{"id":843,"date":"2023-07-31T11:33:16","date_gmt":"2023-07-31T11:33:16","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=843"},"modified":"2023-07-31T12:03:15","modified_gmt":"2023-07-31T12:03:15","slug":"o-discurso-analitico-ou-interrogar-como-saber-o-que-se-refere-a-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2023\/07\/31\/o-discurso-analitico-ou-interrogar-como-saber-o-que-se-refere-a-verdade\/","title":{"rendered":"O discurso anal\u00edtico ou interrogar como saber o que se refere \u00e0 verdade"},"content":{"rendered":"<p><em>Encore<\/em>, <em>un corps<\/em>, um corpo, <em>la jouissance<\/em>, o gozo, e o <em>j\u2019ou\u00efs sens,<\/em> ou\u00e7o sentido. Mais ainda, corpo, gozo e sentido. Mas isso que nos traz Lacan, em toda sua polissemia, passa por onde? Um repuxo, um empuxo, que a cada vez permite dizer: de novo, encore. Passa por um fio que traz em si o inconcili\u00e1vel e o vazio pr\u00f3prios ao falante.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos pelo que Melman nos deixou nas p\u00e1ginas da ALI: \u201cO saber possui voc\u00eas e voc\u00eas tentam possuir o conhecimento; o saber engaja a participa\u00e7\u00e3o do sujeito e coloca em causa a sua \u00e9tica.\u201d Uma pequena narrativa pode dar a dimens\u00e3o desse assujeitamento, sem escolha: de tr\u00e1s para frente. A av\u00f3 dizia assim, sem estar referida a qualquer coisa: <em>entre les deux mon coeur balance<\/em>. Era o galicismo que invadia as escolas do in\u00edcio dos 1900. E a neta se perguntava o que ela queria dizer quando lhe dizia isso, assim sorrindo. At\u00e9 hoje ela n\u00e3o sabe. Mas, de alguma forma, era uma pergunta que a cutucava, dizendo-lhe que era assim, que podia ser assim, que ali havia um p\u00eandulo que oscilava e esse p\u00eandulo escorria junto ao eterno. E foi assim que um dia, quando n\u00e3o havia ningu\u00e9m em casa, a av\u00f3, desavisadamente, entrou no quintal e deixou um ovo cair com a gema e a clara a esparramar-se pelo ch\u00e3o de cimento. Pelo quintal, deixou tamb\u00e9m para neta um patinho e foi embora; ao chegar em casa, a vis\u00e3o do patinho e do ovo quebrado com gema e clara estarreceu a pequena que n\u00e3o conseguia admitir o nascimento do patinho que n\u00e3o fosse somente da casca do ovo. N\u00e3o, ali tinha mais alguma coisa. Ele n\u00e3o saiu da casca do ovo, como dizia a can\u00e7\u00e3o. E, nesse minuto, vieram-lhe simultaneamente as ideias de que o giz acabava, escrevia-se e o giz acabava, n\u00e3o havia mais giz. E junto a essa finitude, vinha o rel\u00f3gio, cujos ponteiros n\u00e3o paravam de girar. Ah, o ponteiro n\u00e3o nos concede ficar um pouquinho ali naquele hor\u00e1rio, quando entr\u00e1vamos ali, j\u00e1 sa\u00edamos. \u00c9 fugidio.<\/p>\n<p>Essa no\u00e7\u00e3o de tempo e espa\u00e7o que se apresentava como um <em>shazan<\/em>, <em>eureca<\/em>, ou mesmo como o <em>Aleph<\/em> de Cantor ou de Jorge Luis Borges e ela ainda n\u00e3o sabia, isso lhe abria uma possibilidade de acolhimento desse vazio. Mas esse vazio que se revelava assim, que irrompia e entristecia, ele tamb\u00e9m clamava por um lenitivo que viesse amparar o ser. Ainda que n\u00e3o soubesse que esse desamparo j\u00e1 estava l\u00e1 antes,<em> Nebenmensch<\/em>, nos disse Freud, dedicaria a sua vida para chegar a isso que j\u00e1 tinha entrevisto. Mas, antes de retornar a isso, assim, de colocar isso em letra, foi poss\u00edvel saber que \u00e9 assim, encore, de novo, mais, ainda.<\/p>\n<p>Na li\u00e7\u00e3o 4, do dia 9 de janeiro de 1973, temos que \u201co discurso anal\u00edtico \u00e9 esse modo de rela\u00e7\u00e3o nova que se fundou somente pelo que funciona como fala, <em>fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise.