{"id":418,"date":"2021-12-20T15:23:37","date_gmt":"2021-12-20T15:23:37","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=418"},"modified":"2022-08-21T23:16:47","modified_gmt":"2022-08-21T23:16:47","slug":"o-ponto-como-o-lugar-do-sujeito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2021\/12\/20\/o-ponto-como-o-lugar-do-sujeito\/","title":{"rendered":"O ponto como o lugar do sujeito"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Participar do dispositivo <em>Acolhimento, Entrada e Funda\u00e7\u00e3o Permanente<\/em> tem me suscitado quest\u00f5es para al\u00e9m dos textos que temos trabalhado. A cada leitura, discuss\u00e3o, a cada vez que me ponho a falar, tenho a impress\u00e3o que h\u00e1 mais do que o texto traz, me sinto exposta, mas talvez seja esse mesmo o funcionamento da coisa. Confesso que neste, mais do que em qualquer outro dispositivo, me vejo desnudada e, mesmo com receio do que vai sair de minha boca, falo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto que acabamos de trabalhar \u00e9 do Antonio Carlos Rocha, <em>Dos conceitos freudianos ao objeto da psican\u00e1lise<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>, uma escrita densa, repleta de pontos te\u00f3ricos ainda por mim inalcan\u00e7\u00e1veis, mas que, de certa forma, n\u00e3o sei como, me indagou sobre a teoria, a cl\u00ednica, quest\u00f5es pessoais e o caminho que tenho percorrido na AEPM. Dentre tantos pontos, algo chamou n\u00e3o somente a minha aten\u00e7\u00e3o, posto que o pr\u00f3prio Antonio Carlos se p\u00f4s a perseguir um rastro deixado por Lacan no Semin\u00e1rio XI (n\u00e3o tenho certeza se \u00e9 este), estou me referindo \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o da figura do ponto. Num primeiro momento, achei que se tratasse de algo simples, mas estava enganada, apesar de ser uma figura simples, n\u00e3o h\u00e1 simplicidade em abord\u00e1-la. Sigo com Antonio Carlos em busca de uma aproxima\u00e7\u00e3o sobre o que \u00e9 o ponto, porque Lacan se utiliza desta figura diversas vezes e de in\u00fameras formas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No percurso do trabalho, nos deparamos com incont\u00e1veis pontos: ponto de ruptura; ponto de liga\u00e7\u00e3o; ponto de partida; ponto de parti\u00e7\u00e3o; ponto de entrada; ponto de queda; passagem e repassagem pelo mesmo ponto; ponto do dever advir do sujeito. E ainda tem mais!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas afinal de contas, o que \u00e9 um ponto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde aqui j\u00e1 come\u00e7a a problem\u00e1tica, pois depende do ponto de vista pelo qual ele \u00e9 olhado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na geometria, \u00e9 o cruzamento de duas retas. Na topologia, \u00e9 uma superf\u00edcie de dimens\u00e3o 0. Na gram\u00e1tica, ele insere o intervalo, a escans\u00e3o temporal das frases, a descontinuidade, a ruptura. Antonio Carlos nos diz que seu estatuto n\u00e3o pode ser definido pela geometria ou pela natureza, \u201c<em>seu estatuto \u00e9 topol\u00f3gico\u201d<\/em>. E, de acordo com a topologia, o ponto \u00e9 um lugar onde <em>\u201ccoincidem o espa\u00e7o, a superf\u00edcie e a coisa eventualmente a\u00ed contida\u201d<\/em>. Neste ponto, <em>\u201cqualquer tentativa de resgate pelo imagin\u00e1rio \u00e9 imposs\u00edvel\u201d. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais \u00e0 frente, ele ir\u00e1 fazer uma aproxima\u00e7\u00e3o entre o ponto e o furo, e, de imediato, o que me vem \u00e0 cabe\u00e7a \u00e9 <em>das Ding<\/em>. Lembro-me do Semin\u00e1rio VII, onde um furo no Real \u00e9 circulado pelos significantes, nesse movimento em volta do vazio eles criam a borda. A figura do ponto se assemelha a um furo, de fato, um pequeno furo no tecido jamais pode ser reconstitu\u00eddo na forma como era antes que ele se formasse. Prosseguindo com Antonio Carlos, ele situa o ponto como \u201c<em>o lugar por excel\u00eancia do sujeito\u201d<\/em>. Momento dif\u00edcil para mim, pois aqui parece que h\u00e1 sim um habitante nesse lugar. Como \u00e9 \u00e1rduo percorrer estas no\u00e7\u00f5es que, na maioria das vezes, me escapam, sinto que falta muito a conhecer. N\u00e3o consigo fazer uma separa\u00e7\u00e3o dos conceitos, talvez porque isso n\u00e3o seja poss\u00edvel, mas, a cada vez, tenho a impress\u00e3o que eles mesmos se deslocam e acionam outros, como