{"id":797,"date":"2023-05-04T16:15:21","date_gmt":"2023-05-04T16:15:21","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=797"},"modified":"2025-12-03T14:22:13","modified_gmt":"2025-12-03T14:22:13","slug":"homenagem-postuma-ao-psicanalista-charles-melman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2023\/05\/04\/homenagem-postuma-ao-psicanalista-charles-melman\/","title":{"rendered":"Homenagem p\u00f3stuma ao psicanalista Charles Melman"},"content":{"rendered":"<p>Alguns dias ap\u00f3s o falecimento do psicanalista Charles Melman (1931 \u2013 2022), Alayde Martins prop\u00f4s que cada membro da AEPM que tivesse escrito algo em homenagem a ele levasse seu texto para ser lido no Semin\u00e1rio proferido por ela no dia 28 de outubro de 2022. Sua proposta era de que os textos partissem de algo vindo dele e que tivesse marcado cada um, sua transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise. Seguem-se alguns dos textos lidos nesse dia:<\/p>\n<h5>1. A Charles Melman<\/h5>\n<p>Escutei Melman falar algumas vezes o seguinte: <em>\u201c&#8230; dizer isso a voc\u00eas \u00e9 uma maldade, mas n\u00e3o me preocupo, voc\u00eas esquecer\u00e3o. \u201d<\/em><\/p>\n<p>Acho que, boa disc\u00edpula, n\u00e3o lembro. Desse saber que me foi transmitido, n\u00e3o tenho quase nada guardado em meu poder para me ornamentar e mostrar agora como aquisi\u00e7\u00e3o do meu conhecimento. \u00a0No entanto, suas palavras, sua presen\u00e7a, permanecem para mim como lembran\u00e7as esparsas e marcantes.<\/p>\n<p><em>\u201cA Psican\u00e1lise diz o que \u00e9.\u201d<\/em> Fiquei com essa frase que soou para mim t\u00e3o incompleta! Hoje eu encontro algo que me interroga assim: a verdade, quando fala, \u00e9 sempre enigm\u00e1tica, \u00e9 um semi-dizer que diz tudo, mas que n\u00e3o se d\u00e1 ao saber, toda.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso imaginar o que ocorrer\u00e1 na Psican\u00e1lise, na ALI, sem a presen\u00e7a de Charles Melman, mas tenho a dimens\u00e3o dessa perda para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ficamos com suas palavras, as ditas e as escritas e, se seguirmos sua dire\u00e7\u00e3o, talvez possamos, cada um de seu lugar, fazer um bom uso delas.<\/p>\n<p>Para terminar, trouxe um recorte de sua fala. Como nos propomos a insistir com a proposta de Lacan quanto \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de cart\u00e9is, trouxe alguma coisa sobre isso:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuando Lacan fundou sua <em>\u00c9cole<\/em>, ele desejou que seus membros se organizassem para trabalhar em pequenos grupos de pelo menos quatro mais um, e todo mundo se perguntou: o que \u00e9 esse mais um? Para que serve? Qual \u00e9 sua tarefa, seu trabalho? Ser\u00e1 que esse um a mais deve ser o que sabe mais? O mestre do pequeno grupo? O que deve distingui-lo dos outros membros, disso que ele chamou de cartel? Com efeito, podemos responder que esse um a mais estava l\u00e1 para lembrar que em toda troca de saber \u00e9 preciso levar em conta que esse saber n\u00e3o \u00e9 fechado, mas que \u00e9 aberto e que implica uma exclus\u00e3o, que h\u00e1 ao menos uma quest\u00e3o que esse trabalho n\u00e3o poder\u00e1 responder. Voc\u00eas veem que \u00e9 uma maneira de tentar prevenir o que poderia ser a seguran\u00e7a narc\u00edsica que poderiam adquirir os membros do grupo entre si e com a ideia, que \u00e9 um narcisismo f\u00e1cil de partilhar, de que compreendemos tudo. Eu posso lhes dizer que, no grupo que n\u00f3s formamos na Fran\u00e7a, meu papel \u00e9 justamente funcionar como o um a mais, quer dizer, aquele que vem para perturbar a certeza do saber e lembrar que todo sistema formal, e a pr\u00f3pria linguagem, que \u00e9 