{"id":854,"date":"2023-10-02T11:43:23","date_gmt":"2023-10-02T11:43:23","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=854"},"modified":"2026-02-07T12:50:28","modified_gmt":"2026-02-07T12:50:28","slug":"concepcao-de-mundo-discurso-analitico-verbo-ser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2023\/10\/02\/concepcao-de-mundo-discurso-analitico-verbo-ser\/","title":{"rendered":"Concep\u00e7\u00e3o de mundo\/ Discurso anal\u00edtico\/ Verbo ser"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left; padding-left: 80px;\">&#8220;e n\u00e3o adiantaria explicar porque a explica\u00e7\u00e3o exige uma outra explica\u00e7\u00e3o que exige uma outra explica\u00e7\u00e3o e que se abriria de novo para o mist\u00e9rio.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 80px;\">&#8220;Vou te falando e me arriscando \u00e0 desconex\u00e3o: sou subterraneamente inating\u00edvel pelo meu conhecimento.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 80px;\">&#8220;e renuncio a ter um significado&#8230;&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 80px;\">&#8220;X \u00e9 o que existe dentro de mim\u201d&#8230;\u00a0 &#8220;eu s\u00f3 trabalho com achados e perdidos\u201d&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 640px;\">(Clarice Lispector)<\/p>\n<p>Meu ponto de partida \u00e9 a fala de Lacan: \u201cAvan\u00e7ando na corrente do discurso anal\u00edtico temos que conceber que o que \u00e9 chamado concep\u00e7\u00e3o de mundo \u00e9 da ordem do c\u00f4mico.\u201d<\/p>\n<p>O que me ocorre, de sa\u00edda: tenho concep\u00e7\u00e3o de mundo? E voc\u00eas?<\/p>\n<p>Supondo que a tenha ou tenha tido, o fato de ter sido atravessada por uma an\u00e1lise teve a consequ\u00eancia de elimin\u00e1-la? Ou essa elimina\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel no exerc\u00edcio do <em>semblant<\/em> de <em>a,<\/em> quando operamos nesse lugar, sob o comando de letras.<\/p>\n<p>Pois bem, h\u00e1 ainda uma outra interroga\u00e7\u00e3o: por que uma concep\u00e7\u00e3o de mundo \u00e9 da ordem do c\u00f4mico? Poder\u00edamos at\u00e9 pensar que ter uma concep\u00e7\u00e3o de mundo registra um up-grade, inclui os que a possuem no rol das pessoas s\u00e9rias. Mas se acompanhamos Lacan n\u00e3o podemos pensar que as pessoas s\u00e9rias s\u00e3o c\u00f4micas? Pois devemos tomar o s\u00e9rio como s\u00e9rie, serial, o um indeterminado. Nesse caso, pois, o c\u00f4mico seria justo estar fora do serial. E, com frequ\u00eancia, garantido pelo verbo ser.<\/p>\n<p>Aqui, nesse ponto, temos que dar conta de uma defini\u00e7\u00e3o mais rigorosa do que \u00e9 concep\u00e7\u00e3o de mundo, a despeito de Lacan afirmar que o n\u00famero de pensamentos impl\u00edcitos numa concep\u00e7\u00e3o de mundo, <em>Weltanschauung,<\/em> \u00e9 propriamente incalcul\u00e1vel.\u00a0 Vamos recorrer a <em>Weltanschauung<\/em> de Freud, ao dicion\u00e1rio e a uma reflex\u00e3o pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Freud, no in\u00edcio da sua Confer\u00eancia XXXV, fala que ela, a <em>Weltanschauung<\/em>, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o intelectual que n\u00e3o deixa nenhuma pergunta sem resposta, onde tudo que nos interessa tem seu lugar fixo, e, nesse caso fica evidente que se situa entre os desejos ideais dos seres humanos.\u00a0 H\u00e1 que se destacar <em>pergunta sem resposta<\/em> e <em>lugar fixo<\/em>&#8230;.<\/p>\n<p>Prossegue discutindo a diferen\u00e7a entre a<em> Weltanschauung<\/em> religiosa e a cient\u00edfica. Conclui dizendo que na sua opini\u00e3o a psican\u00e1lise \u00e9 incapaz de criar uma <em>Weltanschauung<\/em> por si mesma.