{"id":848,"date":"2023-07-31T12:00:58","date_gmt":"2023-07-31T12:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=848"},"modified":"2023-07-31T16:50:12","modified_gmt":"2023-07-31T16:50:12","slug":"vocorocas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2023\/07\/31\/vocorocas\/","title":{"rendered":"Vo\u00e7orocas"},"content":{"rendered":"<p><strong>A porta de entrada<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Por mais de uma vez escutei Melman falar da import\u00e2ncia da porta por onde se entra e sua determina\u00e7\u00e3o naquilo que se estabelece para o sujeito, passado seu umbral. Minha porta de entrada na Psican\u00e1lise deu-se por minha an\u00e1lise pessoal, tendo a leitura de meus significantes aberto algo absolutamente novo. Minha porta de entrada na leitura de Lacan deu-se atrav\u00e9s do Semin\u00e1rio 20, \u201cMais ainda\u201d, \u00fanico semin\u00e1rio de Lacan que havia sido traduzido at\u00e9 ent\u00e3o. Daquele primeiro encontro guardei a lembran\u00e7a de um acontecimento enigm\u00e1tico. Ainda que eu n\u00e3o entendesse nada do que lia, a vontade de continuar a ler era inquebrant\u00e1vel. Ele me dizia alguma coisa. O retorno de minhas palavras ao falar sobre isso \u00e0 minha analista foi mais inquietante ainda:\u00a0 \u201c\u00ad\u00ad\u2014 continue a ler, pra acostumar o ouvido. \u201d<\/p>\n<p>A gente pode acostumar os ouvidos, mas a gente nunca se acostuma do ouvido.<\/p>\n<p>Naquele instante em que eu vi onde estava (me precipitando) conclu\u00ed, (apressadamente), colocando os meus dois p\u00e9s dentro. E agora, depois do tempo para compreender meu passo, s\u00f3 me interessa pass\u00e1-lo adiante.<\/p>\n<p>E assim, estou hoje com voc\u00eas no Encore, que nos ancora aqui, juntos, na nossa singularidade.\u00a0 Encore, de novo juntos, e mais e ainda. O infinito e al\u00e9m! Citando o Buzz Lightyear.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u201cA nuvem da linguagem faz escrita\u201d<\/strong> <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Em Lituraterra Lacan nos diz que seus escritos s\u00e3o \u201ccartas abertas\u201d.<\/p>\n<p>Como a carta \u201cfaz perip\u00e9cias\u201d e a \u201cescrita \u00e9 um rastro onde se l\u00ea\u201d, o Semin\u00e1rio Encore, que para mim \u00e9 um escrito, ainda que transcrito de uma fala, fez aluvi\u00f5es e deslizamentos, abrindo canais a se precipitarem em enormes e profundas crateras, alguns rastros podem ser lidos aqui.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>O significante, em suspens\u00e3o, feminiza<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u201cAs forma\u00e7\u00f5es do inconsciente s\u00e3o efeitos de significante, (e) n\u00e3o autoriza a fazer da letra um significante, nem a lhe atribuir, ainda por cima, uma primazia em rela\u00e7\u00e3o ao significante.\u201d <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio da Carta Roubada, Lacan nos chama aten\u00e7\u00e3o para os deslizamentos da carta numa tr\u00edade de personagens que a det\u00e9m por um determinado tempo. A rainha que a recebe, o ministro que a rouba diante do olhar da rainha e Dupin, o detetive contratado para resgat\u00e1-la, o que a pol\u00edcia n\u00e3o fora capaz de fazer. Dupin repete com o ministro a sua (dele) pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 rainha, isto \u00e9, furta a carta que, disfar\u00e7ada, se escondia diante dos olhos de todos. Durante o tempo em que ela fica detida com o ministro, ele apresenta uma mudan\u00e7a de identidade, como se houvesse sido feminizado, e a mesma coisa se d\u00e1 quando a carta est\u00e1 detida nas m\u00e3os de Dupin. A feminiza\u00e7\u00e3o \u00e9 mostrada por Lacan atrav\u00e9s de tra\u00e7os que surgiram neles. \u00a0O pr\u00f3prio lugar onde a carta se oculta diante dos olhos \u00e9 descrito por Lacan de uma maneira que parece uma explos\u00e3o do feminino:<\/p>\n<p>\u201cExatamente como a carta\/ letra roubada, qual um imenso corpo de mulher, se esparrama no espa\u00e7o do gabinete do ministro, quando ali entra Dupin. Mas como tal ele j\u00e1 esperava encontr\u00e1-la, e s\u00f3 lhe resta, com seus olhos velados por \u00f3culos escuros, desnudar esse mai\u00fasculo corpo.