em si mesma um sistema formal cujos fonemas constituem os elementos, n\u00e3o nos permitem realizar o anseio de Hegel: o do saber absoluto. O problema \u00e9 que aquele que se acha em posi\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o, em posi\u00e7\u00e3o de ao-menos-um, primeiro escapa \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, porque est\u00e1 exclu\u00eddo do sistema, quer dizer que, de uma certa maneira, ele j\u00e1 est\u00e1 mortificado. Mas, ao mesmo tempo, se ele escapa \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, a mensagem que lhe vem, pelo fato de ocupar esse lugar, \u00e9 a de que ele sabe tudo. \u201d (Melman. <em>Como nos tornamos paranoicos? <\/em>p.36).<\/p><\/blockquote>\n<h5>2. A palavra de Charles Melman<\/h5>\n<p>A morte de Charles Melman me fez recordar de v\u00e1rios momentos em que pude trabalhar institucionalmente com alguns textos escritos por ele e tamb\u00e9m da minha ida ao Semin\u00e1rio sobre A \u00e9tica da Psican\u00e1lise realizado pela Associa\u00e7\u00e3o Lacaniana Internacional (ALI). Foi l\u00e1 que, ao escut\u00e1-lo pela primeira vez, falando em franc\u00eas, e tendo ido a esse trabalho com o trabalho realizado institucionalmente na AEPM, foi poss\u00edvel perceber que, naquele momento, pouco importava se eu sabia ou n\u00e3o o franc\u00eas fluentemente, a fala de Melman incidia sobre mim. N\u00e3o lembro o que foi dito ali por ele, mas naquele momento era isso que importava: o que estava sendo dito.<\/p>\n<p>E um texto de que me recordo no momento \u00e9 aquele intitulado <em>Como fazer?<\/em>, trabalhado institucionalmente no dispositivo \u201cAcolhimento, Entrada e Funda\u00e7\u00e3o Permanente\u201d. Um texto curto, mas ao mesmo tempo um texto longo, um texto que serviu de pretexto para um outro texto, o do trabalho na institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Coloco aqui as palavras de Melman: <em>\u201cUm psicanalista \u00e9 como todo mundo? Certamente, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de fazer exce\u00e7\u00e3o. \u00c9 a\u00ed que \u00e9 a sua poltrona, mesmo se por defini\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o tem tra\u00e7o que a garanta. Essa garantia n\u00e3o pode vir sen\u00e3o de uma coletividade de trabalhadores (qualificativo apagado hoje em dia do l\u00e9xico pol\u00edtico-econ\u00f4mico) apta a produzir a exce\u00e7\u00e3o que o tecnicismo recusa. \u201d<\/em><\/p>\n<p>Com essas palavras que em tantos momentos me afetaram, finalizo esse texto.<\/p>\n<h5>3. Charles Melman, a morte interrompeu o seu trabalho?<a style=\"font-size: 16px; background-image: url('img\/anchor.gif');\" name=\"_Toc118874361\"><\/a><\/h5>\n<p>Charles Melman, n\u00e3o o conheci pessoalmente. Ainda assim, seu trabalho atravessa o meu trabalho de forma\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise \u2013 uma travessia que produz cortes e, com os cortes, os efeitos. Como trabalho, n\u00e3o ficarei formada. Forma\u00e7\u00e3o como a\u00e7\u00e3o? Ou ato? Forma\u00e7\u00e3o como o que n\u00e3o me far\u00e1 ser psicanalista nem, assim, descobrir o tra\u00e7o comum entre os analistas.<\/p>\n<p>\u201cA ess\u00eancia do psicanalista\u201d, curto texto, mas que, em cada um de seus par\u00e1grafos, apresenta um enigma. Pelo impacto do que ali est\u00e1 escrito, n\u00e3o me foi poss\u00edvel n\u00e3o trazer para c\u00e1 v\u00e1rios trechos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um \u201csaber sabido\u201d nem pode haver quando o saber de que se trata \u00e9 do inconsciente. No mencionado texto, Melman desconstr\u00f3i os ideais acerca do que produziria um analista. Um deles \u00e9, para mim, um achado. \u00c9 da an\u00e1lise que pode advir um analista, mas Melman escreveu: \u201cN\u00e3o se pode julgar pelo tempo de an\u00e1lise pessoal nem pelo renome do didata: a resist\u00eancia \u00e0 an\u00e1lise ignora o tempo e despreza a autoridade\u201d.