\u201d<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1<\/a><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">]<\/a> \u00c9 assim que entra no mundo esse discurso, e que neste se trata \u201cdo que se l\u00ea para al\u00e9m do que voc\u00eas incitaram o sujeito a dizer&#8230; a dizer n\u00e3o importa o qu\u00ea\u201d, tolices. O que importa aqui \u00e9 \u201ca fun\u00e7\u00e3o do que se l\u00ea\u201d e isso \u00e9 \u201cum ensinamento do qual eu sou o efeito\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>! E n\u00e3o \u00e9 no tecido da an\u00e1lise, na movimenta\u00e7\u00e3o dos fios, que a cada vez, nos deparamos com:\u00a0 <em>de novo, mais uma vez, ainda, mais: encore<\/em>?<\/p>\n<p>Lacan tra\u00e7a o fio em que se situa o escrito e a leitura, a partir do discurso anal\u00edtico, das quatro letras que o constituem:<em> a, S barrado, S1 e S2<\/em>. E nisso j\u00e1 introduz o que \u00e9 a disparidade subjetiva na transfer\u00eancia, que o analista, ali, \u00e9 um lugar, que ele s\u00f3 pode estar ali, operando a partir do <em>semblant<\/em> de \u201ca\u201d, sustentado por um saber sob a barra, S2, que est\u00e1 no lugar da verdade, dentro da transfer\u00eancia, convocando o sujeito, S barrado, produzindo S1, que est\u00e1 disjunto do S2. O analista funcionando assim, neste lugar, a partir da letra, convocando o sujeito. Mas, para al\u00e9m do discurso anal\u00edtico, Lacan acrescenta tamb\u00e9m tr\u00eas letras ao discurso da psican\u00e1lise<em>: A, a e <\/em><em>\u03a6<\/em>, com as quais ele vai avan\u00e7ar na li\u00e7\u00e3o 9, do dia 20 de mar\u00e7o de 1973: traz o A como um lugar, mas \u00e9 um lugar que n\u00e3o se sustenta, Lacan o escreve como um S, um significante da falta do A, um S de A barrado, uma falha, um buraco. E diz que \u00e9 a partir desse buraco que o <em>pequeno a <\/em>funciona. Ent\u00e3o, o discurso psicanal\u00edtico inclui essa falta radical; se A \u00e9 um lugar, \u00e9 um lugar de perda. Lacan tamb\u00e9m traz o \u03a6, o termo falo, uma letra que se distingue das outras, \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o de uma nova dimens\u00e3o. E essas tr\u00eas letras n\u00e3o s\u00e3o da mesma cepa que o significante, nos diz Lacan.<\/p>\n<p>O discurso \u00e9 considerado uma funda\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 realidade pr\u00e9-discursiva, cada realidade se funda e se define por um discurso. \u00c9 no discurso que se ordena a rela\u00e7\u00e3o sexual, n\u00e3o h\u00e1 homens, mulheres, crian\u00e7as em uma realidade pr\u00e9-discursiva, pois homens, mulheres, crian\u00e7as <strong>s\u00e3o significantes<\/strong>. E a partir deste momento, Lacan vai desbastando toda a subst\u00e2ncia que poderia ser imputada a esses significantes: \u201cum homem n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m de um significante. Uma mulher procura um homem a t\u00edtulo de significante. Um homem procura uma mulher [&#8230;] a t\u00edtulo do que s\u00f3 se situa a partir do discurso, [&#8230;] pois a mulher \u00e9 n\u00e3o toda, h\u00e1 sempre alguma coisa nela que escapa ao discurso.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>; a longa incurs\u00e3o que R\u00e9canati faz pela l\u00f3gica e pela gram\u00e1tica de Port-Royal, \u00e9 para nos mostrar que na copula\u00e7\u00e3o entre sujeito e predicado, o que se constr\u00f3i \u00e9 a possibilidade de atribuir uma subst\u00e2ncia ao ser a partir do predicado; mas o que se mostra \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 subst\u00e2ncia no ser, ela s\u00f3 existe na substancialidade do predicado.