{"id":975,"date":"2024-09-13T17:31:28","date_gmt":"2024-09-13T17:31:28","guid":{"rendered":"https:\/\/aepm.com.br\/?p=975"},"modified":"2024-09-16T11:24:17","modified_gmt":"2024-09-16T11:24:17","slug":"como-o-analista-costura-o-tecido-trazido-num-pedido-de-analise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/2024\/09\/13\/como-o-analista-costura-o-tecido-trazido-num-pedido-de-analise\/","title":{"rendered":"Como o analista costura o tecido trazido num pedido de an\u00e1lise?"},"content":{"rendered":"<p>Para encaminhar uma quest\u00e3o a partir da passagem pelo Semin\u00e1rio XVII de Lacan, a dificuldade j\u00e1 se coloca de sa\u00edda, na medida em que me volto para uma advert\u00eancia mostrada em seu Semin\u00e1rio anterior, <em>De um Outro ao outro<\/em>, que diz que a vida \u00e9 feita de um giro (um grito) na incid\u00eancia da Hist\u00f3ria; de uma descontinuidade, corte! Lacan interroga os analistas: queremos ir adiante com as quest\u00f5es do sujeito, de onde Freud deixou a psican\u00e1lise, nos \u201crochedos da castra\u00e7\u00e3o\u201d? Estamos dispostos ao novo? Al\u00e9m do Semin\u00e1rio XVI, contei tamb\u00e9m com os caminhos descritos por Laurence Bataille, para me aproximar da proposi\u00e7\u00e3o dos discursos de Lacan, que concerne ao tratamento que se pretende anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Arrisco dizer que n\u00e3o me furtar a formular uma quest\u00e3o d\u00e1 ind\u00edcios de minha disposi\u00e7\u00e3o em ir adiante, mas ser\u00e1 que estou no caminho? Como sustentar teoricamente o que acontece na pr\u00e1tica, dentro do consult\u00f3rio? Ser\u00e1 que eu sei? N\u00e3o! N\u00e3o sei, o saber \u00e9 inconsciente, mas se o inconsciente \u00e9 estruturado como uma linguagem, devo me colocar em posi\u00e7\u00e3o de escutar nas narrativas, met\u00e1foras e meton\u00edmias, quem est\u00e1 falando pela boca desta pessoa que fala Outra Coisa, de que lugar parte sua fala.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que iniciei uma pr\u00e1tica cl\u00ednica acreditando estar bem-posicionada, at\u00e9 que me encontrei com a Associa\u00e7\u00e3o Escola de Psican\u00e1lise do Maranh\u00e3o, onde entrei, com um pedido para participar de um grupo de leitura do Semin\u00e1rio XVII e, naquela \u00e9poca, nem me dei conta que Lacan advertia para o fato de que a refer\u00eancia ao complexo de \u00c9dipo de nada vale numa an\u00e1lise, sen\u00e3o para o que extrai do texto de Freud, isto \u00e9, a castra\u00e7\u00e3o, a divis\u00e3o do sujeito, o objeto Causa de desejo. O estudo te\u00f3rico, indispens\u00e1vel \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do analista, repercute em meu modo de trabalhar, na medida em que me faz reconhecer dificuldades para sustentar teoricamente minha pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Pautada no que Freud nomeou <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em>, sem for\u00e7ar um enquadre te\u00f3rico, busco adentrar nas formula\u00e7\u00f5es do que pode estar de acordo com a proposi\u00e7\u00e3o lacaniana que diz que o sujeito \u00e9 dividido pelo que lhe falta de marca instintiva, pelo fato de vir ao mundo de linguagem, numa rede discursiva adornada de significantes, os quais lhe marcaram; um Outro o marcou, sem que ele nada saiba sobre Isso. O falante busca cobrir esta falha aberta se dirigindo ao Outro, em quem sup\u00f5e saber, alheio ao fato de que no Outro n\u00e3o h\u00e1 um significante que possa emitir uma resposta definitiva que lhe permita viver em paz. Ali\u00e1s, a paz n\u00e3o \u00e9 para os vivos.