<\/p>\n<p>O passe fracassou, relembra Melman a fala de Lacan. Os membros da institui\u00e7\u00e3o de Psican\u00e1lise exigem a \u201centrega do tra\u00e7o um, que legitima o pertencimento\u201d. O procedimento do passe vinha na \u201ccontram\u00e3o daquilo que o tratamento talvez tivesse podido, de sua parte, estabelecer\u201d. A an\u00e1lise n\u00e3o vai dizer o que \u00e9 um psicanalista. Apenas pode mostrar junto ao la\u00e7o institucional o que se afasta dos fundamentos institu\u00eddos por Freud e Lacan quanto \u00e0 Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p><em>\u201cMas, ent\u00e3o, qual pode ser, portanto, o ser daquele que denuncia o semblant das representa\u00e7\u00f5es, sen\u00e3o o conjunto vazio? \u201d<\/em>. Com isso, volto ao mic\u00e9lio, analogia trazida por Freud para ilustrar de onde brota o desejo. A analogia foi feita por Freud no famoso Cap\u00edtulo VII, no t\u00f3pico que aborda a resist\u00eancia por meio do \u201cEsquecimento dos sonhos\u201d. O mic\u00e9lio: um vazio que produz ramifica\u00e7\u00f5es, ou melhor, como considero pertinente ao que foi escutado por Freud de seus pacientes: associa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 na obra de Freud o termo significante. Contudo, ainda que n\u00e3o o tenha empregado, escutou a cadeia de significantes na qual, como cadeia, algo escapa, formando outras cadeias em torno do que n\u00e3o pode ser representado. Associa\u00e7\u00e3o Livre, regra de ouro da Psican\u00e1lise. O que h\u00e1 de livre diante da sobredetermina\u00e7\u00e3o inconsciente? Como o inconsciente abre para se fechar, n\u00e3o h\u00e1 como anular o vazio.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s trazer o conjunto vazio, Melman remete ao logotipo da Associa\u00e7\u00e3o Lacaniana Internacional \u2013 logotipo que, at\u00e9 ent\u00e3o, nunca me chamara a aten\u00e7\u00e3o. Pela transfer\u00eancia de trabalho em rela\u00e7\u00e3o ao Melman, conta para a Associa\u00e7\u00e3o Escola de Psican\u00e1lise do Maranh\u00e3o a transmiss\u00e3o da Psican\u00e1lise pela ALI.<\/p>\n<p>Melman tamb\u00e9m relembra que, para Lacan, n\u00e3o h\u00e1 analistas, h\u00e1 analista. \u201c(&#8230;) a marca da rela\u00e7\u00e3o ao <em>objeto a<\/em> n\u00e3o \u00e9 o tra\u00e7o um (esse tra\u00e7o f\u00e1lico cobi\u00e7ado pelo candidato), mas a falha, a barra que divide o sujeito\u201d. Estando cada um na AEPM com seu sintoma, sua neurose, \u00e9 pelo trabalho de cada um que a Psican\u00e1lise poder\u00e1 entrar; ou sair, quando se cala o real em jogo.<\/p>\n<p>Tra\u00e7o um e falo? A forma\u00e7\u00e3o do analista, se impregnada de ideal f\u00e1lico, \u00e9 qualquer coisa, menos Psican\u00e1lise. Com a divis\u00e3o do sujeito, a no\u00e7\u00e3o de unidade, de ess\u00eancia, de integridade de um eu forte cai por terra. Cai. Com a queda, perda. Melman &#8220;sem compaix\u00e3o nem piedade&#8221; mostrava isso. Com a queda, algo de novo pode surgir. Neste momento em que n\u00e3o podemos mais contar com sua presen\u00e7a, que seu trabalho fique. Como? Pelo trabalho de alguns trabalhadores decididos.