\u00a0 Mas admite que ela, a psican\u00e1lise, faz parte da ci\u00eancia, ela pode aderir a <em>Weltanschauung<\/em> cient\u00edfica.<\/p>\n<p>(Aqui deixamos entre par\u00eanteses a quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise com a ci\u00eancia, que me parece ter abordagem diferente em Freud e Lacan. Lacan, em algum momento, interroga a ci\u00eancia dita tradicional \u2014 como uma ci\u00eancia, depois do que se pode dizer do inconsciente, \u00e9 poss\u00edvel? Afirma em outro momento que o discurso anal\u00edtico trouxe uma ci\u00eancia nova e ainda fala da psican\u00e1lise como ci\u00eancia do real.)<\/p>\n<p>O que diz o dicion\u00e1rio?<\/p>\n<p>No Houaiss, al\u00e9m da concep\u00e7\u00e3o de um novo ser, temos concep\u00e7\u00e3o de mundo: \u201cmaneira subjetiva de ver e entender o mundo, nas rela\u00e7\u00f5es humanas e nos pap\u00e9is das pessoas e o seu pr\u00f3prio na sociedade e tamb\u00e9m referida \u00e0 quest\u00f5es filos\u00f3ficas b\u00e1sicas como a finalidade da exist\u00eancia de vida [&#8230;]\u201d. Aqui tamb\u00e9m me parece que h\u00e1 algo da ordem do fixo.<\/p>\n<p>Agora, o que penso. A concep\u00e7\u00e3o de mundo \u00e9 um saber que nos sustenta. E quero particularizar nesse saber o valor do verbo ser na sua c\u00f3pula afirmativa, <em>\u00e9<\/em>, que faz c\u00f3pula e copula, fornecendo o estatuto de certeza\/verdade, faz essa conjuga\u00e7\u00e3o. A concep\u00e7\u00e3o de mundo nos d\u00e1 o lugar de donos da verdade, estamos certos e somos bons, e mantemos ideais de como corrigir os males do mundo&#8230; nada mais distante do discurso anal\u00edtico. Ficamos apoiados nas certezas. Uma cita\u00e7\u00e3o de Dostoi\u00e9vski aqui cai bem: \u201cSomos assim, sonhamos o voo mas tememos a altura. Para voar \u00e9 preciso ter coragem para enfrentar o vazio. O vazio \u00e9 o espa\u00e7o da liberdade, a aus\u00eancia das certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas s\u00e3o o lugar onde as certezas moram.\u201d Para n\u00f3s seriam certezas, caso fosse poss\u00edvel, que nos sustentam na rela\u00e7\u00e3o com o <em>objeto a<\/em>, com o pequeno outro, com o grande Outro \u2014 que se definem topologicamente pelo lugar que habitamos&#8230;<\/p>\n<p>Lacan, explorando a signific\u00e2ncia, diz que o \u201c\u00e9 o que \u00e9\u201d pode ser entendido como \u201c\u00e9u-qui\u00e9\u201d, eu digo o que \u00e9, o que o introduz na singularidade, pondo a perder, pois, o registro abrangente de uma verdade.\u00a0 Enfatiza um saber pr\u00f3prio e, nesse sentido, poder\u00edamos atribuir-lhe um vi\u00e9s narc\u00edsico ou um mero registro da singularidade? Al\u00e9m disso, como sujeitos afeitos e efeitos de linguagem sabemos que o ser \u00e9 na linguagem o que mais se esquiva, lembrando aqui o pr\u00f3prio sujeito.<\/p>\n<p>Sobre o \u00eatre, o ser, ainda duas refer\u00eancias para serem refletidas, o parle-\u00eatre, o <em>parl\u00eatre<\/em>, quando fala o ser, onde o sujeito discorre, e, por outro lado, o m\u2019\u00eatre, lugar da mestria, onde o ser \u00e9 conjugado no seu poder suposto.<\/p>\n<p>O discurso anal\u00edtico nos introduz a uma nova l\u00f3gica, diferente dessa sustentada pelo ser, que nos desestabiliza, na falta de uma ess\u00eancia e de um universal vivemos sob recortes, submetidos que somos ao ser da signific\u00e2ncia, sustentada pelo gozo. De ego s\u00f3lido passamos a sujeito, significante que erra nas malhas de uma rede, produzido e produzindo uma teia, como a aranha, fio in-corporado, eixo do fora\/dentro. \u201c[&#8230;] o que fala sem saber me faz eu (je), sujeito do verbo, mas isto n\u00e3o basta para me fazer ser\u201d diz Lacan.<\/p>\n<p>Essa nova l\u00f3gica n\u00e3o reconhece o universal nem o saber absoluto, n\u00e3o h\u00e1 \u00faltima palavra em lugar nenhum, discuss\u00e3o que Lacan mant\u00e9m com Arist\u00f3teles e Hegel.