de media\u00e7\u00f5es ligadas por um encadeamento significante cujo car\u00e1ter \u00e9 fundamentalmente circular. O ponto de chegada tem uma rela\u00e7\u00e3o profunda com o ponto de partida, sem ser todavia o mesmo. O impasse, qualquer que seja, que \u00e9 sempre contido na partida, se reencontra no ponto de chegada sob uma forma invertida, para ser considerado como a solu\u00e7\u00e3o, com a diferen\u00e7a de uma mudan\u00e7a de sinal. O impasse de que se partiu se reencontra sempre sob algum modo, ao fim do deslocamento operat\u00f3rio do sistema significante (p.306-307).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, Lacan vai ensinando-nos como podemos utilizar essa ferramenta da an\u00e1lise estrutural dos mitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo at\u00e9 o fim do Semin\u00e1rio, vemos Lacan fazer refer\u00eancia ao cavalo, \u00e0 mordida e \u00e0 queda do cavalo, como momentos em que Hans explicita o in\u00edcio da <em>\u201cbobagem\u201d<\/em>. S\u00e3o significantes relativos \u00e0 castra\u00e7\u00e3o. Diria, relativos \u00e0 castra\u00e7\u00e3o do Outro, grande Outro. Sendo esta a pr\u00f3pria opera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da castra\u00e7\u00e3o, cujo objeto \u00e9 o falo. Imagin\u00e1rio, mas que necessita do pai real como agente. O resumo, a simplifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o ajuda muito. Mas, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o caso de repetir aqui a formula\u00e7\u00e3o de Lacan sobre a met\u00e1fora em sua integralidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Li\u00e7\u00e3o XXII, vamos encontrar toda essa formaliza\u00e7\u00e3o \u2014 uma equa\u00e7\u00e3o \u2014 que situa os termos da simboliza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel a Hans do complexo de castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cavalo \u00e9 o elemento piv\u00f4! Ele morde e amea\u00e7a o p\u00eanis, e tamb\u00e9m cai. Gostaria de finalizar este texto, retomando a fun\u00e7\u00e3o do mito segundo Lacan. Para ele um mito \u00e9 sempre uma tentativa de articular a solu\u00e7\u00e3o de um problema (p.300). Apresenta-se como uma narrativa e, no seu conjunto, possui um car\u00e1ter de fic\u00e7\u00e3o. A fic\u00e7\u00e3o sugere <em>\u201cinvariavelmente a no\u00e7\u00e3o de uma estrutura\u201d<\/em>, mas <em>\u201cigualmente mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o muito singular com alguma coisa que est\u00e1 sempre implicada por tr\u00e1s dela, e da qual ela porta realmente, a mensagem formalmente indicada, a saber, a verdade\u201d<\/em>. N\u00e3o se pode esquecer a formula\u00e7\u00e3o de Lacan segundo a qual a verdade tem uma estrutura de fic\u00e7\u00e3o (p. 259).<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*Texto escrito para a Jornada do dispositivo <em>Trabalho de leitura do Semin\u00e1rio IV<\/em>, realizada em outubro de 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevi um primeiro texto a partir da leitura e trabalho com o Semin\u00e1rio IV, coordenado por M\u00e1rcia Teresa. Este se referiu \u00e0 parte inicial do Semin\u00e1rio. 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