<\/p>\n<p>Parto do entendimento de que a psican\u00e1lise prop\u00f5e dirigir sua aten\u00e7\u00e3o \u00e0s teorias constru\u00eddas pelos falantes, por isso, uma teoria da pr\u00e1tica que conta as falhas, os ocos da narrativa, e me interrogo sobre o quanto sou capaz de coser um discurso \u00e0s refer\u00eancias de Lacan; situar minha pr\u00e1tica, a cada vez, a cada fala que se dirige a mim com um pedido de tratamento. Trata-se de um pedido de an\u00e1lise? E, ainda que seja, est\u00e1 este sujeito disposto a pagar pelo que pede? Penso que a dire\u00e7\u00e3o do tratamento deve ater-se nas entrelinhas das narrativas, acompanhando suas associa\u00e7\u00f5es, repeti\u00e7\u00f5es, que servem ao analista para tra\u00e7ar suas diretrizes e dar uma chance, pela palavra, a algo do real. Contudo, n\u00e3o s\u00e3o poucas as vezes em que me pego desconfort\u00e1vel na \u201csitua\u00e7\u00e3o anal\u00edtica\u201d, a me perguntar se minha diretriz est\u00e1 de acordo com aquela estabelecida por Lacan.<\/p>\n<p>No curso do ensino de Lacan, desde \u201c<em>o inconsciente estruturado como linguagem<\/em>\u201d, encontramos formula\u00e7\u00f5es, ferramentas a dispor do psicanalista, na tarefa de dirigir uma an\u00e1lise. No curso dos encontros preparat\u00f3rios ao Semin\u00e1rio de ver\u00e3o da ALI, ao me aproximar da teoria dos discursos de Lacan, proposta em seu Semin\u00e1rio XVII, <em>O avesso da psican\u00e1lise<\/em>, certifico que o ser falante se inscreve numa estrutura m\u00ednima de linguagem, na rede de significantes que constr\u00f3i a partir da falta de um significante que ele chamou S1. A partir da\u00ed, tento situar minha pr\u00e1tica, desde as primeiras entrevistas, atenta \u00e0s palavras, sua amarra\u00e7\u00e3o, que forma discursos, e tem o inconsciente como diretor do texto que \u00e9 contado, com aten\u00e7\u00e3o voltada para o que configura um pedido de an\u00e1lise, a partir de uma falta. Qual \u00e9 o meu trabalho ali?\u00a0 Como ir com algu\u00e9m ao lugar de onde partiu?<\/p>\n<p>Vou considerar como quest\u00e3o, <em>que quer o Outro de mim<\/em>? Um triscar da castra\u00e7\u00e3o, brecha pr\u00f3pria \u00e0 estrutura neur\u00f3tica, abre-se, quando todos os seus objetos, n\u00e3o conseguem tapar a falta. Quando uma mulher me procura e diz \u201ceu tenho um problema\u201d, ela vem pedir ajuda, aux\u00edlio para lidar com o buraco de onde o desejo se articula, onde o simb\u00f3lico ganharia peso. \u00c9 ela que, em condi\u00e7\u00e3o de falante, de mulher, de objeto, mascara-se. Do sentimento de fracasso \u00e0s lembran\u00e7as familiares e infantis, um primeiro passo para a reflex\u00e3o de uma cl\u00ednica, referida ao discurso psicanal\u00edtico. \u00c9 neste pequeno passo que me detenho, por ora.<\/p>\n<p>Estou certa de que algo do discurso, nas entrevistas, se deslocou e, como diz Alayde Martins, n\u00e3o por obra do Esp\u00edrito Santo. Ent\u00e3o, me esfor\u00e7o para avan\u00e7ar no estudo da proposi\u00e7\u00e3o de Lacan, de sua teoria dos quatro discursos. Acredito que assim possa tomar a condu\u00e7\u00e3o de um tratamento com a responsabilidade que favorece que uma an\u00e1lise n\u00e3o seja interrompida. Para ir adiante neste percurso, conto com minha an\u00e1lise, supervis\u00e3o e o trabalho de alguns outros na institui\u00e7\u00e3o, para dividir e esclarecer quanto aos termos e lugares de onde uma fala parte, a quem se dirige, qual sua produ\u00e7\u00e3o e verdade.