{"id":671,"date":"2022-09-23T16:43:33","date_gmt":"2022-09-23T16:43:33","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=671"},"modified":"2022-09-24T12:25:52","modified_gmt":"2022-09-24T12:25:52","slug":"a-leitura-do-texto-do-sonho-em-freud","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2022\/09\/23\/a-leitura-do-texto-do-sonho-em-freud\/","title":{"rendered":"A leitura do texto do sonho em Freud"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Durante o trabalho de leitura e estudo do texto freudiano <em>A Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em>, vieram-me, frequentemente, quest\u00f5es cl\u00ednicas interligando o que Freud vai apontando como um trabalho de leitura do texto do sonho \u2013 contando o que nele \u00e9 um conte\u00fado manifesto e o que se encontra latente, sob efeito de censura \u2013 e o trabalho do analista na dire\u00e7\u00e3o de um tratamento, contando com que se apresenta como encoberto, velado, e que nos aponta para uma outra cena. Parece-me mesmo que o texto tem essa miss\u00e3o, direi assim. Apontar-nos a exist\u00eancia de uma outra cena, tendo como ponto de partida o que \u00e9 contado, pelos pacientes, a respeito dos seus sonhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse intuito, Freud desenvolve seu texto trazendo elementos que v\u00e3o demonstrar a ocorr\u00eancia de uma deforma\u00e7\u00e3o on\u00edrica, de um deslizamento, algo que est\u00e1, no sonho, como um ponto de censura. Ao longo do texto, Freud nos fala sobre os res\u00edduos diurnos que h\u00e3o de comparecer nos sonhos, bem como as viv\u00eancias irrelevantes, as substitui\u00e7\u00f5es&#8230; E nos p\u00f5e diante de um conte\u00fado latente mais relevante do que aquele que \u00e9 manifesto, quando nos implicamos em um trabalho de interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa interliga\u00e7\u00e3o que me vinha entre o trabalho com os sonhos e o trabalho do analista levou-me ao texto <em>A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios do seu poder<\/em>, de 1958, em que Lacan nos diz: <em>\u201cdizer que a doutrina freudiana \u00e9 uma psicologia \u00e9 um grosseiro equ\u00edvoco. Freud est\u00e1 longe de alimentar esse equ\u00edvoco. Adverte-nos, ao contr\u00e1rio, de que no sonho s\u00f3 lhe interessa a elabora\u00e7\u00e3o. Que quer dizer isso? Exatamente o que traduzimos por sua estrutura de linguagem\u201d<\/em>. Confesso que, inicialmente, tomei o texto freudiano muito a partir de uma did\u00e1tica, um ensino de como interpretar corretamente um sonho, atribuindo a ele um sentido a ser revelado pelo analista. No entanto, o que se mostra na constru\u00e7\u00e3o do trabalho de Freud nesse texto, na elabora\u00e7\u00e3o dessa obra a respeito da interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos, \u00e9 justamente esse interesse que Lacan observa. O interesse de Freud em uma elabora\u00e7\u00e3o. Mas elabora\u00e7\u00e3o de qu\u00ea? Da hist\u00f3ria que o sonho conta e os seus significados? Ou desse texto pelo qual o sonho se conta e \u00e9 contado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sonho s\u00f3 passa a existir quando \u00e9 contado. E parece que \u00e9 isso que Freud vai expondo, por meio de diversos exemplos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud nos deixa claro que n\u00e3o h\u00e1 necessariamente apenas um sentido para o sonho que \u00e9 sonhado. Ou seja, para o sonho que nos \u00e9 contado. Ele nos apresenta a\u00ed uma abertura. E isso me pareceu muito cl\u00ednico. O trabalho do analista com os sentidos poss\u00edveis a partir daquilo que \u00e9 escutado, dentro de associa\u00e7\u00f5es. O lugar do texto do sonho, na fala do paciente, e aquilo que vem sendo dito antes, e que vai ser dito depois. Lacan escreve: <em>\u201cpara confirmar a pertin\u00eancia de uma interpreta\u00e7\u00e3o, o que importa n\u00e3o \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o que ela acarreta\u201d<\/em>. Enquanto estrada, caminho, via para o inconsciente, o sonho traz, em seu texto, um testemunho. Ent\u00e3o, o que o texto do sonho declara? Como \u00e9 que Freud aborda isso que o texto do sonho revela?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud considera mecanismos inconscientes: a condensa\u00e7\u00e3o e o deslocamento no trabalho do sonho. A an\u00e1lise do sonho desvelar\u00e1, portanto, o que \u00e9 psiquicamente relevante na vig\u00edlia, e que no sonho pode aparecer sob o recobrimento de uma censura, a lembran\u00e7a deslocando a \u00eanfase para algo mais irrelevante. Lacan escreve: <em>\u201cos mecanismos inconscientes atestam a rela\u00e7\u00e3o do desejo com essa marca da linguagem, que especifica o inconsciente freudiano e descentra nossa concep\u00e7\u00e3o de sujeito\u201d<\/em>. Logo, estamos diante de uma marca. O que penso nesse momento em que escrevo \u00e9 que essa marca, dada pela linguagem, tem a possibilidade de ser lida. <em>\u201cA elabora\u00e7\u00e3o do sonho \u00e9 alimentada pelo desejo\u201d<\/em>, <em>\u201co sonho \u00e9 feito para o reconhecimento do desejo\u201d<\/em>, <em>\u201co desejo, se Freud diz a verdade sobre o inconsciente, s\u00f3 \u00e9 captado na interpreta\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>, escreve Lacan, no item \u201c<em>\u00e9 preciso tomar o desejo ao p\u00e9 da letra<\/em>\u201d. \u00c9 isso, ent\u00e3o, \u00e9 na letra. E Freud escreve seu texto sobre os sonhos indicando justamente o lugar da letra na interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma parte do texto, Freud diz: <em>\u201cn\u00e3o existem sonhos inofensivos\u201d<\/em>. Logo, me vem a quest\u00e3o: o que se esconde por tr\u00e1s dos sonhos? Para Freud, eles n\u00e3o s\u00e3o, de forma alguma, inocentes. E ele nos diz ainda que, nos sonhos, <em>\u201co sexual \u00e9 um motivo \u00f3bvio de censura\u201d<\/em>. Como isso resvala na cl\u00ednica psicanal\u00edtica? Creio que no trabalho do analista com aquilo que irrompe de um falante que, ao falar, pode ser escutado, e, por sua vez, ao ser escutado, um texto a\u00ed elaborado (seja como um sonho) pode ser lido. Esse \u00e9 o trabalho.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Texto escrito para a Jornada do Trabalho de Estudo dos Textos de Freud, ocorrida em abril de 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante o trabalho de leitura e estudo do texto freudiano A Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos, vieram-me, frequentemente, quest\u00f5es cl\u00ednicas interligando o que Freud vai apontando como um trabalho de leitura do texto do sonho \u2013 contando o que nele \u00e9 um conte\u00fado manifesto e o que se encontra latente, sob efeito de censura \u2013 e o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[12],"tags":[71,67,72],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/671"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=671"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/671\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":723,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/671\/revisions\/723"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=671"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=671"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=671"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}