<\/p>\n<p>O significante foi introduzido a partir da lingu\u00edstica, a partir de algo que, no campo em que se produz a palavra, n\u00e3o \u00e9 evidente. Parece simples, mas na verdade, o significante n\u00e3o \u00e9 evidente, foi preciso que a lingu\u00edstica o mostrasse. Por outro lado, entre a lingu\u00edstica e a <em>linguisteria<\/em> h\u00e1 um div\u00f3rcio. Quando falamos, isso que falamos se significa no momento em que falamos, n\u00e3o h\u00e1 significantes, tecemos nosso discurso com palavras e com as significa\u00e7\u00f5es que supomos estar nelas. No entanto, isso n\u00e3o se sustenta em uma fun\u00e7\u00e3o de significa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 garante de que que a significa\u00e7\u00e3o j\u00e1 esteja l\u00e1, porque a significa\u00e7\u00e3o \u00e9 o outro quem d\u00e1. E Lacan nos adverte: o que voc\u00eas ouvem n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com o que isso significa, nenhuma rela\u00e7\u00e3o: \u201c\u00e9 um ato que se institui sen\u00e3o por um discurso dito cient\u00edfico, e isso n\u00e3o \u00e9 evidente\u201d. Falamos apoiados em uma suposta rela\u00e7\u00e3o das palavras, que buscam estabelecer os v\u00ednculos entre o conceito e a imagem ac\u00fastica, isto \u00e9 fazer signo, esse \u00e9 o amor da l\u00edngua. Mas, por outro lado, isso n\u00e3o \u00e9 evidente. E foi preciso Freud nos dizer que h\u00e1 algo que fala no sujeito a despeito do que estabelece a sintaxe da l\u00edngua e Lacan nos mostrar que isso est\u00e1 estruturado como uma linguagem.<\/p>\n<p>O significante se refere a um discurso, a um modo de funcionamento da linguagem, a uma utiliza\u00e7\u00e3o da linguagem como la\u00e7o. E o que quer dizer esse la\u00e7o? Lacan nos encaminha para o viver, que comporta vida e morte ao mesmo tempo, o que nos leva \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o sexuada; e diz Lacan: \u201cessa \u00e9 a ambiguidade que resulta do significante\u201d; e o significante n\u00e3o tem a ver com os ouvidos, mas com a leitura do que se ouve do que se diz.\u00a0 O que se ouve n\u00e3o \u00e9 o significado, \u00e9 o significante, o significado \u00e9 efeito do significante, existe algo que \u00e9 efeito do discurso. Lembro de Marguerite Duras, a partir de Jacques Hold, que \u201cabre sepulturas\u201d a cada enuncia\u00e7\u00e3o, inscrevendo o que \u00e9 letra morta. E lembro de uma quest\u00e3o que me veio em um trabalho: \u00e9 entrando nessa vida que tecemos nossa mortalha de letras?<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que entramos na linguagem, mergulhamos na linguagem, jubilamos, submetemo-nos <strong>a um saber<\/strong>: \u201cum saber que n\u00e3o comporta o menor conhecimento, j\u00e1 que est\u00e1 inscrito num discurso do qual, \u00e0 semelhan\u00e7a do grilh\u00e3o de antigo uso, o sujeito que traz sob a sua cabeleira o codicilo que o condena \u00e0 morte n\u00e3o sabe nem o texto, nem em que l\u00edngua ele est\u00e1 escrito, nem tampouco que foi tatuado em sua cabe\u00e7a raspada enquanto ele dormia.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Estamos apartados daquilo que constitui o que h\u00e1 de mais \u00edntimo no ser, o <em>kern<\/em> do ser. E n\u00e3o \u00e9 a isso que uma an\u00e1lise nos leva? A esse n\u00e3o-saber que salta inesperadamente, que vem de um Outro lugar, que se enuncia, que nos habita e que s\u00f3 podemos encontr\u00e1-lo no que Lacan denomina de prosopopeia, essa coisa que fala em nome pr\u00f3prio, a verdade: \u201cEu, a verdade, falo: [&#8230;] Ali onde a fala mais cautelosa exibe um ligeiro trope\u00e7o, \u00e9 para com sua perf\u00eddia que ela falta, [&#8230;] daqui em diante n\u00e3o ser\u00e1 nada f\u00e1cil agir como se nada houvesse, [&#8230;] a inten\u00e7\u00e3o mais inocente fica desconcertada ao n\u00e3o mais poder calar que seus atos falhos s\u00e3o os mais bem sucedidos e que seu fracasso premia seu mais secreto anseio.