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que, sem ter tampouco precisado, com toda a raz\u00e3o, escutar ocasionalmente atr\u00e1s das portas do Prof. Freud, ele vai direto at\u00e9 onde entoca e se abriga o que esse corpo \u00e9 feito para esconder, num belo miolo para onde o olhar desliza [&#8230;]. Vejam! entre as ombreiras (que tamb\u00e9m se traduziria como pernas) da lareira eis o objeto ao alcance da m\u00e3o que o arrebatador s\u00f3 precisa pegar&#8230;\u201d <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>A carta, que podemos ler na palavra francesa como carta\/letra, \u201clettre\u201d, aqui est\u00e1 como o significante em sua primazia sobre o sujeito. Significante que transforma sem que se saiba qual \u00e9 a mensagem escrita na carta. Lacan escreve em Lituraterra que \u201c\u00c9 a carta retida que mostra seu fracasso onde faz furo.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>A quest\u00e3o na qual somos lan\u00e7ados, com Lacan, ent\u00e3o, \u201c\u00e9 de nossa implica\u00e7\u00e3o, como analistas, ao nos colocarmos como emiss\u00e1rios no circuito simb\u00f3lico de todas as cartas roubadas que, por algum tempo, a partir da transfer\u00eancia, ficam conosco \u2018<em>en souffrance\u2019<\/em>, sem serem retiradas.\u201d Lacan nos pergunta: \u201cE n\u00e3o \u00e9 a responsabilidade que sua transfer\u00eancia comporta que n\u00f3s neutralizamos, fazendo-a equivaler ao significante mais aniquilador poss\u00edvel de toda a significa\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, ao dinheiro?\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>O sujeito recebe sua pr\u00f3pria mensagem do Outro de uma forma invertida, eis por que toda carta sempre chega ao seu destino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E se a l\u00edngua n\u00e3o fosse tir\u00e2nica? E se o significante fosse multidimensional?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right; padding-left: 320px;\"><em>\u201cN\u00e3o posso dizer nada.<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o posso escrever nada.<\/em><br \/>\n<em>Haver\u00e1 uma escrita n\u00e3o narrativa. Um dia isto vir\u00e1. Uma escrita breve, sem gram\u00e1tica, uma escrita de palavras sozinhas. Palavras sem apoio de uma gram\u00e1tica. Extraviadas. Ali, escritas. E logo deixadas de lado.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right; padding-left: 360px;\">(Marguerite Duras em <em>Escrever<\/em>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na li\u00e7\u00e3o de 15 de maio de 1973, Lacan faz a seguinte afirmativa<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito precisamente isso que distingue o que encontramos na linguagem, na l\u00edngua corrente, e que \u00e9 sustentado pela met\u00e1fora muito difundida da cadeia. Ao contr\u00e1rio dos aros de barbante, elementos de cadeia podem ser feitos, isso se faz, isso se forja. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar como isso \u00e9 feito: o metal \u00e9 torcido at\u00e9 o momento em que se pode sold\u00e1-lo, e a cadeia \u00e9 assim algo que pode ter sua fun\u00e7\u00e3o, para representar o uso da l\u00edngua. Sem d\u00favida, n\u00e3o \u00e9 um suporte simples, seria preciso, nessa cadeia, fazer elos que fossem se prender a outro elo um pouco mais adiante, com dois ou tr\u00eas elos flutuantes intermedi\u00e1rios, e compreender tamb\u00e9m por que uma frase tem uma dura\u00e7\u00e3o limitada. Ora, tudo isso, a met\u00e1fora (da cadeia) n\u00e3o pode nos dar.\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>O analista l\u00ea um texto fragmentado. O sujeito do inconsciente l\u00ea. Sujeito que n\u00e3o s\u00f3 sabe, como aprende a ler. Mas este texto, ainda que lido, n\u00e3o h\u00e1 como reescrev\u00ea-lo. Um texto sem linearidade, sem dura\u00e7\u00e3o, sem deixar marcas. O sujeito do inconsciente \u00e9 corte entre o significante que o representa para outro significante, \u00e9 efeito do funcionamento da cadeia significante. Sua entrada a\u00ed deu-se atrav\u00e9s da simboliza\u00e7\u00e3o de uma falta, altern\u00e2ncia da presen\u00e7a e aus\u00eancia simbolizada. O sujeito evanesce no significante que se d\u00e1 a saber; o tra\u00e7o se apaga no significante um, tra\u00e7o que apagara a coisa, apenas deixando um lugar de retorno do gozo. \u201cS1, significante do gozo mesmo.\u201d<\/p>\n<p>A escrita \u201cinatang\u00edvel\u201d para usar um neologismo de Lacan, aspira a escrita do gozo, inspira a poesia e transpira na cavalgada da escrita dos m\u00edsticos. E porque n\u00e3o dizer, isso pira.