<\/p>\n<p>Recorro \u00e0 Bataille, ao seu trabalho com os discursos de Lacan, com a leitura cl\u00ednica a partir de termos em determinados lugares na estrutura, para seguir em frente. Ent\u00e3o, vou arriscar dizer que, em uma primeira entrevista, aquilo que uma pessoa vem pedir, ela mesma n\u00e3o sabe, ent\u00e3o, p\u00f5e-se a falar. Nessa circunst\u00e2ncia, o que est\u00e1 no lugar de agente \u00e9 o significante-mestre, S1, um significante qualquer que no ato de se colocar na rede para representar o sujeito para um outro significante, excluiu o sujeito de qualquer representa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Este \u00e9 o discurso do Mestre, um discurso que tem S2 no lugar do saber, recurso relativo \u00e0 falta. No lugar da produ\u00e7\u00e3o, coloca tudo que seu ideal almeja, tentativa v\u00e3 de escapar \u00e0 divis\u00e3o.<\/p>\n<p>Como o tempo \u00e9 o senhor de todas as Coisas, e condi\u00e7\u00e3o para uma jovem tornar-se uma mulher, e a transfer\u00eancia, o que institui uma an\u00e1lise, arrisco dizer que o momento das entrevistas permite um passo importante que \u00e9 a passagem do sujeito barrado do lugar da verdade, ao lugar de agente. \u00c9 quando a analisanda passa da queixa, do gozo, \u00e0s lembran\u00e7as infantis; ao seu lugar no sexo, \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, de sua falta-\u00e0-ser, que deposita sua confian\u00e7a na escuta de quem dirige o tratamento, em quem acredita que sabe &#8211; S1 &#8211; para lidar com uma situa\u00e7\u00e3o que lhe causa nojo, objeto <em>a<\/em>, em posi\u00e7\u00e3o de verdade, configurando o que Lacan escreveu como discurso Hist\u00e9rico.<\/p>\n<p>Nesta disposi\u00e7\u00e3o, quando o falante busca no outro a resposta pronta para o que lhe falta, se ali encontra um analista, ou seja, o objeto <em>a<\/em> no lugar de agente, que em vez de explica\u00e7\u00f5es, repletas de atribui\u00e7\u00e3o de sentidos, abre a possibilidade de quest\u00f5es que implicam sua queixa, seu gozo, seu desconforto, sua carne, h\u00e1 a\u00ed uma chance de se produzir um novo saber que \u00e9 a resposta do sujeito dividido em lugar de trabalho no discurso do Analista.<\/p>\n<p>Deste modo, meu trabalho \u00e9 trabalhar, tentando sustentar minha cl\u00ednica na dire\u00e7\u00e3o do (in)suport\u00e1vel do desejo, calando e falando, na via onde se tecem sintomas e ang\u00fastias, escutando. Apostando que a partir dessa aproxima\u00e7\u00e3o com os tetr\u00e1podos de Lacan, dirijo um tratamento anal\u00edtico de maneira diferente.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Texto escrito a partir do dispositivo <em>Trabalho Preparat\u00f3rio para o Semin\u00e1rio de Ver\u00e3o da ALI \u2013 2024<\/em>, coordenado por Val\u00e9ria Lameira e Virginia Guilhon.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para encaminhar uma quest\u00e3o a partir da passagem pelo Semin\u00e1rio XVII de Lacan, a dificuldade j\u00e1 se coloca de sa\u00edda, na medida em que me volto para uma advert\u00eancia mostrada em seu Semin\u00e1rio anterior, De um Outro ao outro, que diz que a vida \u00e9 feita de um giro (um grito) na incid\u00eancia da Hist\u00f3ria; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[13,12],"tags":[114,107,57,115],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/975"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=975"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/975\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":988,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/975\/revisions\/988"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=975"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=975"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aepm.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=975"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}