{"id":967,"date":"2024-09-14T17:21:45","date_gmt":"2024-09-14T17:21:45","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=967"},"modified":"2024-09-16T11:23:59","modified_gmt":"2024-09-16T11:23:59","slug":"uma-consistencia-perfeitamente-contraditoria-funciona-no-cerne-do-falasser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2024\/09\/14\/uma-consistencia-perfeitamente-contraditoria-funciona-no-cerne-do-falasser\/","title":{"rendered":"Uma consist\u00eancia perfeitamente contradit\u00f3ria funciona no cerne do falasser"},"content":{"rendered":"<p>Duas afirma\u00e7\u00f5es de Melman de 1983: \u201c<em>O que faz comando para um falasser \u00e9 um lugar<\/em>\u201d; \u201c<em>uma consist\u00eancia perfeitamente contradit\u00f3ria funciona no cerne do falasser<\/em>\u201d (Novos estudos sobre a histeria).<\/p>\n<p>Ao mostrar os quatro discursos na li\u00e7\u00e3o do dia 14 de janeiro de 1970, Lacan vai mostrando como a lei da linguagem se inscreve na estrutura e diz que: \u201c<em>Ao propormos a formaliza\u00e7\u00e3o do discurso e estabelecendo para n\u00f3s mesmos, no interior dessa formaliza\u00e7\u00e3o, algumas regras destinadas a p\u00f4-la \u00e0 prova, encontramos um elemento de impossibilidade. Eis o que est\u00e1 propriamente na base, na raiz do que \u00e9 um fato de estrutura. E \u00e9 isso, na estrutura, que nos interessa no n\u00edvel da experi\u00eancia anal\u00edtica.\u00a0\u00a0 [&#8230;] Por que estamos pelejando com essa manipula\u00e7\u00e3o do significante e sua eventual articula\u00e7\u00e3o?<\/em>\u201d (Semin\u00e1rio XVII<em>,<\/em> p. 46).<\/p>\n<p>A partir deste momento, Lacan evoca o fio que Freud seguiu em sua experi\u00eancia: de um lado, o desejo, do outro, das Ding, puls\u00e3o de morte, a tend\u00eancia do retorno ao inanimado. \u201c<em>A\u00ed \u00e9 que se origina, no discurso freudiano, a fun\u00e7\u00e3o de objeto perdido<\/em>\u201d (Semin\u00e1rio XVII<em>,<\/em> p. 48), que leva \u00e0 busca desse gozo ruinoso (destrutivo). Por outro lado, Lacan traz a fun\u00e7\u00e3o tra\u00e7o un\u00e1rio como a forma mais simples de marca, que \u00e9 falando propriamente a origem do significante; \u201c[&#8230;] <em>\u00e9 no tra\u00e7o un\u00e1rio que tem origem tudo que nos interessa, a n\u00f3s analistas, como saber<\/em>\u201d (Semin\u00e1rio XVII<em>,<\/em> p. 48). Esse tra\u00e7o nada tem a ver com o conhecimento, com algo que orientaria o sujeito. N\u00e3o se pode atribuir a essa marca a <em>coisidade da coisa,<\/em> ou qualquer outra substancialidade, pois \u00e9 isso que est\u00e1 perdido nesse tra\u00e7o, um saber que n\u00e3o se sabe. E Lacan acrescenta, \u00e9 esse oco que os objetos v\u00eam preencher, servir de rolha. O saber em sua origem se reduz \u00e0 articula\u00e7\u00e3o significante e o objeto <em>a<\/em> decorre dessa entropia. Tal saber \u00e9 meio de gozo, quando ele trabalha, o que se produz \u00e9 entropia, \u00e9 perda. (Semin\u00e1rio XVII, p. 53)<\/p>\n<p>Partindo dessa consist\u00eancia perfeitamente contradit\u00f3ria no cerne do falasser, encontramos a entropia, a perda e o saber reduzido em sua origem \u00e0 articula\u00e7\u00e3o significante. S1, S2, par ordenado, presen\u00e7a e aus\u00eancia, discos pretos, discos brancos, temos o discurso, que \u00e9 um discurso sem palavras, cujo funcionamento se d\u00e1 a partir dos termos: significantes S1 e S2, objeto <em>a<\/em> e sujeito barrado. E temos tamb\u00e9m lugares: o agente, o outro, o mais-de-gozar ou produ\u00e7\u00e3o e a verdade.