<\/p>\n<p>Como retornar \u00e0 letra o que a letra escreveu no corpo? Como escrever, no linear do significante, do Um, o que \u00e9 sua pr\u00f3pria falta? Do que fora apagado do tra\u00e7o s\u00f3 restou seu un\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ela, a falta, \u00e9 pr\u00f3pria enquanto do significante que falta no Outro, pr\u00f3pria enquanto aquela que permitiu a entrada na linguagem, no simb\u00f3lico, nas letras, no que se pode escrever. H\u00e1 Lei que \u00e9 da mesma forma a Lei da linguagem. \u201c\u00c9 a insist\u00eancia da letra raz\u00e3o do inconsciente\u201d, a letra que \u00e9 litoral ao jogar com literal, bordeja o furo e marca a distin\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios, \u201cEla desenha a borda do furo no saber\u201d. <a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Lacan disse: \u201c &#8230; voc\u00eas podem ler Joyce, &#8230; voc\u00eas ver\u00e3o que a linguagem se aperfei\u00e7oa e sabe brincar, sabe brincar com a escrita&#8230; Joyce \u00e9 um longo texto escrito&#8230; os significantes se encaixam, se comp\u00f5em, &#8230; penetram uns nos outros, \u00e9 com isso que se produz algo que, como significado, pode parecer enigm\u00e1tico, mas \u00e9 realmente o que h\u00e1 de mais pr\u00f3ximo daquilo que n\u00f3s, analistas, gra\u00e7as ao discurso anal\u00edtico, sabemos ler, \u00e9 o que h\u00e1 de mais pr\u00f3ximo do lapso.\u201d <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Que a linguagem saiba brincar com a escrita, no entanto, n\u00e3o permite que se diga, que se escreva o gozo do Outro, imputado ao feminino e aos m\u00edsticos. Ele \u00e9 fora do campo do saber, \u00e9 verdade que se o sente, mas n\u00e3o h\u00e1 como diz\u00ea-lo, escrev\u00ea-lo. \u201cA verdade em quest\u00e3o na psican\u00e1lise \u00e9 aquilo que, por meio da linguagem, quer dizer, pela fun\u00e7\u00e3o da fala, aproxima-se de um real.\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a m\u00edstica Santa Teresa, temos em seus textos o testemunho dessa tentativa, mas ela diz textualmente que aquilo que ela escreve \u00e9 a verdade, e que o saber estaria do lado dos homens da igreja, a quem ela encaminhava o que escrevia. \u00a0\u201cO que eu sei bem, \u00e9 que digo a exata verdade.\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n<p>O trecho t\u00e3o conhecido da poesia de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz afirma:<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o soube onde estava, por\u00e9m quando ali me vi, \/Sem saber onde estava, \/Grandes coisas entendi;\/N\u00e3o direi o que senti, \/Que me quedei n\u00e3o sabendo, \/Toda a ci\u00eancia transcendendo.\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a><\/p>\n<p>O gozo m\u00edstico implica num sofrimento na alma e no corpo. Santa Tereza escreveu: \u201cEu sei que uma pessoa (a pessoa a que ela se refere \u00e9 ela mesma) que, n\u00e3o sendo poeta, lhe acontecia fazer de s\u00fabito coplas muito sentidas revelando a sua dor; n\u00e3o feitas por sua intelig\u00eancia, mas para gozar mais a gl\u00f3ria, que t\u00e3o saborosa dor lhe dava, queixava-se dela ao seu Deus. Todo o seu corpo e sua alma queriam que se despeda\u00e7asse para mostrar o gozo que com esta pena sente.\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n<p>Sua escrita seria ainda um gozo a mais al\u00e9m daquele que ela teria vivido no transe m\u00edstico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cO sintoma \u00e9 valor de verdade\u201d<\/strong> <a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u201cS\u00f3 temos escolha entre enfrentar a verdade ou ridicularizar nosso saber\u201d<\/strong> <a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a><\/p>\n<p>Para a psican\u00e1lise, na rela\u00e7\u00e3o com o gozo \u00e9 a fala que garante sua dimens\u00e3o de verdade. E ela, a verdade, s\u00f3 pode semidizer-se, pois que \u201co inconsciente \u00e9 que o ser, falando, goze, e que n\u00e3o queira saber mais nada disso, n\u00e3o saber nada de nada.\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a><\/p>\n<p>Abrimos a porta \u00e0queles que v\u00eam nos falar de seu sofrimento. Sofrem em seus sintomas, que n\u00e3o cessam de se escrever, sofrem em seu gozo de idiotas, isto \u00e9, ignorantes, isto \u00e9, n\u00e3o querem saber daquilo que os causa. Tomados por esta paix\u00e3o, por este pathos, a psican\u00e1lise lhes permite uma outra via, e por que n\u00e3o dizer, uma outra vida. Lacan afirma que ela \u00e9 \u201cdom de Freud\u201d. <a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a><\/p>\n<p>Que \u201cele nos disse que o inconsciente tinha ao menos esse pequeno grau de abertura, gra\u00e7as ao qual o sofrimento (pa de cer) podia ser dito; que havia a\u00ed algo que, verdadeiramente, e n\u00e3o como fora dito at\u00e9 ent\u00e3o, o transcendia.