<\/p>\n<h5>4. A causa entre n\u00f3s<\/h5>\n<p><em>\u201cEntre n\u00f3s, a causa vale a pena. \u201d<\/em> Foi esse peda\u00e7o da fala de Charles Melman, em uma entrevista sobre a hist\u00f3ria da ALI, que me veio ao pensamento ap\u00f3s o semin\u00e1rio e a jornada de trabalho na AEPM nos dias que se seguiram \u00e0 not\u00edcia da sua morte. Foi na AEPM que fiquei sabendo da morte de Melman e me pareceu que Alayde Martins nos deu a chance de dar lugar ao modo particular de cada um lidar com essa perda na institui\u00e7\u00e3o, com aqueles com quem trabalhamos em nossa forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na AEPM, costumo ouvir que, quando \u00e9 o caso de comemorar, comemoramos com o trabalho. O novo para mim foi testemunhar que, entre n\u00f3s, o luto tamb\u00e9m \u00e9 feito assim. Confesso que, \u00e0s vezes, parece-me beirar o insensato. Mas \u00e9 que, em um tempo em que as causas n\u00e3o parecem mais ter qualquer apelo, o que diz Melman \u00e9 que a causa, a que est\u00e1 em jogo na psican\u00e1lise, vale a pena. Vale a pena porque n\u00f3s \u00e9 que somos causados pela nossa causa e, portanto, n\u00e3o temos op\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser seguir, com o vazio de que nos constitu\u00edmos e em torno do qual nos sustentamos.<\/p>\n<p>Nessa mesma entrevista, Melman disse ter seguido com o trabalho de Lacan, e permaneceu em seu pr\u00f3prio trabalho referido a seu ensino. O que me trouxe a lembran\u00e7a de um texto em que ele nos convoca a n\u00e3o agirmos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise como quem passeia em um jardim, colhendo as flores, mas como quem p\u00f5e as m\u00e3os \u00e0 obra e tem algo a fazer ali. Fazer s\u00e9rie com Lacan, como este prop\u00f4s que fiz\u00e9ssemos, \u00e9 se p\u00f4r a continuar o trabalho no qual ele engajou sua vida, \u00e9 se colocar na s\u00e9rie que comporta uma falta a ser ressituada. Acho que \u00e9 o que Melman mostrou. Ele disse que se a psican\u00e1lise permanece viva hoje, a culpa \u00e9 de Lacan. A mim parece que a culpa tamb\u00e9m \u00e9 dele.<a name=\"_Toc118874366\"><\/a><\/p>\n<h5>5. Homenagem a Charles Melman<\/h5>\n<p>Hoje, ao ter conhecimento da triste not\u00edcia que \u00e9 a morte do Dr. Charles Melman, me veio \u00e0 lembran\u00e7a uma pergunta feita por ele, \u00e0 \u00e9poca do pico da epidemia de Coronav\u00edrus, \u201cA quem culpar? \u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ainda com seu texto em mente, lembro que Freud j\u00e1 havia nos advertido para a interfer\u00eancia inc\u00f4moda, indesej\u00e1vel da puls\u00e3o de morte em nossas vidas, e que Lacan escancara aquilo de que n\u00e3o queremos saber: do sexo e da morte.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, mesmo com a dor dessa perda irrepar\u00e1vel, com o vazio que \u00e9 n\u00e3o mais sua presen\u00e7a f\u00edsica, me alegro por ter podido receber de Dr. Melman sua palavra, em mim, jamais morta.<\/p>\n<h5>6. Homenagem a Charles Melman<\/h5>\n<p>Com que tra\u00e7o dizer \u201cesse \u00e9 psicanalista\u201d? Melman traz uma lista, que est\u00e1 sempre a nos espreitar: o saber exibido, as interpreta\u00e7\u00f5es relatadas nos congressos, tempo da an\u00e1lise pessoal, renome do didata, o carisma, apetite pelo poder, talento para seduzir\u2026<\/p>\n<p>O ser daquele que denuncia o semblante das representa\u00e7\u00f5es \u00e9 o conjunto vazio. O que de sa\u00edda \u00e9 interessante, j\u00e1 que esse nome traz uma contradi\u00e7\u00e3o, ser um conjunto, juntar nada. Esse nada mant\u00e9m o desejo, que delega como sua causa os res\u00edduos ali evacuados pelo funcionamento significante.<\/p>\n<p>Os analistas n\u00e3o formam uma uni\u00e3o de indiv\u00edduos, mas objetos n\u00e3o especulariz\u00e1veis nem quantific\u00e1veis.<\/p>\n<p>Em outro texto nos diz que o psicanalista \u00e9 como todo mundo, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de fazer exce\u00e7\u00e3o. E essa \u00e9 sua poltrona.<\/p>\n<h5>7.