{"id":951,"date":"2024-09-11T17:23:49","date_gmt":"2024-09-11T17:23:49","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=951"},"modified":"2024-09-11T17:25:33","modified_gmt":"2024-09-11T17:25:33","slug":"apresentacao-da-jornada-dos-carteis-2023","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2024\/09\/11\/apresentacao-da-jornada-dos-carteis-2023\/","title":{"rendered":"Apresenta\u00e7\u00e3o da Jornada de Cart\u00e9is 2023"},"content":{"rendered":"<p>Em dezembro de 2023 comemoramos nossos vinte e sete anos com as Jornadas de Cart\u00e9is sobre o Semin\u00e1rio 8 de Lacan, 1960-1961 \u2013 <em>A transfer\u00eancia em sua disparidade subjetiva, sua pretensa situa\u00e7\u00e3o, suas excurs\u00f5es t\u00e9cnicas<\/em>.<\/p>\n<p>Eu havia proposto na AEPM, aos Membros e Candidatos \u00e0 Forma\u00e7\u00e3o, a travessia de mais um Semin\u00e1rio de Lacan. A aposta foi feita, o trabalho foi assumido, ler o semin\u00e1rio <em>A transfer\u00eancia<\/em> no presente e a partir de nossa experi\u00eancia. Abrir nossas quest\u00f5es a partir do que Lacan nos trouxe de suas quest\u00f5es e avan\u00e7os te\u00f3ricos sobre um dos conceitos fundamentais da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>\u00c9r\u00f4m\u00e9nos \u2013 \u00c9rast\u00e8s, Lacan faz um passo, com S\u00f3crates, e introduz no amor a falta, substitui amor por desejo nas piruetas do \u00e9ros-amor e do \u00e9ros-desejo. E nos surpreende ao dizer que \u201cuma de suas invencionices, amar \u00e9 dar o que n\u00e3o se tem\u201d, faz eco ao que est\u00e1 no texto do Banquete, no \u00edndice 202\u00aa: \u201caneu tou ekhim logou dounai &#8211; dar a f\u00f3rmula sem t\u00ea-la\u201d.<\/p>\n<p>O mito do nascimento do amor, que s\u00f3 se encontra em S\u00f3crates \u2014 segundo Lacan, traz o amor nascendo da a\u00e7\u00e3o daquela a quem falta, Penia, aquela que deseja, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0quele que, tendo, n\u00e3o sabe de nada, ele repousa, ele \u00e9 Poros. E Lacan conclui, n\u00e3o sem um certo senso de humor, que \u201c\u00e9 o masculino que \u00e9 desej\u00e1vel, \u00e9 o feminino que \u00e9 ativo\u201d.<\/p>\n<p>Entre \u00e9rast\u00e8s e \u00e9r\u00f4m\u00e9nos, Lacan n\u00e3o diz que h\u00e1 um giro, mas, sim, que h\u00e1 um salto.<\/p>\n<p>S\u00f3crates recusa Alcib\u00edades, melhor dizendo, recusa o lugar no qual Alcib\u00edades queria coloc\u00e1-lo, e ao fim, aponta-lhe Agat\u00e3o. Atendendo \u00e0 sua demanda, ele faz o elogio de Agat\u00e3o, porque ele sabe, ele l\u00ea, que o que Alcib\u00edades quer \u00e9 ser amado por ele, S\u00f3crates, enquanto ele mesmo, Alcib\u00edades, ama Agat\u00e3o. Isto \u00e9, que ele seja o objeto de S\u00f3crates e que Agat\u00e3o seja o dele. Ao fazer o elogio de Agat\u00e3o, S\u00f3crates pede a Alceb\u00edades o que este lhe pedira. S\u00f3crates desvia-se do desejo de Alcib\u00edades porque ele sabe que o que ele deseja, S\u00f3crates n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Tanto em S\u00f3crates quanto em Agat\u00e3o, Alceb\u00edades s\u00f3 visa ao agalma. S\u00f3crates sabe o que \u00e9 o amor e por saber, se engana. Ele desconhece a fun\u00e7\u00e3o essencial do objeto visado constitu\u00eddo pelo agalma. Lacan nos lembra que Freud nos havia mostrado que o essencial do enamoramento est\u00e1 no jogo entre o eu ideal, o ideal do eu, e os objetos. A imagem narc\u00edsica vigorando forte no eu ideal, \u201ca encarna\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria do sujeito\u201d.