{"id":673,"date":"2022-09-24T12:24:57","date_gmt":"2022-09-24T12:24:57","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=673"},"modified":"2022-09-24T12:24:57","modified_gmt":"2022-09-24T12:24:57","slug":"desejo-e-angustia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2022\/09\/24\/desejo-e-angustia\/","title":{"rendered":"Desejo e ang\u00fastia"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 360px; text-align: justify;\">Afinal, \u00e9 na medida em que um saber \u00e9 constitu\u00eddo num trabalho de elabora\u00e7\u00e3o de an\u00e1lise, o qual diremos mais comunit\u00e1rio do que coletivo, entre os que t\u00eam a experi\u00eancia dela, os analistas, que se torna conceb\u00edvel um trabalho de agrega\u00e7\u00e3o que justifique o lugar pass\u00edvel de ser assumido por um ensino como o que se faz aqui. (Lacan, Semin\u00e1rio 10, p.26).<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns recortes do Semin\u00e1rio 10, como pontos de partida, foram retirados da li\u00e7\u00e3o onde Lacan introduz o assunto do Semin\u00e1rio. \u00c9 importante que numa leitura do texto escrito, as refer\u00eancias sejam lidas nos seus contextos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cVoc\u00eas ver\u00e3o que a estrutura da ang\u00fastia n\u00e3o est\u00e1 longe dela (da estrutura da fantasia), em raz\u00e3o de ser exatamente a mesma. \u201d <\/em>(p.12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201c<\/em>[como psicanalistas]<em> sentir o que o sujeito pode suportar de ang\u00fastia os p\u00f5e \u00e0 prova a todo instante. \u201d <\/em>(p.13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201c<\/em>[&#8230;] <em>uma formula\u00e7\u00e3o que lhes indicasse a rela\u00e7\u00e3o essencial da ang\u00fastia com o desejo do Outro.\u201d <\/em>(p.14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c[&#8230;] <em>a quest\u00e3o que h\u00e1 muito introduzi como sendo o ponto de articula\u00e7\u00e3o dos dois andares do grafo, na medida em que eles estruturam a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o significante, que, segundo me parece, deve ser a chave do que a doutrina freudiana introduz sobre a subjetividade: Che vuoi? Que queres? Forcem um pouquinho mais o funcionamento, a entrada da chave, e ter\u00e3o Que quer ele de mim? [Que me veut-Il?] com a ambiguidade que o franc\u00eas permite no mim [me] entre o complemento indireto ou direto. N\u00e3o se trata apenas de Que quer ele comigo?, mas tamb\u00e9m de uma interroga\u00e7\u00e3o em suspenso que concerne diretamente ao eu: n\u00e3o Como me quer ele? Mas Que quer ele a respeito desse lugar do eu?\u201d <\/em>(p.14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cA pergunta fica em suspenso entre os dois andares, e precisamente entre as duas vias de retorno que designam em cada um o efeito caracter\u00edstico. A dist\u00e2ncia entre elas, e que estar\u00e1 no princ\u00edpio de tudo que percorreremos, torna hom\u00f3logas e distintas, ao mesmo tempo, a rela\u00e7\u00e3o com o desejo e a identifica\u00e7\u00e3o narc\u00edsica. \u201d<\/em> (p.14-15).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-674 aligncenter\" src=\"https:\/\/aepm.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/grafo-do-desejo-256x300.jpg\" alt=\"\" width=\"256\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/aepm.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/grafo-do-desejo-256x300.jpg 256w, https:\/\/aepm.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/grafo-do-desejo.jpg 586w\" sizes=\"(max-width: 256px) 100vw, 256px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo o percurso de Lacan atrav\u00e9s do grafo d\u00e1-se exatamente para delinear seus termos e seu funcionamento no sujeito. Isso permite que <em>a posteriori<\/em>, possa ser fact\u00edvel mostrar que o percurso de uma an\u00e1lise atrav\u00e9s da dessubjetiva\u00e7\u00e3o, ou seja, da sustenta\u00e7\u00e3o cada vez maior no significante, no Outro, e em propor\u00e7\u00e3o inversa no eu, na imagem de si e no outro, o semelhante, atravessa a fantasia e imp\u00f5e ao sujeito uma rela\u00e7\u00e3o Outra com o desejo que n\u00e3o seja apenas atrav\u00e9s do sintoma. Esse percurso \u00e9 pautado pela ang\u00fastia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Semin\u00e1rio 6, <em>O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>, Lacan faz uma precis\u00e3o topol\u00f3gica entre desamparo, desejo e ang\u00fastia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ante a presen\u00e7a primitiva do desejo do Outro como obscuro e opaco, o sujeito encontra-se sem recursos, hilflos. A Hilflosigkeit \u2013 emprego o termo de Freud \u2013 diz-se em franc\u00eas d\u00e9tresse, o desamparo do sujeito. A\u00ed se encontra o fundamento do que, na an\u00e1lise, foi explorado, experimentado, situado como a experi\u00eancia traum\u00e1tica. [&#8230;] Freud faz da ang\u00fastia algo totalmente inserido numa teoria da comunica\u00e7\u00e3o: a ang\u00fastia \u00e9 um sinal. Supondo que o desejo deva se produzir no mesmo lugar onde, inicialmente, se origina e experimenta o desamparo, n\u00e3o \u00e9 no n\u00edvel do desejo que a ang\u00fastia se produz. [&#8230;] Freud nos diz que a ang\u00fastia se produz como sinal no eu, com base na Hilflosigkeit que, como sinal, ela \u00e9 chamada a remediar.&#8221; (p.26-27).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 280px;\"><em>Para sair da ang\u00fastia, se lance no desejo<\/em>. (Antonio Carlos Rocha).