<a name=\"_Toc118874371\"><\/a> A palavra viva de Charles Melman<\/h5>\n<p>\u201cA palavra \u00e9 seguramente um ato eminentemente \u00e9tico, pois ela provoca no ouvinte essa avalia\u00e7\u00e3o do quanto de desejo que pode se achar a\u00ed engajado\u201d, diz-nos Melman, em seu texto <em>N\u00e3o ceder em seu desejo<\/em>. Escrevo \u201cdiz\u201d e n\u00e3o o passado do verbo. E me pergunto: por qu\u00ea? Que tempo \u00e9 o tempo da palavra? O que me vem \u00e9 que a palavra, enquanto ato, perdura no que ela acontece, onde, como o curso de um vasto e profundo rio, ela insiste em se fazer desaguar, a cada vez, e para cada um. A palavra de Charles Melman, das vezes em que a li, aqui, e nas poucas vezes que a escutei sendo dita, ALI, ali e aqui, sempre me tocou como uma palavra que faz corte, deixando, em si, um embara\u00e7o, palavra na qual a transmiss\u00e3o da Psican\u00e1lise se encontra inscrita, insistente, sendo, assim, poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Quanto de desejo est\u00e1 engajado na palavra de Melman? Que homem de express\u00f5es vivas, olhar agudo e voraz, riso simp\u00e1tico, e presen\u00e7a \u00fanica! Foi o que pensei ao ouvi-lo falar, vendo seus gestos, pelo Youtube, numa live com o psicanalista Alfredo Jerusalinsky, em 2020, em plena pandemia. No entanto, n\u00e3o foi a simpatia de Melman que fez sua marca ali, em mim, mas o trabalho. Quando li as palavras de Melman, em entrevistas feitas pelo psicanalista Jean-Pierre Lebrun, e que comp\u00f5em o genial livro <em>O homem sem gravidade \u2013 gozar a qualquer pre\u00e7o<\/em>, suas respostas me fizeram pensar no quanto elas s\u00e3o atuais, o que, por sua vez, me remeteu \u00e0 atualidade presente nas palavras de Freud. Ent\u00e3o, qual o tempo das palavras? Quanto tempo dura o efeito de palavras, como essas de Melman, nesse livro? Parece-me que n\u00e3o se trata de dar peso ao cronol\u00f3gico de um tempo. Penso na marca, no lugar. A marca, isso que permanece num ensino e numa transmiss\u00e3o; o lugar, que fica vazio, deixando um buraco aberto. Lembrei-me agora de uma letra do Milton Nascimento. A can\u00e7\u00e3o se chama \u201cA terceira margem do rio\u201d e \u00e9 baseada no conto hom\u00f4nimo de Guimar\u00e3es Rosa.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"padding-left: 360px;\"><em>\u201c\u00c1gua da palavra, \u00e1gua calada, pura<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 360px;\"><em>\u00c1gua da palavra, \u00e1gua de rosa dura<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 360px;\"><em>Proa da palavra, duro sil\u00eancio, nosso pai\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Trata-se de um duro sil\u00eancio e de uma atemporal palavra, que vive.<\/p>\n<h5><a name=\"_Toc118874372\"><\/a>8. A incid\u00eancia do texto <em>\u201c<\/em>Como fazer? \u201d<em>, <\/em>de Charles Melman, no trabalho da AEPM<\/h5>\n<p style=\"padding-left: 360px;\"><em>[&#8230;] il convient [&#8230;] de distinguer savoir et connaissance. Le savoir vous poss\u00e8de, vous tentez de poss\u00e9der les connaissances. [&#8230;]<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 360px;\"><em>Le savoir engage la participation du sujet et met en cause son \u00e9thique.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 360px;\"><em>\u00c0 votre id\u00e9e comment faire passer l\u2019acquisition des connaissances au niveau de leur prise s\u2019imposant \u00e0 un sujet que dirige son \u00e9thique ?