\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a><\/p>\n<p>Numa an\u00e1lise, o desprendimento, a \u201cdesamarra\u00e7\u00e3o\u201d de alguns significantes, permite atingir a fantasia fundamental. Como neur\u00f3ticos, enquanto sustentamos o lugar de objeto imagin\u00e1rio do desejo do Outro n\u00e3o h\u00e1 nada que possamos dizer que v\u00e1 al\u00e9m de queixas e culpabiliza\u00e7\u00f5es. O objeto n\u00e3o fala, nem phalo; est\u00e1 fora do campo da linguagem. O analisante, a quem se d\u00e1 voz ao pedir que numa an\u00e1lise fale de tudo, que diga besteiras, suas bobagens \u2014 como dizia o pequeno Hans \u2014, d\u00e1 a escutar os significantes que o determinaram, passagem evanescente de sujeito. Barrado, ele se diz no seu esvanecimento. O encontro marcado \u00e9 com a falta que lhe constitui.<\/p>\n<p>Mas o gozo que h\u00e1 na fala, no sentido, ainda que possa advir um novo sentido, pode prorrogar indefinidamente o dizer. Encore.<\/p>\n<p>O analista no lugar do semblant do objeto causa do desejo sustenta, ao pre\u00e7o de suas palavras, de seu eu e do mais \u00edntimo de seu ser, a possibilidade de que: \u201co que pode se saber venha no registro da verdade, o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel de que falando n\u00f3s nos aproximemos do real.\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a><\/p>\n<p>O final de uma an\u00e1lise n\u00e3o pode ser formulado com um \u201cn\u00e3o tenho mais nada para dizer\u201d, porque sempre \u00e9 poss\u00edvel dizer mais alguma coisa. Mas se aceitamos que cada novo sentido altera um tanto a fantasia, na medida em que ela \u00e9 realidade ps\u00edquica, em que \u00e9 a tela sobre o enquadre na qual cada um formula o que lhe sustenta, ent\u00e3o podemos admitir que os cortes \u00ad\u2014 quer sejam cortes metaf\u00f3ricos ou meton\u00edmicos \u2014, as interpreta\u00e7\u00f5es \u2014 cita\u00e7\u00f5es ou enigmas \u2014, levam o sujeito a se encontrar com o fundamento de sua fantasia na qual se ancorou o desejo que lhe constituiu. \u00a0Scilicet, voc\u00ea pode saber&#8230; da castra\u00e7\u00e3o: n\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o sexual, o Outro sempre ser\u00e1 h\u00e9tero, altero.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise trans-borda do sentido, do ser, ao significante puro e \u00e0 letra; do lugar de objeto do desejo do Outro, de objeto do gozo do Outro, ao de desejo puro, para fazer valer o lugar da falta que nos permite ex-sistir. \u00c9 no desassossego que nos lan\u00e7amos, e o lance \u00e9 dado de sa\u00edda. Entrar na aposta \u00e9 ceder daquilo que foi apostado. O pre\u00e7o da entrada ser\u00e1 cobrado na sa\u00edda: a perda n\u00e3o recobre mais a falta.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Um novo amor<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O amor n\u00e3o se declara, n\u00e3o podemos declar\u00e1-lo verdadeiramente. Ele escapa \u00e0 fala. Quando os objetos se tornam simbolicamente signos do amor do Outro, a Demanda n\u00e3o cessa de se repetir, \u201cporque n\u00e3o \u00e9 isso\u201d<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>. Quanto mais se d\u00e1, mais escancaramos a falta. A declara\u00e7\u00e3o de amor \u00e9 a demanda de receb\u00ea-la de volta.<\/p>\n<p>Haver\u00e1 uma nova maneira de amar, al\u00e9m daquela que Freud denunciou? Um amor que n\u00e3o seja narc\u00edsico? Amar no outro o que lhe falta e n\u00e3o o que me falta. Dar ao outro sua falta, sem temer que ele goze da sua castra\u00e7\u00e3o. Um amor que verdadeiramente permitisse ao gozo condescender ao desejo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entre o homem e o amor, <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Existe a mulher.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entre o homem e a mulher,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Existe um mundo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entre o homem e o mundo,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Existe um muro.