<\/p>\n<p>Se o sofrimento, o sintoma, leva um sujeito a pedir uma an\u00e1lise, lembramos que o sofrimento s\u00f3 existe a partir do significante. E, por defini\u00e7\u00e3o, um significante \u00e9 o que representa um sujeito para outro significante.\u00a0 \u201c[&#8230;] <em>o processo prim\u00e1rio n\u00e3o encontra nada de real, sen\u00e3o o imposs\u00edvel<\/em>\u201d (<em>Escritos, De nossos antecedentes, p. 72<\/em>) e no semin\u00e1rio <em>De um Outro ao outro<\/em>, Lacan diz: \u201c[&#8230;] <em>o sofrimento n\u00e3o \u00e9 nada mais do que o sofrimento<\/em> [&#8230;]. <em>Se o que fazemos, n\u00f3s analistas, opera, \u00e9 justamente da\u00ed que o sofrimento n\u00e3o \u00e9 o sofrimento,<\/em> [&#8230;] <em>o sofrimento \u00e9 um fato<\/em>\u201d (Semin\u00e1rio XVI, p. 63, tradu\u00e7\u00e3o CEF). E quanto ao fato, tudo que est\u00e1 no mundo, s\u00f3 se torna fato a partir do que o significante a\u00ed se articula. \u201c<em>H\u00e1 o sofrimento que \u00e9 fato, isto \u00e9, que encerra um dizer; \u00e9 por essa ambiguidade que se refuta que ele seja intranspon\u00edvel em sua manifesta\u00e7\u00e3o, que o sintoma pode ser a verdade. Eu fa\u00e7o dizer o sofrimento, como fiz dizer a verdade <\/em>[&#8230;]\u201d (Semin\u00e1rio XVI, p. 63, tradu\u00e7\u00e3o CEF). A verdade fala \u201cJe\u201d. Mas n\u00e3o h\u00e1 verdade absoluta, ela s\u00f3 pode ser semi-dita, s\u00f3 aparece em enigma. E o saber, por sua vez, se reduz em sua origem \u00e0 articula\u00e7\u00e3o significante; em nosso saber, estamos reduzidos ao funcionamento significante.<\/p>\n<p>Lacan nos leva ao osso duro da an\u00e1lise neste semin\u00e1rio. E um percurso longo de an\u00e1lise nos aproxima desse osso duro: passamos uma an\u00e1lise a construir, ou como saiu <em>a construtuir<\/em>, pelo qual fui fisgada: construir, ir tu, intuir, enfim, em uma an\u00e1lise, descobrimos que somos um pouco como Rosalie, protagonista do conto <em>A enganada<\/em> de Thomas Mann; constru\u00edmos a nossa hist\u00f3ria, atribu\u00edmos sentido a tudo, protegemo-nos do vazio com uma fantasia que vem nos socorrer. Para n\u00e3o ficar t\u00e3o esp\u00fario, trago um trecho de uma sess\u00e3o de an\u00e1lise: depois de falar desse conto de Thomas Mann, come\u00e7o a perguntar em que vou usar o recurso herdado. E s\u00f3 vem a constru\u00e7\u00e3o de uma casa, a constru\u00e7\u00e3o de um empreendimento. E escuto: voc\u00ea s\u00f3 pensa em construir? E, como um rel\u00e2mpago, lembro que minha av\u00f3 constru\u00eda casas, que minha m\u00e3e constru\u00eda casas, que quando eu era crian\u00e7a brincava de mestre de <em>obras<\/em>. E come\u00e7o a rir, pensando que acabara de inventar uma genealogia da constru\u00e7\u00e3o. E dessa perfeita contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos livramos, mesmo porque ela \u00e9 constitutiva, e levamos, elevamos, ele, vamos, mas podemos.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Texto escrito a partir do dispositivo\u00a0<em>Trabalho Preparat\u00f3rio para o Semin\u00e1rio de Ver\u00e3o da ALI \u2013 2024<\/em>, coordenado por Val\u00e9ria Lameira e Virginia Guilhon.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duas afirma\u00e7\u00f5es de Melman de 1983: \u201cO que faz comando para um falasser \u00e9 um lugar\u201d; \u201cuma consist\u00eancia perfeitamente contradit\u00f3ria funciona no cerne do falasser\u201d (Novos estudos sobre a histeria). 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