<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 360px; text-align: right;\">(Charles Melman)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi preciso sofrermos na pele o que \u00e9 um lugar vazio para acolher o que Melman nos diz nesse texto. N\u00e3o basta estar estruturada como uma institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica para dar lugar \u00e0 psican\u00e1lise, nos diz Melman, usando a met\u00e1fora \u201cpoltrona\/assento\u201d. N\u00e3o basta termos um lugar f\u00edsico, estatuto, membros, trabalhadores incans\u00e1veis da psican\u00e1lise. N\u00e3o basta. Lembrando da pr\u00f3pria hist\u00f3ria da psican\u00e1lise, o que nos diz Melman? Que s\u00e3o mesmo os guardi\u00f5es da psican\u00e1lise os que a detratam, ignorando o anal\u00edtico no seio da institui\u00e7\u00e3o. E nos traz nada menos do que Anna Freud, a filha de Freud, como exemplo de que essa transmiss\u00e3o pode errar, at\u00e9 mesmo com os descendentes de sua fonte.<\/p>\n<p>Insisto um pouco nesse ponto. O que nos sustenta no trabalho de uma institui\u00e7\u00e3o? Quanto \u00e0 AEPM, Alayde Martins nos enumera: \u201co la\u00e7o transferencial, o discurso psicanal\u00edtico\u201d. E o que nos associa? \u201cO sintoma de cada um, nossas grandes e pequenas diferen\u00e7as\u201d.\u00a0 Mas, ainda assim, um terceiro ponto, que ela levanta, a falta, diz respeito a esse lugar que n\u00e3o \u00e9 sem ela que se mant\u00e9m aberto, que nos convoca no mesmo ponto em que nos angustia, e a cito ainda: \u201ce que teria nos fisgado no mesmo anzol, sem fazer de n\u00f3s um cardume\u201d. E foi assim que passamos por este texto de Melman. Mas, se este \u00e9 um ponto central no texto, h\u00e1 outros pontos que reverberaram quando o trabalh\u00e1vamos em um momento de passagem.<\/p>\n<p>No segundo par\u00e1grafo, Melman destaca que esse \u201cdiv\u00f3rcio\u201d com o anal\u00edtico adv\u00e9m da dificuldade que alguns psicanalistas encontram em estar fora da comunidade cient\u00edfica.\u00a0 Quantos entraram na psican\u00e1lise e viraram as costas para ela em prol de um interesse particular?\u00a0 <em>Ex-psys<\/em> que sa\u00edram das institui\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas e viraram \u201ccad\u00e1veres que boiam\u201d diz Melman, pelas institui\u00e7\u00f5es culturais, resvalando pela psican\u00e1lise sem pagar o pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Lembro aqui de um analisando, professor da universidade. Em determinando momento, n\u00e3o fazia muito sentido para ele estar ali na an\u00e1lise, nem na institui\u00e7\u00e3o; ele mostrava claramente que tinha alcan\u00e7ado o que era a psican\u00e1lise em seu funcionamento e chegado a seu pre\u00e7o. Devemos nos livrar dos cad\u00e1veres que \u201cboiam de barriga estufada\u201d na institui\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o pessoas que estiveram na institui\u00e7\u00e3o e, em determinado momento se renderam ao pre\u00e7o do \u201cprest\u00edgio\u201d do saber coroado. Naquele momento de debandada, contamos com poucos e n\u00e3o desistimos. Foi duro, mas suficiente. Valeu, perdura a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Melman, ao falar-nos do Pr\u00e9aut, nos mostra como o trabalho realizado por essa institui\u00e7\u00e3o foi tomando o rumo da Universidade, ao ponto de sua dire\u00e7\u00e3o fazer o pedido para que \u201crenunci\u00e1ssemos \u00e0 nossa linguagem\u201d e que se tratava de levar a psican\u00e1lise para a universidade, contanto que n\u00e3o tivesse psican\u00e1lise.\u00a0 Ou seja, seria preciso se \u201cadequar ao discurso da universidade\u201d. Como algu\u00e9m pode ser destitu\u00eddo de um cargo de presidente de honra de uma institui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Mas fica o que Melman nos diz: \u201cum psicanalista \u00e9 como todo mundo? Certamente, salvo \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de fazer a\u00ed exce\u00e7\u00e3o\u201d; e acrescenta: \u201c\u00e9 esse o seu lugar, mesmo que por defini\u00e7\u00e3o ele n\u00e3o tenha um tra\u00e7o que o garanta\u201d.