\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Assim fugidia, t\u00e3o logo aparece, a verdade se esquiva; imposs\u00edvel dizer toda a verdade.<\/p>\n<p>Se \u00e9 o saber que engaja o sujeito em sua \u00e9tica, como diz Melman, na \u00e9tica do desejo, por outro lado, quem fala \u00e9 a verdade. Ent\u00e3o, o sujeito do desejo tem rela\u00e7\u00e3o com o saber e com a verdade. Lacan diz que \u201c[&#8230;] a verdade n\u00e3o \u00e9 algo que se alcance t\u00e3o facilmente; diria que se a an\u00e1lise se afirma por uma presun\u00e7\u00e3o, \u00e9 que dela possa se constituir um <em>saber sobre a verdade.\u201d<\/em> <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> Somente uma an\u00e1lise engaja o sujeito no desejo, mas isso se d\u00e1 a cada vez. E em ato.<\/p>\n<p>Na li\u00e7\u00e3o 9, do dia 20 de mar\u00e7o de 1973, Lacan entra novamente com os tr\u00eas termos indicados no cap\u00edtulo 4: o pequeno<em> a<\/em>, o S de A barrado e o \u03a6, desta vez, inscrevendo-os em um tri\u00e2ngulo constitu\u00eddo pelos v\u00e9rtices R, I<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, S, que designam, em suas jun\u00e7\u00f5es: do lado direito, \u03a6, (entre R e I) um pouco de realidade, com que se sustenta o princ\u00edpio do prazer e esse um pouco de realidade \u00e9 \u201ctudo o que nos \u00e9 permitido abordar de realidade que permanece enraizado na fantasia\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-845 aligncenter\" src=\"https:\/\/aepm.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/gozo-300x170.png\" alt=\"\" width=\"364\" height=\"206\" srcset=\"https:\/\/aepm.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/gozo-300x170.png 300w, https:\/\/aepm.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/gozo-768x435.png 768w, https:\/\/aepm.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/gozo.png 880w\" sizes=\"(max-width: 364px) 100vw, 364px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Do lado esquerdo, temos o S de A barrado (entre I e S), a impossibilidade de dizer toda a verdade. E por fim, o pequeno <em>a<\/em> (entre S e R), \u201caquilo pelo qual o Simb\u00f3lico, ao dirigir-se ao Real, nos demonstra a verdadeira natureza do objeto <em>a<\/em>, que qualifiquei h\u00e1 pouco de <em>semblante <\/em>de ser\u201d pois nos d\u00e1 <strong>o suporte do ser<\/strong>. O pequeno <em>a <\/em>funciona como suporte do ser, na medida, em que \u00e9 constituinte da fantasia, enquadre da realidade ps\u00edquica, e \u00e9 com o que nos repetimos da mesma maneira, com os mesmos trope\u00e7os. \u201cO pequeno <em>a <\/em>n\u00e3o se inscreve, ele n\u00e3o \u00e9 o ser, \u00e9 aparentemente, alguma coisa, mas que s\u00f3 se resolve pelo seu fracasso, justamente por n\u00e3o se inscrever completamente na abordagem do Real\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>\u201cA verdade \u00e9 isso que n\u00e3o se alcan\u00e7a nunca, a n\u00e3o ser por vias tortuosas. \u00a0A verdade \u2013 que somos habitualmente levados a invocar \u2013 \u00e9 preciso simplesmente lembrar, que n\u00e3o se deve crer que j\u00e1 se est\u00e1 mesmo no semblante.