{"id":472,"date":"2022-05-26T11:17:00","date_gmt":"2022-05-26T11:17:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=472"},"modified":"2022-08-21T23:15:13","modified_gmt":"2022-08-21T23:15:13","slug":"o-aleph-a-letra-e-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2022\/05\/26\/o-aleph-a-letra-e-a-morte\/","title":{"rendered":"O aleph, a letra e a morte"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Da leitura do livro da Virginia Hasenbalg-Corabianu<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> conduzida por Livia Rocha e Mar\u00eda Victoria Borges D\u00edaz na AEPM, destaco aqui alguns pontos pelos quais fui fisgada; depois de terminado o trabalho, parece que saltou algo em comum desses pontos aos quais me refiro: o inconcili\u00e1vel; a autora vai mostrando os impasses com os quais alguns matem\u00e1ticos se depararam, a dificuldade que eles tiveram em demonstrar o que entreviram, e vai nos contando como a psican\u00e1lise e a matem\u00e1tica lidam com isso, passando por uma breve passagem pela literatura e outra pela religi\u00e3o. O livro de Hasenbalg \u00e9 um <em>Aleph<\/em>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O infinito atual de Cantor, o qual ele denomina <em>Aleph<\/em>, o seu teorema da diagonal e hip\u00f3tese do cont\u00ednuo v\u00e3o nos conduzindo a conceitos da psican\u00e1lise. A narrativa vai nos mostrando como os avan\u00e7os e dificuldades da matem\u00e1tica puderam dar algumas ferramentas para pensar com a psican\u00e1lise os impasses que Freud coloca, por exemplo, como limite para o fim da an\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cantor, na elabora\u00e7\u00e3o do infinito atual, em contraponto ao infinito potencial j\u00e1 consagrado pela tradi\u00e7\u00e3o, nomeia-o <em>Aleph<\/em>, o que traz em si uma afronta \u00e0 letra sagrada da tradi\u00e7\u00e3o judaica e, por outro lado, uma afronta \u00e0 ci\u00eancia; \u00e9 um ponto de impasse que cria resist\u00eancia dentro do pr\u00f3prio campo da matem\u00e1tica, mostrando que algo de uma impossibilidade l\u00f3gica poderia \u201cquebrar\u201d aquele campo, retirar os seus alicerces.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O infinito potencial seria esse infinito sem fim, que a tradi\u00e7\u00e3o legou. Aquele que existe em pot\u00eancia, mas jamais \u00e9 realizado, \u00e9 <em>ad eternum<\/em>. E Hasenbalg-Corabianu nos diz que ele \u00e9 imagin\u00e1vel no espa\u00e7o e no tempo ou numa sequ\u00eancia de n\u00fameros sem fim e sem limite, e acrescenta que ele \u00e9 pens\u00e1vel. E para ficar um pouco mais pr\u00f3ximo da pr\u00e1tica, nos diz que a aus\u00eancia de limite pode, em um sujeito, mostrar a sua l\u00f3gica: repeti\u00e7\u00e3o ao infinito de uma conduta derivada de uma puls\u00e3o, como no caso da bulimia, ou toxicomania, ou fala verborreica [&#8230;] enfim, do que remete a uma infinitiza\u00e7\u00e3o. O artigo de Freud de 1937, <em>An\u00e1lise finita e infinita<\/em>, mostra um impasse ao final da an\u00e1lise: o homem e a mulher esbarram no complexo de castra\u00e7\u00e3o: a inveja do p\u00eanis ou a amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um impasse para Freud, que diz que a an\u00e1lise, mesmo que seja did\u00e1tica, vai esbarrar nesse ponto, tem seu limite. Com o conceito de infinito atual, isto \u00e9, infinito em ato \u00e9 poss\u00edvel ressignificar a concep\u00e7\u00e3o da estrutura ps\u00edquica? \u00a0E aqui fica uma quest\u00e3o: o infinito atual, como nos conta Borges, surge a partir de um vazio e \u00e9 somente contando com ele que a letra pode tecer a nossa mortalha? Dar um lugar aos mortais?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hasenbalg-Corabianu busca na literatura borgeana a met\u00e1fora do cristal do <em>Aleph<\/em>, no qual todo o tempo e todo o espa\u00e7o do mundo podem estar contidos. E n\u00e3o \u00e9 por mero acaso que o <em>Aleph<\/em> se encontra no por\u00e3o, nos subterr\u00e2neos da casa. Vamos ao in\u00edcio do conto: Morre <em>Beatriz Viterbo<\/em>, mas o mundo, sem fazer o seu luto, continua a girar e afasta-se dela. E assim Borges compreendia que essa mudan\u00e7a era a primeira de uma <em>sequ\u00eancia infinita<\/em>. Hasenbalg-Corabianu afirma que \u00e9 no contexto desse desaparecimento e <em>\u201cno lugar vazio deixado por sua aus\u00eancia\u201d<\/em> que emerge estranho objeto, o<em> Aleph<\/em>. \u00c9 da\u00ed que nasce tanto o objeto<em> Aleph<\/em> como o conto de Borges que se inscreve sob o t\u00edtulo dessa letra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carlos