<\/p>\n<p>Nesse ponto, Melman retorna ao que trouxe de in\u00edcio, o lugar de exce\u00e7\u00e3o \u00e9 esse lugar que n\u00e3o tem um tra\u00e7o comum que garanta o que \u00e9 um analista, mas, ao mesmo tempo, \u00e9 poss\u00edvel saber quando se est\u00e1 diante de um analista. E Melman diz que essa garantia adv\u00e9m de uma coletividade de trabalhadores, e aqui lembro que Lacan diz que uma coletividade n\u00e3o \u00e9 uma generalidade no texto do Tempo L\u00f3gico, e que a exce\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de produzir \u00e9 aquela que a t\u00e9cnica recusa. N\u00e3o h\u00e1 par\u00e2metro, h\u00e1 lugar e posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, Melman vai propor uma organiza\u00e7\u00e3o, a qual chama de <em>Bureau<\/em>, um modo de organiza\u00e7\u00e3o que <em>ultrapassa<\/em> a organiza\u00e7\u00e3o que se tornou legal a partir da lei de 1901, qual seja, \u201caquela derivada dos princ\u00edpios da nossa disciplina\u201d. Aqui, ent\u00e3o, Melman diz que vai propor algo derivado do princ\u00edpio da psican\u00e1lise, que \u00e9 diferente daquela proposta a partir da lei de 1901. Do que se trata?<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 proposta que Melman vai fazer ao Bureau, vimos que a lei \u00e0 qual ele se refere como ultrapassada \u00e9 a lei de 1 de julho de 1901 que estabelece as normas para as associa\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias e sociais na Fran\u00e7a. E ele nos diz que \u00e9 preciso que nos voltemos para uma proposta <em>associativa que advenha dos princ\u00edpios da psican\u00e1lise<\/em>. <em>E a sua proposta nessa dire\u00e7\u00e3o, diz ele, retoma a triparti\u00e7\u00e3o da democracia que, em sua origem ateniense, assegura a vacuidade da poltrona de um chefe cujo encargo \u00e9 assegurado alternadamente pelos membros do Diret\u00f3rio<\/em>.<\/p>\n<p>A triparti\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \u00e0 qual se refere Melman, creio que seriam os tra\u00e7os fundamentais do regime democr\u00e1tico ateniense, a saber: a isegoria, a isonomia e a isocracia, ou seja, todos tinham o direito <em>\u00e0 palavra, a igualdade perante a lei e a participa\u00e7\u00e3o no exerc\u00edcio do poder.<\/em><\/p>\n<p>Melman n\u00e3o diz que \u00e9 baseado na democracia ateniense, <em>mas que ela \u00e9 mais derivada dos princ\u00edpios da nossa pr\u00e1tica, invertendo assim a ordem da hist\u00f3ria.<\/em><\/p>\n<p>A partir dessa proposi\u00e7\u00e3o, Melman prop\u00f5e um funcionamento institucional para ALI de tr\u00eas inst\u00e2ncias: uma dire\u00e7\u00e3o, um executivo e um conselho. E termina com as seguintes palavras:<\/p>\n<p>Isto \u00e9, naturalmente, para ser provado e, enquanto eu puder, tentarei contribuir.<\/p>\n<p>E foi a partir do trabalho com esse texto que come\u00e7amos a proposta de um novo funcionamento, e, como nos diz Lacan na <em>Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola<\/em>, o novo s\u00f3 se institui no funcionamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> [&#8230;] conv\u00e9m distinguir saber e conhecimento. O saber possui voc\u00eas, voc\u00eas tentam possuir o conhecimento. [&#8230;]<\/p>\n<p>O saber engaja a participa\u00e7\u00e3o do sujeito e coloca em causa a sua \u00e9tica.<\/p>\n<p>Na sua opini\u00e3o, como fazer passar a aquisi\u00e7\u00e3o do conhecimento ao n\u00edvel do que se imp\u00f5e a um sujeito orientado pela sua \u00e9tica?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns dias ap\u00f3s o falecimento do psicanalista Charles Melman (1931 \u2013 2022), Alayde Martins prop\u00f4s que cada membro da AEPM que tivesse escrito algo em homenagem a ele levasse seu texto para ser lido no Semin\u00e1rio proferido por ela no dia 28 de outubro de 2022. 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