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(Antoine Tudal citado por Lacan nos <em>Escritos<\/em>).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Vo\u00e7oroca, Fal\u00e9sia, Ravinamento, Eros\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Vo\u00e7oroca. Pois que \u00e9 vossa a roca com a qual, assim como a barriga da aranha, teceis. O fio \u00e9 sem fim, mas o ponto o fixa e bordeja o furo. Varia\u00e7\u00e3o: bo\u00e7oroca, pois a bossa tamb\u00e9m \u00e9 nossa, ainda que n\u00e3o t\u00e3o nova.<\/p>\n<p>Fal\u00e9sia. Falas i(a). Com a imagem do teu corpo que abandonastes ao Real. Fala fala-ser!<\/p>\n<p>Ravinamento: eros\u00e3o. Eros s\u00e3o todas as palavras sobre as quais n\u00e3o cedemos. Freud as quis assim na psican\u00e1lise. Assim, sim. A psican\u00e1lise fala do sexual pois que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel escrever a rela\u00e7\u00e3o sexual como tal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>P\u00f3s-escrito: <\/strong>Relendo o texto, percebi nele mais do que o retorno das marcas do estudo do Semin\u00e1rio Encore. Est\u00e3o aqui tamb\u00e9m outras, advindas tanto dos Escritos como de outros Semin\u00e1rios de Lacan.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o, no <em>a posteriori<\/em>, que reconheci as vo\u00e7orocas resultantes da enxurrada que se abateu sobre mim quando o escrevia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* Trabalho apresentado no Encontro sobre o Semin\u00e1rio Encore realizado pelos Cart\u00e9is Lacanianos em 03\/06\/2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. <em>Encore<\/em> (1972-1973). Rio de Janeiro: Escola da Letra Freudiana, edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o comercial, 2010.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, J. O semin\u00e1rio sobre \u201cA carta roubada\u201d<em>. <\/em>In:<em> Escritos.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, J. Lituraterra. In:<em> Outros Escritos<\/em>. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed. 2003.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>Lacan, J. O semin\u00e1rio sobre \u201cA carta roubada\u201d. In:<em> Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Lacan est\u00e1 fazendo uma distin\u00e7\u00e3o entre a constru\u00e7\u00e3o e o uso do n\u00f3 borromeano de m\u00faltiplos aros e a met\u00e1fora da constru\u00e7\u00e3o de uma cadeia de significantes. Aqui, interessa-me trabalhar com esta \u00faltima.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Lacan, J. <em>Encore<\/em> (1972-1973). Rio de Janeiro: Escola da Letra Freudiana, edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o comercial, 2010.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Lacan, J. <em>Estou falando com as paredes: conversas na Capela de Sainte-Anne. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 2011.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Santa Teresa de \u00c1vila<em>. Seta de fogo<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o, pr\u00f3logo e notas de Jos\u00e9 Bento. Rio de Janeiro: Editora Ass\u00edrio &amp; Alvim,1989.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz. <em>Obras de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz traduzidas pelas Carmelitas descal\u00e7as do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro. <\/em>Rio de janeiro: Editora Vozes.\u00a0 SCRIBD.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Santa Teresa de \u00c1vila<em>. Seta de fogo<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o, pr\u00f3logo e notas de Jos\u00e9 Bento. Rio de Janeiro: Editora Ass\u00edrio &amp; Alvim,1989.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Lacan, J. <em>Encore<\/em> (1972-1973). Rio de Janeiro: Escola da Letra Freudiana, edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o comercial, 2010.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Lacan, J. \u00a0&#8230;<em>ou pior<\/em>, livro 19<em>. <\/em>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A porta de entrada\u00a0 Por mais de uma vez escutei Melman falar da import\u00e2ncia da porta por onde se entra e sua determina\u00e7\u00e3o naquilo que se estabelece para o sujeito, passado seu umbral. Minha porta de entrada na Psican\u00e1lise deu-se por minha an\u00e1lise pessoal, tendo a leitura de meus significantes aberto algo absolutamente novo. 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