{"id":681,"date":"2022-09-24T12:08:15","date_gmt":"2022-09-24T12:08:15","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=681"},"modified":"2022-09-24T12:22:15","modified_gmt":"2022-09-24T12:22:15","slug":"o-falo-o-luto-e-o-desejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2022\/09\/24\/o-falo-o-luto-e-o-desejo\/","title":{"rendered":"O falo, o luto e o desejo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho com o semin\u00e1rio <em>O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em> foi para mim uma verdadeira travessia, em que foi poss\u00edvel atravess\u00e1-lo e ao mesmo tempo ser atravessado por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrever sobre esses atravessamentos coloca em jogo perdas, uma vez que, dos v\u00e1rios pontos em que fui tocado, um deles \u00e9 real\u00e7ado nesse momento: o falo em um tratamento e sua rela\u00e7\u00e3o com o desejo. Refiro-me ao momento em que Lacan se debru\u00e7a sobre a an\u00e1lise de um sonho apresentado por um analisante de Ella Sharpe, em que este relata que teve um sonho enorme e que lhe resta apenas um fragmento: <em>\u201cEstava fazendo uma viagem com minha mulher ao redor do mundo e t\u00ednhamos chegado \u00e0 Tchecoslov\u00e1quia, onde todo tipo de coisas aconteciam [&#8230;]\u201d<\/em>. Acompanhando esse relato, as associa\u00e7\u00f5es desse paciente e a interven\u00e7\u00e3o da analista, Lacan situa alguns pontos que passam despercebidos pela analista, de modo a <em>\u201carticular melhores modos de dire\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cQue o sonho tenha um car\u00e1ter masturbat\u00f3rio \u00e9 algo que a analista admite, porque tudo que aparece depois nos dizeres do sujeito se coordena com isso. Mas esse falo do sujeito, ela \u00e9 levada imediatamente a consider\u00e1-lo um instrumento de agress\u00e3o, de destrui\u00e7\u00e3o, de um tipo extremamente primitivo, tal como brota do que poder\u00edamos chamar de cole\u00e7\u00e3o de imagens anal\u00edticas.\u201d\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan coloca as seguintes quest\u00f5es que ressoaram muito em mim: <em>\u201c[&#8230;] esse falo, onde est\u00e1? Onde devemos conceber que ele esteja? O que sabemos a seu respeito?\u201d<\/em>. O curioso \u00e9 que enquanto Lacan trabalhava com essa quest\u00e3o, fiquei me interrogando sobre a import\u00e2ncia do falo em um tratamento, n\u00e3o no sentido de positiv\u00e1-lo, mas de pensar a rela\u00e7\u00e3o do falo com o desejo em um trabalho de an\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanho Lacan quando este considera <em>\u201cque aquilo de que se trata est\u00e1 estritamente relacionado com os significantes. Se nos indagamos onde est\u00e1 o falo, \u00e9 nessa dire\u00e7\u00e3o que devemos procurar [&#8230;]. Esse falo, nunca est\u00e1 onde esperamos, mas ainda assim, est\u00e1 l\u00e1. Est\u00e1 l\u00e1 como a carta roubada, l\u00e1 onde menos se espera e onde, contudo, tudo indica que esteja. Para exprimi-lo como a met\u00e1fora do jogo do xadrez nos permite articular, eu diria que o sujeito n\u00e3o quer perder a sua rainha.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O destaque feito em rela\u00e7\u00e3o ao <em>com minha mulher <\/em>nesse fragmento do sonho \u00e9 interessante porque aponta que esse falo fora do jogo \u00e9 representado pelo personagem que menos pensar\u00edamos ser seu representante \u2013 sua mulher. \u00c9\u00a0porque sua mulher \u00e9 seu falo que cometeu esse lapso ao falar: fazer uma viagem com minha mulher ao redor do mundo e\u00a0n\u00e3o ao redor do mundo com minha mulher. A onipot\u00eancia \u00e9 posta pela analista no <em>ao redor do mundo,<\/em> quando Lacan situa que o segredo dessa onipot\u00eancia est\u00e1 no <em>com minha mulher<\/em>, pois o importante para ele \u00e9 n\u00e3o perder isso. Exatamente o que o sujeito n\u00e3o quer