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3ximo, o semelhante, n\u00e3o \u00e9 <em>heim<\/em>, diz-nos Lacan. Atirar-se no Abismo do desejo do Outro, \u00e9 atirar-se no vazio fundamental do Outro, vazio da falta de um significante no Outro que dissesse ao sujeito o que ele \u00e9 a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, como n\u00e3o se agarrar na Demanda do Outro, confundindo-a com seu desejo? O que o sujeito neur\u00f3tico deseja \u00e9 que lhe demandem, que lhe fa\u00e7am uma pergunta, um pedido. Mas o Outro n\u00e3o quer nada. O sujeito substantiva o Outro no outro atrav\u00e9s da Demanda. Faz-se ser ou ter o que sup\u00f5e que o outro quer dele, sustentando-se na fantasia de que se h\u00e1 falta no Outro, desejo no Outro, essa falta \u00e9 pass\u00edvel de ser saturada. O amor, no qual toda Demanda se colapsa, coloca ao sujeito a possibilidade de dar o que ele n\u00e3o tem \u00e0quele que n\u00e3o quer nada. \u00c9 o mais paradoxal eixo de manobra da neurose, pois sup\u00f5e um querer no outro e um \u201cter a dar\u201d naquele que, assim, acredita existir em sua consist\u00eancia imagin\u00e1ria. O dom de amor, o que \u00e9 nele tornado objeto e como tal, signo de amor, \u00e9 uma garantia que apazigua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso fazer o luto do falo para al\u00e7ar o desejo. Mas o neur\u00f3tico n\u00e3o quer dar nada, perder nada, mesmo que aparentemente d\u00ea tudo. Mas \u00e9 um dar que oculta aquilo que ele n\u00e3o quer ceder ao Outro, ele o d\u00e1 desde que n\u00e3o d\u00ea o que ele sup\u00f5e que o Outro deseja, sua falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu desamparo \u00e9 superposto pelo \u201cser (estar sendo) ca\u00eddo\u201d. Como o objeto <em>a, <\/em>ele cai a cada vez que sua falta de sujeito comparece. E \u00e9 disso tamb\u00e9m que se faz um percurso de an\u00e1lise. Acontece que a queda, o ser ca\u00eddo, \u00e9 temida como se fora abandono, e pode ser vivida como desamparo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ar-se no Abismo \u00e9 ter coragem para seguir adiante renunciando ao que o sustenta, \u00e0 ilus\u00e3o narc\u00edsica, \u00e0 imagem ideal, pela qual o neur\u00f3tico, sem saber, paga o pre\u00e7o com a sua vida. Assim, na neurose, a ang\u00fastia \u00e9 a garantia. Ela garante a dist\u00e2ncia desse Abismo. A escolha for\u00e7ada da neurose \u00e9 antes viver na amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o do que no vazio do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desejar \u00e9 viver o paradoxo da transgress\u00e3o, da desobstru\u00e7\u00e3o das vias suturadas pela Demanda. Mas a transgress\u00e3o aciona a culpa, pois a cada um ela d\u00e1 a not\u00edcia do limite que se ultrapassou. A coisa, no entanto, \u00e9 fora do campo dos significantes, fora do campo do sujeito do desejo. Ela est\u00e1 no real que s\u00f3 a-bordamos pelo simb\u00f3lico ou pelo imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrever pode ser um ato de entrega daquilo que n\u00e3o se tem, que n\u00e3o se sabe, \u00e0quele que n\u00e3o pede nada. Escrever pode ser arriscar-se naquilo que aparece no texto, pode ser um ato de dom. \u00c9 sempre uma chance de deixar-se cair, cair-se, lan\u00e7ar-se no v\u00e3o do Outro. \u00c9 dolorosamente ou alegremente, n\u00e3o importa, submeter-se ao que as letras ditam \u00e0s palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se, por\u00e9m, n\u00e3o ter se visto na chance e se escrever sobre aquilo que se sabe, organizar o que se aprendeu e mostrar, antes de mais nada, a si mesmo, um avan\u00e7o te\u00f3rico. Ainda assim, a letra escapa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Posso, como estou agora, perder-me no texto, e me perdendo, perder alguma coisa. N\u00e3o h\u00e1 vida sem perda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escutei algumas vezes do Antonio Carlos que a \u201cf\u00f3rmula\u201d para aplacar a ang\u00fastia \u00e9 lan\u00e7ar-se no desejo. A cada vez e n\u00e3o de uma vez por todas! As consequ\u00eancias, o imprevis\u00edvel, o n\u00e3o-sabido (porque \u00e9 <em>s\u00f3-depois<\/em> que se sabe), dispensa (um pouquinho) a cren\u00e7a no f\u00e1lico e sustenta a causa. Na letra, no vazio, no nada.\u00a0 No intervalo entre os significantes onde <em>ex-sistimos<\/em> no Outro.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Trabalho lido na Jornada dos Carteis Lacanianos em 11\/06\/2022<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Afinal, \u00e9 na medida em que um saber \u00e9 constitu\u00eddo num trabalho de elabora\u00e7\u00e3o de an\u00e1lise, o qual diremos mais comunit\u00e1rio do que coletivo, entre os que t\u00eam a experi\u00eancia dela, os analistas, que se torna conceb\u00edvel um trabalho de agrega\u00e7\u00e3o que justifique o lugar pass\u00edvel de ser assumido por um ensino como o que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[12],"tags":[78,80,79,75],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/673"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=673"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/673\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":811,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/673\/revisions\/811"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=673"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=673"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=673"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}