\u201d, pois o analista n\u00e3o \u00e9 o semblante, mas eventualmente pode ocupar esse lugar, \u201cpondo o objeto<em> a<\/em> no lugar de <em>semblant<\/em>, para <strong>interrogar como saber o que se refere \u00e0 verdade<\/strong>\u201d.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 um saber, portanto, que n\u00e3o se sabe, e lembro aqui que foi a partir da transfer\u00eancia que Freud serviu a Eros para servir-se dele, no trabalho com as hist\u00e9ricas. H\u00e1 um saber, diz Lacan, \u201cque n\u00e3o sabe e que \u00e9, propriamente falando, um saber que se sustenta pelo significante, como tal. E que um sonho n\u00e3o introduz a nenhuma experi\u00eancia insond\u00e1vel, a nenhuma m\u00edstica, que isso se l\u00ea no que diz dele e que poder\u00e1 mesmo ir mais longe, tomando os equ\u00edvocos no sentido mais anagram\u00e1tico da palavra.\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n<p>Mas, se temos freudianamente que o inconsciente \u201ctinha ao menos esse pequeno grau de abertura, gra\u00e7as ao qual o sofrimento podia ser dito\u201d; nesse grau de abertura havia \u201calgo que, verdadeiramente, [&#8230;] o transcendia.\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> Lacan desbasta a carne e nos deixa o osso: h\u00e1 sempre uma busca fadada ao fracasso, uma busca v\u00e3 de uma sabedoria \u201cinatang\u00edvel\u201d, inating\u00edvel e intang\u00edvel, da ordem do imposs\u00edvel. Mas ent\u00e3o, o que \u00e9 que se sabe? O significante se estabelece nesse lugar Outro, na <em>dit-mension<\/em> com todas as asson\u00e2ncias de <em>dita-men\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>da casa do dito<\/em> ou <em>da dimens\u00e3o<\/em> \u2013 e essa \u00e9 a dimens\u00e3o do dito pelo qual o saber estabelece o Outro como lugar. Esse \u00e9 um saber de que se pode gozar, ter o usufruto, pois \u00e9 assim que se renova a cada vez. \u201cA funda\u00e7\u00e3o de um saber \u00e9 que o gozo de seu exerc\u00edcio\u201d \u2013 seu usufruto, acrescento \u2013 \u201c\u00e9 o mesmo que o da sua aquisi\u00e7\u00e3o.\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n<p>Seguindo com Lacan, diante o discurso anal\u00edtico, arrisco-me a dizer que a constitui\u00e7\u00e3o do ser \u00e9 a constitui\u00e7\u00e3o do ser de signific\u00e2ncia, o discurso da psican\u00e1lise nos leva a isso. A constitui\u00e7\u00e3o do ser na linguagem se d\u00e1 a partir desse Outro, desse S de A barrado, mas o que \u00e9 demandado n\u00e3o \u00e9 o que \u00e9 pedido, nem o que \u00e9 dado. E essa margem que se abre entre a demanda, o desejo e a necessidade, por puro destino linguageiro, essa margem \u00e9 irrecuper\u00e1vel.\u00a0 S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ler a inscri\u00e7\u00e3o do sujeito a partir do tempo l\u00f3gico, lembrando que o momento de concluir j\u00e1 est\u00e1 no bojo do instante de ver, ainda que, para isso, seja preciso um tempo para compreender. Se, como seres da linguagem passamos pela demanda ao Outro e pela demanda do Outro, abrindo uma margem irrecuper\u00e1vel, entre o desejo e a demanda, estas s\u00f3 podem ser inscritas retroativamente, a partir da entrada do falo. Essa marca, essa inscri\u00e7\u00e3o que marca os seres de linguagem que se inscrevem de um lado ou de outro: S1, <em>esse um <\/em>e do outro, S2: <em>esse deux, esse d\u2019eux<\/em>, esse deles, tem-se que, o que vem em supl\u00eancia a esse desencontro, \u00e9 o encontro faltoso entre S barrado e o pequeno <em>a<\/em>, a fantasia, essa janela que abre lugar e fecha, ao mesmo tempo, o acesso ao inapreens\u00edvel.