<\/p>\n<p>Podemos admitir que essa nova l\u00f3gica subverte uma articula\u00e7\u00e3o do pensamento que se sustenta no verbo ser. Arist\u00f3teles partia do universal para o singular, Lacan enfatiza o cada um, na paradoxal determina\u00e7\u00e3o\/indetermina\u00e7\u00e3o. Eu diria numa determina\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica e sintom\u00e1tica, numa indetermina\u00e7\u00e3o operada pelo real, pela dist\u00e2ncia intranspon\u00edvel em rela\u00e7\u00e3o ao pequeno a, da introdu\u00e7\u00e3o, pois, do imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>O verbo ser perde, pois, seu tom definitivo, vagueia na transitoriedade e, desse modo, contingente, n\u00e3o sustenta mais uma concep\u00e7\u00e3o de mundo, e seu copulativo <em>\u00e9<\/em> deixa de integrar ess\u00eancia\/exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Aqui a filosofia heideggeriana nos fornece algo bem interessante, decorrente de sua pesquisa gramatical e etimol\u00f3gica do termo ser. Na sua investiga\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica, percebe que ser tem tr\u00eas ra\u00edzes diferentes, nenhuma mais determinante do que outra, por isso esse termo ser seria vazio e sua significa\u00e7\u00e3o evanescente, conotado, pois ent\u00e3o, sob a rubrica do significante.<\/p>\n<p>O discurso anal\u00edtico opera um descentramento, o ser se perde no significado fazendo operar uma dial\u00e9tica do \u00e9\/n\u00e3o \u00e9. Entre o dito e o dizer verifica-se a diferen\u00e7a entre o ser e o <em>ex-sistir<\/em>.<\/p>\n<p>Lembramos que Lacan recomenda um cuidado com esse termo \u201cconcep\u00e7\u00e3o de mundo&#8221; porque ele faz parte do discurso da filosofia. E ainda enfatiza que a linguagem se revela muito mais vasta como campo, muito mais rica de recursos do que ser simplesmente aquela que, ao longo do tempo, se instaurou pelo discurso filos\u00f3fico, embora ele seja dif\u00edcil de eliminar completamente.<\/p>\n<p>O discurso anal\u00edtico fala do \u201cfoder\u201d, n\u00e3o do ser \u2014 aqui um aspecto desse grande deslocamento \u2014 e \u201ca\u00ed se diz que isso n\u00e3o vai bem\u201d \u2014 trata-se do imposs\u00edvel que se anuncia com o &#8220;n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d \u2014 o que faz o fundo da vida, com efeito, \u00e9 que tudo o que se refere \u00e0s rela\u00e7\u00f5es homens e mulheres, o que chamamos de coletividade, n\u00e3o vai bem , \u00e9 uma l\u00f3gica espantosa que sustenta o foder no seu eixo gozante, articulado pelo significante e pela letra.<\/p>\n<p>E isso n\u00e3o vai bem. Lacan diz que estaria reservado a Freud evidenciar uma desordem, o ser real do homem tem uma hi\u00e2ncia cong\u00eanita. Ela pode ser desdobrada, no meu entender, no mal-entendido, no lugar dado ao pequeno outro regido pela rivaliza\u00e7\u00e3o, no desconhecimento do grande Outro ou na sua equival\u00eancia a um falo maci\u00e7o e na imaginariza\u00e7\u00e3o do pequeno a.<\/p>\n<p>Considerando o eixo da nossa abordagem, concep\u00e7\u00e3o de mundo, discurso anal\u00edtico, verbo ser, n\u00e3o podemos deixar de mencionar o <em>semblant<\/em> e o <em>pareser<\/em>.<\/p>\n<p>Lacan insiste no <em>semblant<\/em> de <em>a<\/em>, rastro de um certo imagin\u00e1rio. Esse <em>a<\/em> tem um revestimento, entre eles h\u00e1 uma afinidade. Trata-se a\u00ed de um ponto de suspei\u00e7\u00e3o, seja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria psican\u00e1lise, afinal qual \u00e9 seu objeto? A resposta vi\u00e1vel nos levaria ao Real que s\u00f3 se inscreve por um impasse de formaliza\u00e7\u00e3o, deixando vislumbrar o seu inacess\u00edvel.