Argentino, primo de Beatriz Viterbo, introduz um imagin\u00e1rio do infinito, aquele que observa o mundo sem se contar a\u00ed. Assim como Borges, ele \u00e9 escritor, mas o seu posicionamento subjetivo leva-o \u00e0 pretens\u00e3o de escrever um poema que daria conta da literatura do mundo inteiro. Carlos Argentino revela a Borges o seu segredo, a sua fonte de inspira\u00e7\u00e3o quando se v\u00ea amea\u00e7ado de se separar desse enigm\u00e1tico objeto. Diferentemente de Carlos Argentino, a letra (Aleph\/escrita) tem um Outro efeito sobre Borges. E a autora diz: <em>\u201cna linearidade inevit\u00e1vel de uma narrativa e com toda a sua arte de escritor, ele d\u00e1 conta da presen\u00e7a sincr\u00f4nica, no atual da narrativa, de todos os tempos e de todos os lugares da humanidade concentrados no Aleph\u201d<\/em>. Esse brilho do Aleph remete ao cristal da l\u00edngua, ao uso po\u00e9tico da linguagem, \u00e0 sua polissemia, e, por que n\u00e3o, ao que \u00e9 pr\u00f3prio \u00e0 psican\u00e1lise, a met\u00e1fora e a meton\u00edmia? Condensa\u00e7\u00e3o e deslocamento, tecido do inconsciente. O sonho \u00e9 um <em>r\u00e9bus<\/em>, \u00e9 preciso entend\u00ea-lo ao p\u00e9 da letra, em sua estrutura de letra. \u00c9 na sincronia que a met\u00e1fora do sujeito nasce na escrita, nesse intervalo cavado entre os significantes. Se Carlos Argentino, antagonista de Borges, est\u00e1 na perspectiva de uma escrita de car\u00e1ter diacr\u00f4nico, mais pr\u00f3ximo da ret\u00f3rica do que da poesia, ali onde \u00e9 pass\u00edvel ser laureado pelas letras, para Borges, entretanto, \u00e9 poss\u00edvel um deslocamento \u2013 ainda que seja um pleonasmo: meton\u00edmico. O <em>Aleph<\/em> designa, ent\u00e3o, esse infinito atual, em ato. Faz rela\u00e7\u00e3o com uma significa\u00e7\u00e3o, ordena o encadeamento do que \u00e9 dito, tem efeito singular sobre cada um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A l\u00edngua, a partir de Freud e com Lacan, \u00e9 um modo singular de produzir equ\u00edvocos, nos \u00e9 dito.\u00a0 E a met\u00e1fora, diz Lacan, <em>\u201cbrota entre dois significantes dos quais um substituiu o outro, assumindo seu lugar na cadeia significante, enquanto o significante oculto permanece presente em sua conex\u00e3o (meton\u00edmica) com o resto da cadeia\u201d<\/em>. E, n\u00e3o \u00e9 assim que Lacan nos ensina a ler o algoritmo em que ele subverte o signo saussuriano? H\u00e1 uma barra que resiste \u00e0 significa\u00e7\u00e3o e um significante remete sempre a um outro significante que n\u00e3o est\u00e1 dado de antem\u00e3o, tal como o exemplo que Hasenbalg-Corabianu nos d\u00e1 dos <em>diamantes\/ditos amantes<\/em> que a filha queria dar \u00e0 m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a psican\u00e1lise, o sentido ordenado pela sintaxe, pelo discreto do significante permite-nos um deslocamento. Aquilo que se quis dizer, se disse, mas a\u00ed est\u00e1 o ponto: o cont\u00ednuo, isso da ordem da <em>al\u00edngua<\/em>, fluxo ininterrupto, faz uma disjun\u00e7\u00e3o sint\u00e1tica, irrompe em outra cadeia e a psican\u00e1lise o faz entrar no discurso. Isso n\u00e3o fica fora, \u00e9 um \u00edndice. Eis o paradoxo. De um lado, a ordena\u00e7\u00e3o do sentido pelo discreto do significante, uma sintaxe da l\u00edngua e, por outro, o cont\u00ednuo, cadeia portadora da equivocidade, marcada pelo cont\u00ednuo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>Aleph<\/em>, infinito atual, aproxima-se do falo, um significante inomin\u00e1vel que, assim como o <em>Aleph<\/em> tem esse car\u00e1ter de sagrado; ele \u00e9 velado, n\u00e3o aparece na cadeia sonora e nem \u00e9 b\u00edfido; ele a ordena, mas est\u00e1 fora da cadeia. E como n\u00e3o lembrar do assassinato do pai primevo? O estabelecimento da fun\u00e7\u00e3o do pai assegurando a ordem? H\u00e1 uma nomina\u00e7\u00e3o latente, como diz Lacan em <em>A Inst\u00e2ncia da letra no inconsciente ou a raz\u00e3o desde Freud<\/em>: a met\u00e1fora \u00e9 latente e a meton\u00edmia \u00e9 patente. Mas h\u00e1 algo que escapa \u00e0 ordena\u00e7\u00e3o, ainda que ela seja necess\u00e1ria para dar lugar ao sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a maneira de existir do sujeito \u00e9 a do sintoma, pr\u00f3pria \u00e0 estrutura neur\u00f3tica e o leva a uma repeti\u00e7\u00e3o infinita, como vimos, como \u00e9 poss\u00edvel ao sujeito renunciar a esse gozo, a isso que lhe d\u00e1 exist\u00eancia? \u201c<em>H\u00e1 uma outra possibilidade de exist\u00eancia que n\u00e3o seja no sintoma?