<\/p>\n<p>Arrisco, ainda, uma quest\u00e3o: a mulher, assim como a verdade, \u00e9 n\u00e3o-toda; \u00e9 cada uma, a cada vez, n\u00e3o se define como <em>La femme<\/em>, <em>A mulher<\/em>, assim como a verdade n\u00e3o se define como <em>A verdade<\/em>. Ambas est\u00e3o do lado da n\u00e3o-toda. A verdade enuncia-se enquanto prosopopeia. E a mulher? O que h\u00e1 de indetermina\u00e7\u00e3o em sua exist\u00eancia, ou <em>ex-sist\u00eancia<\/em>, isso que n\u00e3o a define apenas por um tra\u00e7o <em>um, <\/em>\u00fanico; n\u00e3o seria isso que a coloca, assim como \u00e0 verdade, pr\u00f3xima a esse A de abismo, A barrado, que s\u00f3 pode ser enunciado para al\u00e9m da l\u00edngua, a partir da al\u00edngua?<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* \u00a0Trabalho escrito a partir do dispositivo da AEPM<em> Trabalho preparat\u00f3rio ao Semin\u00e1rio de ver\u00e3o da ALI \u2013 2023<\/em>, sob a dire\u00e7\u00e3o de Val\u00e9ria Lameira e Virginia Guilhon (17\/01\/2023 a 09\/05\/2023) e apresentado no Encontro sobre o Semin\u00e1rio Encore realizado pelos Cart\u00e9is Lacanianos em 03\/06\/2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. <em>Encore<\/em> (1972-1973). Rio de Janeiro: Escola da Letra Freudiana, edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o comercial, 2010 p.93.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ibidem, p.92.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ibidem, p.99.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, J. Subvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano. In: <em>Escritos.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1998 p. 818.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Lacan, J. A Coisa freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psican\u00e1lise. In: <em>Escritos.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1998 p. 410-411.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Lacan, J. <em>Encore<\/em> (1972-1973). Rio de Janeiro: Escola da Letra Freudiana, edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o comercial, 2010 p.185.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Na vers\u00e3o da ALI est\u00e1 i-Magin\u00e1rio, e n\u00e3o Imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Lacan, J. <em>Encore<\/em> (1972-1973). Rio de Janeiro: Escola da Letra Freudiana, edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o comercial, 2010 p.189.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>Ibidem, p.190.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Ibidem, 190-191.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Ibidem, 191.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Ibidem, 191.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Ibidem, 192.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encore, un corps, um corpo, la jouissance, o gozo, e o j\u2019ou\u00efs sens, ou\u00e7o sentido. Mais ainda, corpo, gozo e sentido. Mas isso que nos traz Lacan, em toda sua polissemia, passa por onde? Um repuxo, um empuxo, que a cada vez permite dizer: de novo, encore. Passa por um fio que traz em si [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[13,12],"tags":[88,87,37],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/843"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=843"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/843\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":847,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/843\/revisions\/847"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=843"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=843"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=843"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}