{"id":668,"date":"2022-09-22T13:05:06","date_gmt":"2022-09-22T13:05:06","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=668"},"modified":"2022-09-22T13:06:06","modified_gmt":"2022-09-22T13:06:06","slug":"distorcao-e-oscilamento-do-desejo-no-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2022\/09\/22\/distorcao-e-oscilamento-do-desejo-no-sonho\/","title":{"rendered":"Distor\u00e7\u00e3o e oscilamento do desejo no sonho"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Trabalhar o texto freudiano d\u2019<em>A Interpreta\u00e7\u00e3o dos Sonhos<\/em> (1900), linha a linha, com alguns dos colegas da AEPM foi uma surpresa e uma alegria diferentes. Percorrer\u00edamos o c\u00e9lebre texto, enquanto trabalh\u00e1vamos tamb\u00e9m o Semin\u00e1rio VI de Lacan \u2013 <em>O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>. Logo, o Cap\u00edtulo III \u2013 <em>O sonho \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de um desejo<\/em>, mostrou-se inevit\u00e1vel ponto de partida. Era surpreendente vermos, ou melhor, lermos o modo como Freud formulava suas quest\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Se um sonho representa um desejo realizado, qual a origem da not\u00e1vel e enigm\u00e1tica forma em que se expressa a realiza\u00e7\u00e3o de um desejo?\u201d<\/em> (p.157).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 como se, com essa pergunta, Freud escancarasse: um desejo n\u00e3o \u00e9, se expressa, se faz representar; \u00e9 tribut\u00e1rio do significante, como depois nos ensina Lacan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um sonho est\u00e1 a servi\u00e7o do sono, \u00e9 seu guardi\u00e3o, diz-nos Freud. Da\u00ed os ditos <em>\u201csonhos de conveni\u00eancia\u201d<\/em> tornarem evidentes um desejo ali realizado. <em>\u201cO sonhar toma o lugar da a\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>: se se tem sede, sonhar estar bebendo ou em busca de algo para beber pode se mostrar conveniente at\u00e9 certo ponto; se se vivenciou decep\u00e7\u00e3o\/ren\u00fancia de algo em vig\u00edlia, um sonho de compensa\u00e7\u00e3o pode se produzir em retalia\u00e7\u00e3o ao experimentado, tal como o sonho da pequena Anna Freud que, na madrugada seguinte a um epis\u00f3dio de indigest\u00e3o e consequente priva\u00e7\u00e3o de alimentos, enquanto dormia exclamou: <em>\u201cAnna Freud, molangos, molangos silvestes, omelete pudim!\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que dizer dos sonhos aflitivos e dos sonhos de ang\u00fastia? Ou mesmo um sonho em que, aparentemente, a realiza\u00e7\u00e3o do desejo n\u00e3o se satisfaz como no sonho da bela a\u00e7ougueira? Como manter a afirma\u00e7\u00e3o de que <em>\u201co sentido de todos os sonhos \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de um desejo?\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 distor\u00e7\u00e3o nos sonhos. Mesmo aqueles que demonstram ser realiza\u00e7\u00f5es de desejos, n\u00e3o expressam seu sentido sem disfarce. Os sonhos infantis parecem ser os mais indisfar\u00e7ados. S\u00f3 parecem. O sonho n\u00e3o \u00e9 o inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Distor\u00e7\u00e3o, do Latim <em>distorquere<\/em>, <em>\u201cvirar para um e outro lado\u201d<\/em>, <em>\u201cfazer oscilar\u201d<\/em>; <em>\u201caltera\u00e7\u00e3o da forma ou de outras caracter\u00edsticas estruturais; deforma\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. A realiza\u00e7\u00e3o de um desejo obedece \u00e0 forma enigm\u00e1tica dos sonhos, essa mesma, objeto do trabalho de interpreta\u00e7\u00e3o do analista. A forma se altera para p\u00f4r em causa o pr\u00f3prio sujeito, sua inten\u00e7\u00e3o, sua posi\u00e7\u00e3o de sujeito inconsciente. Assim, o conte\u00fado manifesto em um sonho \u00e9 sempre express\u00e3o distorcida do pensamento on\u00edrico latente. H\u00e1 transfer\u00eancia e deslocamento de intensidades ps\u00edquicas, novos valores se criam na forma\u00e7\u00e3o do sonho e <em>\u201c\u00e9 como resultado destes que se verifica a diferen\u00e7a entre o texto do conte\u00fado do sonho e o dos pensamentos do sonho.\u201d<\/em> Dois textos, duas escritas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deslocamento, condensa\u00e7\u00e3o e sobredetermina\u00e7\u00e3o s\u00e3o os mecanismos respons\u00e1veis pelo trabalho do sonho no disfarce da realiza\u00e7\u00e3o de um desejo. N\u00e3o deixa de ser interessante pensar que o desejo se expressa disfar\u00e7adamente, veste-se de elementos substitutos, fantasia-se, inverte, subverte rela\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas no espa\u00e7o, na temporalidade. O desejo no sonho \u00e9 o desejo poss\u00edvel ao <em>parl\u00eatre<\/em>. Isso que articula duas cadeias, duas escritas presentificando o sujeito no mesmo instante em que o apaga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os elementos que aparecem no sonho s\u00e3o significantes. Em geral, s\u00e3o a condensa\u00e7\u00e3o de diversos pensamentos on\u00edricos que sofreram deslocamentos a fim de driblar a censura. Freud parte desses elementos, atravessando as s\u00e9ries de associa\u00e7\u00f5es que deles afluem, sem negligenciar o valor das semelhan\u00e7as existentes na pron\u00fancia ou na escrita de determinadas palavras, o valor das substitui\u00e7\u00f5es ali produzidas, das oposi\u00e7\u00f5es, das intensidades com rela\u00e7\u00e3o aos afetos, ao colorido e \u00e0s formas das imagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora reconhe\u00e7a a import\u00e2ncia das fontes som\u00e1ticas de estimula\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o dos sonhos, Freud afirma que s\u00e3o as impress\u00f5es psiquicamente significativas (material recente\/irrelevante e o material infantil) a fonte determinante dos sonhos. As lembran\u00e7as e impress\u00f5es infantis no cerne da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o desejo, com o seu e com o do Outro. Tal aspecto n\u00e3o escapa \u00e0 Freud. Um sonho \u00e9 interpretado sob transfer\u00eancia. Para interpretar, contava com sua escuta, com elementos j\u00e1 \u201csabidos\u201d da hist\u00f3ria do analisante e, mais ainda, com as cadeias associativas que tamb\u00e9m lhe surgiam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O analista participa do sonho de seu analisante?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan nos lembra que despertamos de um sonho para continuar sonhando. Acordados, sonhamos nossa realidade constitu\u00edda simbolicamente. Capturado na fic\u00e7\u00e3o, na divis\u00e3o imposta pelo significante, o sujeito mant\u00e9m certa dist\u00e2ncia do real do desejo. Insuport\u00e1vel. Seu despertar \u00e9 corte, a cada vez. Despertar do sujeito, despertar do desejo.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Texto escrito para a Jornada do Trabalho de Estudo dos Textos de Freud, ocorrida em abril de 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trabalhar o texto freudiano d\u2019A Interpreta\u00e7\u00e3o dos Sonhos (1900), linha a linha, com alguns dos colegas da AEPM foi uma surpresa e uma alegria diferentes. Percorrer\u00edamos o c\u00e9lebre texto, enquanto trabalh\u00e1vamos tamb\u00e9m o Semin\u00e1rio VI de Lacan \u2013 O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o. 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