dar conta disso? Porque apesar desse lugar ser do sujeito, me ocorre tamb\u00e9m o <em>objeto a<\/em>, que em algum momento da elabora\u00e7\u00e3o lacaniana tamb\u00e9m est\u00e1 l\u00e1. Em meu socorro me deparo com o seguinte: <em>\u201cLugar onde finalmente se encontra com o que o causa, o objeto que ele \u00e9, esse ser s\u00f3 objetal, que, por defini\u00e7\u00e3o, disso nada pode saber. Pois isso constituiria uma contradi\u00e7\u00e3o nos pr\u00f3prios termos. Antecipo, com isso, desde j\u00e1, o ponto onde chegarei. O puro corte do discurso, a af\u00e2nise do sujeito que fala. \u00c9 poss\u00edvel imaginar isso? Certamente que n\u00e3o\u201d<\/em>. Lembro que, em algum momento, escutei que \u00e9 preciso manter os paradoxos, e a Psican\u00e1lise est\u00e1 cheia deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 que introduzi o <em>objeto a<\/em>, entre as coisas faladas durante o trabalho, fiquei com esta: \u00e9 a causa e o efeito. \u00c9 por isso que \u00e9 inacess\u00edvel ao imagin\u00e1rio. Como algo pode ser o causador e ele pr\u00f3prio o efeito? Mas \u00e9 assim que funciona, apesar de toda minha dificuldade. Segundo Lacan, \u201c<em>entre a causa e o efeito, furo, hi\u00e2ncia, esse ponto de algo da ordem do n\u00e3o-nascido\u201d;<\/em>\u00a0estou mais uma vez envolta com o ponto. Esse n\u00e3o nascido, ser\u00e1 que tem a ver com o recalque primevo? Esse que n\u00e3o h\u00e1 significante que diga o que ele \u00e9? Que expulsou o significante desse lugar do furo? Mais quest\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ponto chamou minha aten\u00e7\u00e3o. Antonio Carlos diz que se pode produzir o analista como <em>objeto a<\/em>, e que <em>\u201c\u00e9 isso que permite dizer que a presen\u00e7a do analista faz parte do conceito do inconsciente\u201d<\/em>. E mais, <em>\u201cA an\u00e1lise \u00e9 sempre perda de sentido, sucess\u00e3o de perdas que faz s\u00e9rie e que o analista n\u00e3o s\u00f3 testemunha, como induz, causa, escande, com sua presen\u00e7a, nesse ponto nodal que suspende o sujeito e mant\u00e9m a pulsa\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. Retorna para mim a quest\u00e3o que Alayde nos fez: <em>\u201cQual a diferen\u00e7a entre perda e falta?\u201d<\/em> O que me ocorre \u00e9 que \u00e9 com a presen\u00e7a do analista como causa, ocupando esse lugar de <em>objeto a<\/em>, e pelo manejo da transfer\u00eancia &#8211; esta que age com o recurso da repeti\u00e7\u00e3o, que por sua vez visa ao encontro com a falta, o que, no entanto, ocorre na falta de um significante que diga dessa falta &#8211; que surgem as perdas, <em>\u201csucess\u00e3o de perdas que o analista testemunha e escande\u201d.<\/em> \u00c9 como se pode falar e do lugar que se pode falar dessa falta. Posso ter feito um verdadeiro carnaval com os conceitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, de que ponto se trata? Tenho a impress\u00e3o de que este \u00e9 um texto que se volta para a cl\u00ednica, que o ponto ou pontos abordados est\u00e3o voltados para a presen\u00e7a do analista circunscrevendo o <em>objeto a<\/em>, como parte do conceito do inconsciente, causando a movimenta\u00e7\u00e3o da repeti\u00e7\u00e3o e dando \u00e0quele que chega a possibilidade do reencontro faltoso. O analista n\u00e3o capturado no pedido de amor est\u00e1 em Outro lugar (topol\u00f3gico). Antonio Carlos encerra seu texto da seguinte forma: <em>\u201c[&#8230;] o ponto absoluto que estamos falando desde o in\u00edcio, esse \u00fanico ponto onde o imposs\u00edvel pode fundar uma certeza.\u201d<\/em> Do meu lado, continuo sem saber.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Texto escrito para a Jornada do dispositivo Acolhimento, Entrada e Funda\u00e7\u00e3o Permanente, realizada em novembro de 2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> ROCHA, Antonio Carlos. Dos conceitos freudianos ao objeto da psican\u00e1lise. Dispon\u00edvel em: www. tempofreudiano.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Participar do dispositivo Acolhimento, Entrada e Funda\u00e7\u00e3o Permanente tem me suscitado quest\u00f5es para al\u00e9m dos textos que temos trabalhado. A cada leitura, discuss\u00e3o, a cada vez que me ponho a falar, tenho a impress\u00e3o que h\u00e1 mais do que o texto traz, me sinto exposta, mas talvez seja esse mesmo o funcionamento da coisa. 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