<\/p>\n<p>Ao fazer refer\u00eancia ao momento em que Diotima diz no Banquete que o amor n\u00e3o \u00e9 um deus, mas, sim, um dem\u00f4nio que envia aos homens as mensagens dos deuses, Lacan afirma que o dem\u00f4nio de S\u00f3crates \u00e9 Alcib\u00edades. Os deuses s\u00f3 se revelavam no esc\u00e2ndalo, no ultrapassamento de todas as regras. Quando S\u00f3crates aponta para Alcib\u00edades Agat\u00e3o, aquele que est\u00e1 ali como o belo, o desejado, o que brilha naquele momento, ele indica que seu lugar \u00e9 o do desejante. Ele n\u00e3o nega seu desejo por Alcib\u00edades, e ele vai, na verdade, apontar para ele a possibilidade deste lugar de desejante, a passagem poss\u00edvel do querer ser amado para o desejar.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que Lacan vai al\u00e9m. O amor \u00e9 narc\u00edsico e o desejo visa a um objeto que n\u00e3o h\u00e1. O brilho dos objetos parciais \u00e9 logro, e esconde a falta do objeto. A revela\u00e7\u00e3o de Lacan, de \u201cque as coisas v\u00e3o do inconsciente para o sujeito que se constitui na sua depend\u00eancia, e remontam at\u00e9 este objeto n\u00facleo que chamamos aqui de agalma\u201d, \u00e9 o que ele chama de a estrutura que rege a dan\u00e7a entre Alcib\u00edades e S\u00f3crates.<\/p>\n<p>O desejo \u00e9 meton\u00edmico e n\u00e3o encontra nenhum objeto. O desejo \u00e9 falta que se recoloca deslizando sempre. O desejo \u00e9 o desejo do Outro. Ler essa afirmativa de Lacan nem nos surpreende mais, se a interpretarmos apenas no sentido de que desejamos o que \u00e9 objeto de desejo para o outro. Isso \u00e9 matriz de nossa fantasia. Mas, enquanto desejo do Outro, isso aponta para o <em>\u201cChe vuoi?\u201d<\/em>, para a falta radical que divide o sujeito. N\u00e3o h\u00e1 significante do desejo do outro, apenas significante da falta no Outro. N\u00e3o h\u00e1 amor como resposta a qualquer demanda, h\u00e1 apenas falta.<\/p>\n<p>A transfer\u00eancia \u00e9 amor. Mas amor de quem? Por quem?<\/p>\n<p>A literatura psicanal\u00edtica acusa Breuer de ter fugido desse amor. Mas ser\u00e1 muito diferente quando os analistas inventam e se apoiam no conceito de contratransfer\u00eancia como guia e basti\u00e3o das an\u00e1lises? N\u00e3o ser\u00e1 mais uma forma de fugir do amor de transfer\u00eancia? E a an\u00e1lise das resist\u00eancias que surgem no percurso de um tratamento? Freud nos disse que seu surgimento \u00e9 uma indica\u00e7\u00e3o valiosa da transfer\u00eancia. De que a an\u00e1lise chegou e bateu num ponto importante. O Inconsciente se fecha. Mas se os analistas n\u00e3o se esfor\u00e7arem para mant\u00ea-lo fechado, o inconsciente fecha para se abrir. Sim. Toda resist\u00eancia \u00e9 do analista. E isso quer dizer que os analistas continuam correndo do amor de transfer\u00eancia porque \u00e9 insuport\u00e1vel sustent\u00e1-lo se o analista n\u00e3o tem onde ele mesmo se sustentar. Se \u00e9 uma verdade pu\u00edda que a transfer\u00eancia \u00e9 o suporte das an\u00e1lises, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que \u00e9 preciso suport\u00e1-la, dar suporte a ela.