<\/p>\n<p>Do<em> semblant<\/em> podemos seguir para uma outra abordagem\u00a0 \u2014 a nova proposta de conjuga\u00e7\u00e3o como alternativa \u00e0 do ser, o <em>pareser<\/em>. Numa invers\u00e3o, ser para, o que nos levaria ao amor&#8230; n\u00e3o vou entrar nele, depois fica dif\u00edcil de sair.<\/p>\n<p>Levando em conta a import\u00e2ncia do <em>semblant<\/em> e do <em>pareser<\/em> na nossa articula\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica\/teoria poder\u00edamos supor, com raz\u00e3o, que vivemos num mundo de ilus\u00e3o, em que nada \u00e9. Apesar do <em>semblant<\/em>, da conjuga\u00e7\u00e3o do <em>pareser<\/em>, al\u00e9m da proposi\u00e7\u00e3o do <em>ex-sistir<\/em>, n\u00e3o nos reconhecemos num mundo ilus\u00f3rio, uma vez que estamos submetidos a uma tr\u00edplice articula\u00e7\u00e3o, imagin\u00e1rio, simb\u00f3lico e real, al\u00e9m de \u201cbussolizados\u201d pelo pequeno <em>a<\/em>. Vivemos sob recortes, nenhuma inteireza nos define\u00a0 e perdemos, desde sempre, o <em>\u00e9<\/em> definitivo e conclusivo da verdade. O <em>\u00e9<\/em> eterno \u00e9 teol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Temos o corpo recortado por palavras e\/ou gestos que nos esculpem sintomaticamente. O real \u00e9 faca amolada, \u00e9 mola e&#8230; amola.<\/p>\n<p>Arrisco a repetir com Riobaldo, personagem do Grande Sert\u00e3o: Veredas, que tudo \u00e9 e n\u00e3o \u00e9&#8230; E, justo o <em>n\u00e3o \u00e9<\/em> que torna poss\u00edvel a interroga\u00e7\u00e3o do <em>falaser<\/em>, e torna vi\u00e1vel sua caminhada. Lembramos Freud, no fim do seu texto, \u201ca negativa\u201d: o acontecimento do inconsciente se exprime numa f\u00f3rmula negativa. E Lacan nos diz que seu discurso \u00e9 negativo, por isso n\u00e3o \u00e9 filos\u00f3fico. Al\u00e9m de afirmar no \u201cAturdito\u201d que o n\u00e3o \u00e9 isso \u00e9 o vagido do apelo ao real.<\/p>\n<p>Agora, na sobra, algumas quest\u00f5es:<\/p>\n<ol>\n<li style=\"list-style-type: none;\">\n<ol>\n<li>Um analista, fora do seu exerc\u00edcio no agenciamento do discurso anal\u00edtico tem ou n\u00e3o tem concep\u00e7\u00e3o de mundo? Estou supondo que no seu exerc\u00edcio anal\u00edtico, no lugar de <em>a<\/em>, n\u00e3o a tenha.<\/li>\n<li>\u00c9 poss\u00edvel viver sem ela? Isso equivaleria a uma neutralidade absoluta, diante das intemp\u00e9ries sociais? Um n\u00e3o engajamento pol\u00edtico\/ideol\u00f3gico?<\/li>\n<\/ol>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p>Freud diz que o sintoma social n\u00e3o pode deixar de concernir ao analista, n\u00e3o h\u00e1 subjetividade sem outros. Segundo Melman o sintoma social \u00e9 referido aos discursos que nos regem. \u00c9 poss\u00edvel desconjugar a leitura do sintoma social de uma concep\u00e7\u00e3o de mundo?<\/p>\n<p>Sabemos que a concep\u00e7\u00e3o de mundo se assenta em certezas\/supostas verdades, frequentemente suportadas por um ideal, que esconde ou disfar\u00e7a aquela hi\u00e2ncia cong\u00eanita, citada acima, e que n\u00e3o deixa de ter o peso narc\u00edsico, &#8220;\u00e9u-qui\u00e9\u201d, ou de uma contamina\u00e7\u00e3o identificat\u00f3ria de massa.<\/p>\n<ol>\n<li style=\"list-style-type: none;\">\n<ol start=\"3\">\n<li>Voc\u00eas conhecem algu\u00e9m, melhor perguntando, algum analista que n\u00e3o tenha \u201cconcep\u00e7\u00e3o de mundo\u201d?