fazer de jeito nenhum, sacrificar a sua rainha, <em>\u201cporque para ele o significante falo \u00e9 id\u00eantico a tudo que aconteceu em sua rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse ponto abriu essa possibilidade de pensar: e o papel do falo nos sonhos? O que me chama a aten\u00e7\u00e3o nesse momento \u00e9 essa perda. E \u00e9 nesse momento que encaminho a minha quest\u00e3o para o luto do falo. Por que \u00e9 t\u00e3o importante que esse luto do falo se d\u00ea e qual a rela\u00e7\u00e3o disso com o desejo? Pensar no desejo \u00e9 pensar tamb\u00e9m na fantasia, nisso que Lacan nos fala que apresenta uma estrutura sincr\u00f4nica, marcada por esse enfrentamento perp\u00e9tuo do S barrado com o a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Lacan, o luto \u00e9 uma perda verdadeira, intoler\u00e1vel para o ser humano, provoca-lhe um buraco no real, buraco que oferece o lugar onde se projeta precisamente o significante faltante. Significante essencial \u00e0 estrutura do Outro, aquele cuja aus\u00eancia torna o Outro impotente para nos dar a nossa resposta. Esse significante, s\u00f3 podemos pag\u00e1-lo com a nossa carne e nosso sangue. Ele \u00e9 essencialmente o falo sob o v\u00e9u. Esse significante encontra aqui o seu lugar e ao mesmo tempo n\u00e3o pode encontr\u00e1-lo, pois n\u00e3o pode se articular no n\u00edvel do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como esse luto do falo se coloca em um trabalho de an\u00e1lise? Lacan ao tratar da quest\u00e3o do decl\u00ednio do \u00c9dipo destaca que, para Freud, o falo \u00e9 a chave, constitui o drama essencial do \u00c9dipo, na medida em que marca a articula\u00e7\u00e3o e a virada que faz o sujeito passar do plano da demanda para o do desejo. \u00c9 em torno do luto que se joga esse decl\u00ednio, o sujeito tem de fazer o seu luto pelo falo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de escrever esse texto, fui rel\u00ea-lo e algo se destacou para mim desse ponto e decidi acrescentar nessa escrita: luto pelo falo e luto do falo? Esses dois modos de dizer a mim ressoaram como diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Lacan trabalha com Hamlet esse ponto volta a trazer interroga\u00e7\u00f5es uma vez que ele situa que na trag\u00e9dia de Hamlet, diferentemente da trag\u00e9dia edipiana, <em>\u201cdepois do assassinato do pai, o falo continua l\u00e1. Est\u00e1 todo l\u00e1, e \u00e9 justamente Cl\u00e1udio que \u00e9 encarregado de encarn\u00e1-lo. Do falo real de Cl\u00e1udio, \u00e9 disso que se trata o tempo todo.\u201d<\/em> Para Lacan, o falo est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o ect\u00f3pica com rela\u00e7\u00e3o a posi\u00e7\u00e3o edipiana, nesse caso o falo \u00e9 efetivamente real, e \u00e9 a esse t\u00edtulo que se trata de golpe\u00e1-lo e Hamlet sempre se det\u00e9m antes de faz\u00ea-lo. Ao abordar o torneio do qual Hamlet faz parte destaca que <em>\u201c\u00e9 sem saber que ele entra no mais s\u00e9rio dos jogos\u201d<\/em> aquele que, no encontro com o outro, se identificar\u00e1 com o significante fatal, o falo mortal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esses elementos que ficaram produzindo desassossego nesse tempo de trabalho e durante essa escrita, coloco aqui esse emaranhado que n\u00e3o est\u00e1 claro para mim. Mas algo nessa travessia me tocou a\u00ed.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*Texto escrito para a Jornada do Semin\u00e1rio na AEPM, ocorrida em junho de 2022, a partir do Semin\u00e1rio VI de Jacques Lacan: O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trabalho com o semin\u00e1rio O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o foi para mim uma verdadeira travessia, em que foi poss\u00edvel atravess\u00e1-lo e ao mesmo tempo ser atravessado por ele. 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