<\/p>\n<p>Nesse semin\u00e1rio Lacan nos mostra a partir do que, ou melhor, de onde. Ele nomeia o desejo do analista como o que vai dar suporte ao analista na transfer\u00eancia. Qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do analista? \u201cTrata-se daquilo que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da resposta que o analista deve dar para dar conta do poder da transfer\u00eancia. Essa posi\u00e7\u00e3o, eu a distingo dizendo que no pr\u00f3prio lugar que \u00e9 o seu, o analista deve se ausentar de todo ideal do analista.\u201d Se ausentar de todo ideal, \u00e9 n\u00e3o ter mais nada onde se agarrar! Certamente uma an\u00e1lise s\u00f3 \u00e9 empreendida por algu\u00e9m que se submete a uma an\u00e1lise, \u00e0 supervis\u00e3o e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lacan mostra o jogo entre o grande I, i(a), e o pequeno a, e introduz a fun\u00e7\u00e3o do objeto pequeno <em>a<\/em> enquanto objeto do desejo. Seu lugar deve ser situado no ponto onde surge a interroga\u00e7\u00e3o \u201c<em>Che vuoi?<\/em>\u201d. A partir de onde vem a fantasia para fixar o lugar do desejo. Esse objeto, diz Lacan exemplificando-o no n\u00edvel da demanda oral, \u201cele n\u00e3o \u00e9 somente o que se toma, mas tamb\u00e9m o que se rejeita, o que se recusa, porque j\u00e1 \u00e9 outra coisa\u201d. Tratando-se do objeto do desejo, \u00e9 sempre de outra coisa que se trata. No campo do desejo, n\u00e3o h\u00e1 objeto que valha mais que outro. Se \u00e9 poss\u00edvel sustentar um lugar a partir do desejo, n\u00e3o pode ser um \u201cdesejo de\u201d, mas apenas desejo, seu lugar vazio. Sustenta\u00e7\u00e3o de um lugar vazio. E se insistirmos em pensar \u201cdesejo de\u201d, podemos dizer desejo de levar algu\u00e9m a esse ponto de se encontrar com esse vazio. Desejo de desejo.<\/p>\n<p>Em nossas Jornadas pudemos trabalhar com todos esses textos que est\u00e3o aqui e que fizeram com que, ao final, tiv\u00e9ssemos o que comemorar. Cada um do lugar onde est\u00e1 em seu caminho na psican\u00e1lise p\u00f4de enunciar em seu texto o que restou do longo per\u00edodo de trabalho no semin\u00e1rio da AEPM e nos Cart\u00e9is.<\/p>\n<p>Eu os convido a ler e de tempos em tempos, quem sabe, reler, o testemunho do nosso trabalho.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* Apresenta\u00e7\u00e3o da Publica\u00e7\u00e3o que reuniu os textos trabalhados durante as Jornadas de Cart\u00e9is em dezembro de 2023.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em dezembro de 2023 comemoramos nossos vinte e sete anos com as Jornadas de Cart\u00e9is sobre o Semin\u00e1rio 8 de Lacan, 1960-1961 \u2013 A transfer\u00eancia em sua disparidade subjetiva, sua pretensa situa\u00e7\u00e3o, suas excurs\u00f5es t\u00e9cnicas. Eu havia proposto na AEPM, aos Membros e Candidatos \u00e0 Forma\u00e7\u00e3o, a travessia de mais um Semin\u00e1rio de Lacan. 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