<\/li>\n<\/ol>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o podemos deixar de considerar que aquele que sofreu uma an\u00e1lise e que opera nessa fun\u00e7\u00e3o de semblant de <em>a<\/em> deve ter sido afetado pelo conv\u00edvio de algumas concep\u00e7\u00f5es de Freud e Lacan:<\/p>\n<p>\u2014 Para menorizar a verdade \u00e9 preciso ter entrado no discurso anal\u00edtico, a verdade congruente \u00e9 sempre dita pelo meio-dizer;<\/p>\n<p>\u2014 A ci\u00eancia nova que a psican\u00e1lise inaugura \u00e9 a ci\u00eancia do real;<\/p>\n<p>\u2014 As rela\u00e7\u00f5es humanas padecem de uma falha inaugural que se traduz em demandas de ser e de ter, sobretudo amor, se instituem, ent\u00e3o, na rivalidade e na aspira\u00e7\u00e3o de comando;<\/p>\n<p>\u2014 O humano est\u00e1 sujeito, cada um, \u00e0 conjuga\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es de vida e morte, e, n\u00e3o por acaso, faz guerra.<\/p>\n<p>E, ainda, volto a mais uma quest\u00e3o, referida ao estatuto do verbo ser: algu\u00e9m pode se dizer psicanalista? A\u00ed podemos reconhecer, nesse caso, o <em>\u00e9<\/em> como garantidor de uma verdade, lembrando que o lugar do analista nesse discurso \u00e9 de semblante de <em>a<\/em>, e <em>encore<\/em> a afirma\u00e7\u00e3o de Lacan que nenhum discurso pode ser autoral.<\/p>\n<p>Tendo <em>en-corps<\/em> (ENCORE) vivido essa experi\u00eancia anal\u00edtica e ainda considerando a estrutura do <em>falaser<\/em> regida pelo significante e pela letra, podemos admitir uma concep\u00e7\u00e3o de mundo?<\/p>\n<p>Poder\u00edamos dizer que a concep\u00e7\u00e3o de mundo nos interdita o <em>Unheimlich<\/em> do inconsciente? Diz Lacan: o que \u00e9 o inconsciente? A coisa ainda n\u00e3o foi compreendida. Assim \u00e9 que n\u00e3o se sabia que era uma falsifica\u00e7\u00e3o querer tornar tranquilizador o <em>Unheimlich<\/em>, dado o pouqu\u00edssimo tranquilizador que \u00e9 o inconsciente por sua natureza.<\/p>\n<p>E, finalmente, para terminar, n\u00e3o posso deixar de recorrer a Riobaldo, do &#8220;Grande Sert\u00e3o: Veredas\u201d:<\/p>\n<p>\u201cEu sei que isto que estou dizendo \u00e9 muito entran\u00e7ado&#8230; Eu queria decifrar as coisas que s\u00e3o importantes. Queria entender do medo e da coragem, e da g\u00e3 que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder.\u201d<\/p>\n<p>DAR CORPO AO SUCEDER daquilo que n\u00e3o h\u00e1 de vir a ser. E Clarice: \u201cvir a ser \u00e9 uma lenta dor boa.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 isso que estamos fazendo?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como escapar de Clarice, outra vez recorro a ela: \u201cEu que fabrico o futuro como uma aranha diligente. E o melhor de mim \u00e9 que nada sei e fabrico n\u00e3o sei o qu\u00ea.\u201d<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* Trabalho apresentado no Encontro sobre o Semin\u00e1rio <em>Encore<\/em> realizado pelos Cart\u00e9is Lacanianos em 03\/06\/2023.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;e n\u00e3o adiantaria explicar porque a explica\u00e7\u00e3o exige uma outra explica\u00e7\u00e3o que exige uma outra explica\u00e7\u00e3o e que se abriria de novo para o mist\u00e9rio.\u201d &#8220;Vou te falando e me arriscando \u00e0 desconex\u00e3o: sou subterraneamente inating\u00edvel pelo meu conhecimento.\u201d &#8220;e renuncio a ter um significado&#8230;&#8221; &#8220;X \u00e9 o que existe dentro de mim\u201d&#8230;\u00a0 &#8220;eu s\u00f3 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[13,12],"tags":[95,87,97,94,96],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/854"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=854"}],"version-history":[{"count":37,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/854\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1174,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/854\/revisions\/1174"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=854"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}