<\/em>\u201d quest\u00e3o que nos traz Melman. A noite do trauma, da qual fala Lacan, seria o que marca algo de uma finitude, \u00e0s custas do recalque, o encontro com o vazio, com a falta de sentido? Ser\u00e1 essa deriva que nos leva ao sintoma, a uma sutura?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, como vimos, h\u00e1 um paradoxo entre o discreto e o cont\u00ednuo. O sintoma instaura uma cren\u00e7a. Amamos aquele que sabe.\u00a0 Por que esse amor ao saber? A cren\u00e7a \u00e9 supor que h\u00e1 ao menos um que sabe e que isso nos garantiria? O falo, como ordenador simb\u00f3lico, \u00e9 um ordenador de sentido, mas o \u03a6, um n\u00famero irracional, infinito em sua escrita, n\u00e3o cessa de se escrever; ao ser inscrito em uma reta, ou em um plano cartesiano, entre dois n\u00fameros inteiros 1 e 2, ele jamais ser\u00e1 atingido. Na reta, os pontos jamais se aproximar\u00e3o dele; no plano, esses n\u00fameros formar\u00e3o duas retas, uma do lado direito e outra do lado esquerdo de \u03a6, mas que tender\u00e3o ao infinito e esse encontro n\u00e3o \u00e9 atingido, e aqui Hasenbalg-Corabianu o aproxima do <em>objeto a<\/em>. Ele ser\u00e1 sempre ladeado por um furo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, podemos dizer que tudo se d\u00e1 entre um ordenamento que se instaura a partir do <em>Um<\/em> marcado pela aus\u00eancia, a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, que constitui a ordem do discreto e, nos \u00e9 mostrado pelo<em> Aleph<\/em>, o infinito atual e, por outro lado, por dimens\u00e3o infinita, pr\u00f3xima do irracional, \u03a6\u00a0ligado a uma ordem infinita, pr\u00f3xima da dimens\u00e3o do grande Outro, do infinito potencial?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carlos Argentino guiava-se pelo cristal da l\u00edngua, ao passo que Borges guiava-se a partir do cristal, o<em> Aleph<\/em>; ele p\u00f4de ser afetado pelo cristal e toma-o como agente da sua escrita, a isso que o Aleph o leva, ao fragmentado, ao condensado, ao paradoxal. H\u00e1 possibilidade de se abrir m\u00e3o de um sentido que garantiria a exist\u00eancia. Carlos Argentino acreditava que o Aleph ordenava toda a sua escrita e separar-se disso que o garantia na escrita era impens\u00e1vel. Duas posi\u00e7\u00f5es, duas disposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro agora do tempo l\u00f3gico, que n\u00e3o \u00e9 um tempo cronol\u00f3gico, n\u00e3o segue na diacronia, mas na sincronia.\u00a0 A asser\u00e7\u00e3o da certeza antecipada est\u00e1 no bojo do instante de ver, mas \u00e9 preciso um tempo para compreender at\u00e9 que se chegue ao momento de concluir, e isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sem que o sujeito ali se conte a partir do Outro. E n\u00e3o \u00e9 isso que uma an\u00e1lise nos possibilita?<\/p>\n<hr \/>\n<p>*Texto apresentado na Jornada do Trabalho de Leitura \u201cDe Pit\u00e1goras a Lacan, uma hist\u00f3ria n\u00e3o oficial da Matem\u00e1tica\u201d. A jornada ocorreu em agosto de 2020 e contou com a participa\u00e7\u00e3o da psicanalista Virginia Hasenbalg-Corabianu.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>De Pit\u00e1goras a Lacan, uma hist\u00f3ria n\u00e3o oficial da Matem\u00e1tica para o uso dos psicanalistas<\/em>, de autoria de Virginia Hasenbalg-Corabianu. T\u00edtulo original: Hasenbalg-Corabianu, Virginia. <em>De Pythagore \u00e0 Lacan, une histoire non officielle des math\u00e9matiques \u00e0 l\u2019usage des psychanalystes<\/em>. \u00c9ditions \u00e9r\u00e8s, 2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da leitura do livro da Virginia Hasenbalg-Corabianu[1] conduzida por Livia Rocha e Mar\u00eda Victoria Borges D\u00edaz na AEPM, destaco aqui alguns pontos pelos quais fui fisgada; depois de terminado o trabalho, parece que saltou algo em comum desses pontos aos quais me refiro: o inconcili\u00e1vel; a autora vai mostrando os impasses com os quais alguns [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[12],"tags":[59,60,54],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/472"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=472"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/472\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":578,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/472\/revisions\/578"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=472"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=472"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=472"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}